Neuropotenciação e os desafios do “melhoramento humano”

A Ciência na fronteira do futuro ou do “brincar aos deuses”

Há investigadores, por enquanto ainda pouco numerosos, que defendem a ideia de que a evolução da espécie humana passou a estar sob o controle dos humanos e que não temos outra opção do que a de imaginarmos que em breve criaremos “transhumanos” desenhados não só geneticamente mas com ligações permanentes a computadores e com capacidades físicas e cognitivas muito superiores às dos actuais humanos. Esta é porém uma questão que deixo aos que têm mais imaginação do que eu.

A neuropotenciação, como conceito, pode e deve ser inserida na noção mais vasta de “human enhancement”, termo inglês que não é fácil de traduzir para português. A sua tradução literal, como “melhoramento humano”, faz-nos pensar quase que exclusivamente nos movimentos eugénicos, muito populares no fim do século XIX e início do século XX, antes da sua total desacreditação na sequência das revelações sobre as políticas de limpeza étnica nazi, soviética, e não só. A ideia de melhoramento genético das espécies (e neste caso dos humanos) vem-nos imediatamente à cabeça, com toda a bagagem assustadora que ela frequentemente invoca. Mas o “melhoramento humano” a que gostaria de me referir, e neste caso em particular aplicado ao cérebro, envolve domínios do conhecimento muito mais vastos e interdisciplinares do que a do simples e em grande parte questionado determinismo genético.

Apesar de continuarmos a saber muito pouco sobre como funciona este órgão extraordinário e complexo que é o cérebro humano, há milénios que nos esforçamos por tornar o pensamento (seu principal output) mais relevante e útil, não só para a nossa sobrevivência como também para uma melhor qualidade de vida. A partir dos primeiros momentos da nossa existência somos “encorajados” a adquirir conhecimentos que potencialmente nos ajudarão a navegar na família, na sociedade e no mundo que nos rodeia. Conhecimentos que igualmente nos serão essenciais na construção da nossa autonomia, liberdade e, se tivermos sorte, com algum esforço adicional, da nossa responsabilidade individual, social e política.

Vale a pena recordar que o direito divino dos reis começa a ser questionado a partir da Magna Carta no século XIII; que a liberdade religiosa foi conquistada pela Reforma; que a escravatura começa a ser abolida a partir do século XVIII, mas que o pleno direito de voto para as mulheres, em muitos locais, só começa a ser conseguido na segunda metade do século XX. Já para não falar nos direitos das múltiplas minorias que nos rodeiam e que por esse mundo fora ainda não são reconhecidos. Será que alguém duvida que estes ganhos sucessivos, em que centenas de milhões de vidas humanas foram sacrificadas, não representam uma contribuição inquestionável para a nossa capacidade de pensar e escolher a forma como queremos viver? E que o investimento extraordinário que muitas sociedades colocam na educação das gerações futuras representa uma aposta clara e inquestionada na convicção de que o conhecimento é o instrumento mais valioso que lhes podemos oferecer, na busca das suas utopias? Não será a educação uma das formas mais bem conseguidas de neuropotenciação?

Quantas vezes nos apercebemos de novas ideias ou novas formas de olharmos para o mundo e para nós próprios, só porque tivemos a sorte de ler um texto desconhecido, de aprofundar um determinado domínio do conhecimento ou de conhecer alguém que ousa questionar as nossas certezas? E não será essa liberdade de pensar, questionar, discordar e acabar por escolher, nem que seja temporariamente, novos paradigmas, um dos mais bem conseguidos e robustos exemplos de neuropotenciação?

Curiosamente, a este tipo de melhoramento é dada pouca atenção pela sociedade nos dias de hoje. It is very often taken for granted!!! Apesar de todos estarmos mais do que conscientes da enorme fragilidade destes ganhos.
 

TERAPIA OU POTENCIAÇÃO?

Actualmente são três os grandes domínios onde se investigam inovações em neuropotenciação e que atraem a nossa atenção: a descoberta e/ou o desenho de novos fármacos; a interface entre cérebro e computadores (e outras máquinas); e a regeneração/engenharia de tecidos.

Mas antes de explorarmos cada uma destas áreas, vale a pena tentar esclarecer que a fronteira entre o que se considera como terapia e o que é visto como potenciação (ou melhoramento) é frequentemente difusa.

Dois exemplos: as lentes dos nossos óculos são incluídas no domínio da terapia (recuperar a acuidade visual que vamos perdendo ao longo da vida), mas as lentes que nos permitem ver no infravermelho (usadas por soldados, polícias e investigadores) são claramente potenciação (pois conferem uma nova capacidade aos humanos). E quem sabe, talvez um dia venha a ser possível alterar a bioquímica e fisiologia das células da nossa retina de modo a que elas passem a ser sensíveis também às radiações infravermelhas e aos ultravioletas, permitindo desse modo “ver” também nessas regiões do espectro electromagnético; este seria um caso ainda mais extraordinário de potenciação.

Outro exemplo seria a de certos esteróides: quando são usados para curar vários tipos de distrofias musculares, estão claramente a ser usados como terapia, ao passo que quando usados por atletas (ciclistas, corredores, culturistas etc.), passam provavelmente para o domínio da potenciação e, actualmente, da criminalidade.

O mercado está inundado por novas moléculas (muitas vezes acessíveis através da internet e sem receita médica) que afectam de forma significativa o nosso comportamento: estimulantes, calmantes, antidepressivos, ansiolíticos etc. A grande maioria destas moléculas é hoje usada tanto para terapia como para potenciação. E muitas “novas” moléculas estão a ser desenhadas e fabricadas para síndromes cuja existência é contestada por muitos terapeutas (o debate recente à volta da quinta edição do Dicionário de Saúde Mental ilustra bem este problema) mas que, quem sabe, poderão vir a ser (ab)usadas por uma parte muito significativa do público.

Não nos devemos no entanto esquecer que a tradição de substâncias que contêm moléculas que afectam o nosso comportamento é muito antiga e tem sido usada nos mais variados rituais religiosos e seculares. O álcool, o tabaco, o café, a coca, o ópio, a valeriana, a mescalina, alguns cogumelos e o LSD são só alguns exemplos.

No caso das novas moléculas, uma das preocupações actuais está relacionada com a dos efeitos a longo prazo, que são, em muitos casos, praticamente desconhecidos. No caso de utilização em crianças da Ritalina para o tratamento do Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperactividade, este problema é particularmente preocupante.

Outra das aplicações tem a ver com a utilização de novas moléculas para aumentar a resistência e a capacidade física e/ou mental de recrutas militares e cuja utilização em cenário de guerra é cada vez mais frequente. Muitos suspeitam que em vários conflitos recentes esses recrutas tenham sido utilizados como cobaias para investigação.

Controlar o sono, melhorar a atenção e aumentar a memória são certamente do interesse de muitos profissionais e de uma enorme percentagem da população. Todos estes exemplos são formas de potenciação, em certos casos já livremente acessíveis. Quais os limites desejáveis em relação ao acesso e utilização de muitas destas novas moléculas, numa sociedade que valoriza incontestavelmente a autonomia individual? Este tema é extremamente actual.
 

CÉREBROS E MÁQUINAS

A segunda grande área de intervenção tem a ver com a interface entre o cérebro (isto é, células vivas) e computadores e/ ou máquinas, com a possibilidade de transferências de informação na forma de sinais eléctricos ou magnéticos. As televisões de todo o mundo mostraram recentemente o caso de uma mulher sem braços que, através de um minúsculo chip inserido numa região muito particular do seu cérebro, conseguia transferir “ordens mentais” para um computador, que por sua vez estava ligado a um braço mecânico que, controlado exclusivamente através do seu cérebro, pegava numa chávena de café poisada numa mesa à sua frente e a levava aos seus lábios para ela beber. Até há muito pouco tempo esta possibilidade mantinha-se na área da ficção científica e muitos dos que viram este filme (em que eu também me incluo) ficaram boquiabertos.

Vários laboratórios estão actualmente a estudar a possibilidade de transferir informação entre cérebros (para já, que eu saiba, só em animais) exclusivamente através de chips.

Há já vários anos que, no caso da doença de Parkinson, é possível, estimulando electricamente um número muito reduzido de neurónios no cérebro, controlar os tremores físicos associados a essa doença. No entanto, no caso acima descrito trata-se da situação inversa: a de transferir sinais eléctricos cerebrais associados ao desejo de levar uma chávena de café da mesa aos lábios (sem entornar) para um computador e depois para um braço mecânico que executa a tarefa.

E o inverso? Será que um dia se poderá vir a controlar do exterior, via computadores e chips localizados em locais bem definidos do cérebro, os desejos (de café, de alimentação, de agressividade, de controle, etc.) e os comportamentos dos seres humanos? Estas possibilidades obviamente fascinam e assustam ao mesmo tempo.

E a possibilidade de transferirmos automaticamente e podermos armazenar enormes quantidades de memória em computadores directamente “ligados” a regiões críticas do nosso cérebro? Ou, por outras palavras, armazenarmos quantidades gigantescas de memória em máquinas, enquanto não as utilizamos, podendo ir lá buscar essa informação em fracções de segundo? Será este um desafio realista? Fará sentido? Como determinar a informação que estamos ou não a utilizar em diferentes momentos do nosso pensamento, excluindo a que supomos ser desnecessária?

REGENERAÇÃO DE TECIDOS HUMANOS

Finalmente o terceiro grande domínio de intervenção, relacionado com a regeneração e a engenharia genética de tecidos humanos. Os grandes sucessos nesta área provêm, como não deve espantar ninguém, de tecidos que não os cerebrais. A regeneração de tecidos como a pele, o músculo, o fígado, o osso e a cartilagem já é possível em muitas situações. Obviamente que para os que sofrem de doenças neurodegenerativas como são o Alzheimer, Parkinson, Huntington e a “doença dos pezinhos”, a possibilidade de interromper a progressão da doença, ou até de a reverter, é o desejo de milhões de pacientes e dos seus cuidadores. Nestes casos a atenção tem-se focado sobre novos fármacos, mas com sucessos relativamente limitados. Estão a decorrer nesta altura vários testes com novos fármacos a nível mundial, pelo interesse, tanto científico como económico, destas doenças. A regeneração dos tecidos afectados, introduzindo células estaminais embrionárias, seria outra forma de lidar com o problema, mas aqui as poucas experiências já realizadas não têm sido bem sucedidas. É claro que, em todos estes casos, estamos a falar exclusivamente em terapia.

A ideia de um dia virmos a seleccionar embriões com determinadas características genéticas que conferem vantagens físicas e/ou cognitivas, continua a ser debatida com posições muito diversas. Consta que os bancos de espermatozóides colhidos de prémios Nobel e de grandes atletas, na Califórnia (e não só) não tem sido bem sucedidos. Enquanto até há bem pouco tempo eram só espermatozóides que estavam à venda, já começaram a aparecer bancos de ovócitos de mulheres (grandes atletas, cientistas, empreendedoras) anunciados em variadíssimos locais; até que ponto vão ao encontro das necessidades do mercado, só o tempo dirá.

Isto porque muitos suspeitam que o número de genes que influenciam a inteligência, a criatividade, a perseverança e a memória é enorme, e que para além disso os factores ambientais (epigenéticos) podem ser igualmente determinantes. Estes mesmos argumentos tornam improvável que, a curto prazo, alguém considere a possibilidade de alterar a constituição genética humana com o objectivo de potenciação cognitiva.

Um número muito reduzido de investigadores defende a ideia de que a evolução da espécie humana passou a estar agora sob o controle dos humanos e que não temos outra opção senão a de imaginarmos que em breve criaremos “trans-humanos” desenhados não só geneticamente mas com ligações permanentes a computadores e com capacidades físicas e cognitivas muito superiores às dos actuais humanos. Como sempre tive enorme dificuldade em prever o futuro, deixo esta questão para os que têm mais imaginação do que eu.

Obviamente que enquanto alguns ficam fascinados com as possibilidades futuras ao nosso alcance, outros acham que estamos claramente a “brincar aos deuses” e que devemos ter muito cuidado. Mas também aqui vale a pena recordar as enormes discordâncias (entre o fascínio e o medo) em relação à procriação medicamente assistida, aos transplantes, à própria anestesia e aos vários tipos de pílulas anticonceptivas. Apesar da enorme resistência de uma parte significativa da sociedade, hoje em dia, são poucos os que gostariam de proibir o acesso a estas tecnologias. Ou mesmo, para voltarmos ao início deste texto, aos livros que eram considerados “perigosos” e que não deveriam ser lidos, excepto pelos menos influenciáveis (creio que o Índex ainda existe, mas que tem pouca influência mesmo entre católicos). Hoje o debate tem-se centrado mais sobre os organismos geneticamente modificados (na agricultura), a clonagem (animal e humana) e sobre as células estaminais embrionárias humanas. Muito tem sido escrito sobre estes temas e, por isso, não nos devemos espantar que o debate sobre a neuropotenciação, apesar de não ser novo, continue a envolver um número crescente de cidadãos nas nossas sociedades altamente diversificadas e polarizadas.

A precaução em relação a todo o novo conhecimento é obviamente útil e até essencial, mas não imaginar que o conhecimento possa vir a alterar a nossa visão do mundo e que possa alterar muitos dos paradigmas actuais, só pode ser visto como preocupante. Mas infelizmente temos exemplos suficientes no passado das consequências desastrosas de uma precaução exagerada (sobretudo quando ela resulta em proibição e criminalização) nas mais variadas culturas.

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