Quem é? O que é? A Europa

Identidade

Senti-me europeu quando, no Liceu de Pedro Nunes, decorei poemas de Alphonse de Lamartine; quando os meus pais me levaram ao Teatro Nacional para ver “O Sonho de uma Noite de Verão”; quando, antes de haver gravação integral, ouvi e vi “Parsifal” no São Carlos; quando comi a minha primeira pizza em Verona e apanhei uma diarreia; quando, na primeira viagem a Inglaterra, cheguei ao meu quarto do New College (Oxford) às 2 A.M.; quando entrei na Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, e soube que lá jazia o coração de Chopin; quando vi as pinturas de Vilhelm Hammershoi em Copenhaga; quando deambulo pela Sintra de William Beckford e Richard Strauss.

1. MITO

A Europa nasceu no Mediterrâneo e é uma invenção grega. Como todos os mitos, a verdade perde-se no caos da História. Para uns, a Europa seria filha de Agenor, rei de Tiro (embora nascido em Mênfis, no Egipto), e irmã de Cadmus e de Fénix. Na Ilíada, porém, Homero apresenta-a como filha de Fénix. Filha ou irmã, a Europa está ligada à Fenícia (actual Líbano) dos navegadores. Zeus avistou-a a colher flores junto ao mar e metamorfoseou-se num touro branco para a conquistar; ela pôs-lhe uma grinalda entre os cornos, cavalgou-o e Zeus levou-a para Creta, onde lhe fez três filhos, um dos quais Minos. Assim começou o rapto e violação de Europa, a primeira rainha de Creta. Na Eneida, Virgílio chama a Cartago a “cidade de Agenor”. Dido (a fenícia Elissa), rainha de Cartago e amante de Eneias (fundador de Roma), seria uma descendente de Agenor. A genealogia de Europa está, pois, associada à orla mediterrânica: Grécia, Egipto, Líbano, Creta, Tunísia, Itália (Roma). No seu ADN há desejo e violação e impulsos errantes de natureza marítima. (O pai de Agenor era Poseidon, o deus dos oceanos.) Em grego, Europa significará “rosto largo” e olhos grandes, mas parece que a origem da palavra será fenícia e indicará o Ocidente, a direcção onde o Sol se põe. Aliás, Fénix e Fenícia também partilham a mesma raiz, associada ao Sol vermelho e à tinta púrpura do murex comercializada pelos fenícios de Tiro. Europa é mar, desejo, viagem e o esplendor rubro do poente.

2. DIVISÕES

Inicialmente o termo Europa teria sido atribuído à parte da Trácia a sul dos Balcãs, mas Heródoto já via o mundo dividido em três partes: Europa, Ásia e Líbia (África), separadas pelos rios Don e Nilo. A ocidente, estariam as Colunas de Hércules (Gibraltar), dividindo a Europa da África. Os romanos adoptaram muita da mitologia grega, dando novos nomes aos deuses: Zeus passou a ser Júpiter e Poseidon, Neptuno; Hera (mulher de Zeus) deu em Juno, e Afrodite, em Vénus; Ares ficou Marte, e Hermes, Mercúrio; Apolo manteve o nome.

A norte, cresciam as sagas nórdicas, com deuses como Odin e heróis como Lemminkäinen (Kalevala). Richard Wagner aproveitou-as para O Anel do Nibelungo, onde Odin é, agora, Wotan, deus supremo. Um deus que partilha várias circunstâncias com Zeus: uma mulher ciumenta (Fricka) e muitos filhos e filhas fora da união. Não existe uma Europa, mas sim Freia, irmã de Fricka – uma deusa associada à beleza, juventude, amor e fertilidade. Destas várias olimpíadas derivaram os nomes dos dias da semana nas várias línguas europeias: por exemplo, as quintas-feiras em espanhol (Jueves) e francês (Jeudi) vêm de Júpiter; as sextas-feiras em inglês (Friday) e alemão (Freitag), de Freia.

Mitologicamente há uma clivagem entre o Norte e o Sul europeus, extensível aos respectivos modos de vida e organização. A tentação é recorrer à dualidade nietzschiana do apolíneo-dionisíaco para a explicar: um Norte regulado pela razão e um Sul com as emoções à solta. O calor vai bem com Diónisos, o deus do vinho e dos excessos, e o frio casa com Apolo, o deus da luz e da verdade. Ou será a Europa uma máquina termodinâmica, com a fonte quente a Sul e a fonte fria a Norte? A ser assim, quanto maior fosse a diferença entre essas temperaturas, mais eficiente seria o motor europeu... O que não parece ser o caso.

De ocidente a oriente a transição é gradual, até porque não existe uma divisória natural com a Ásia. A Europa não é um verdadeiro continente; é um promontório da Ásia, quando muito um semicontinente. Qual a fronteira? O rio Don, para os Antigos; os Urais, para o presidente Charles de Gaulle. Houve, é certo, uma separação recente quando uma “cortina de ferro desceu, atravessando o continente, [do] Báltico [ao] Adriático”, como declarou Winston Churchill no célebre discurso de 1946. (A cortina foi finalmente rasgada em Novembro de 1989.) A Rússia–talcomoaTurquia–éounãoéEuropa,no todo ou em parte. Istambul (a antiga Constantinopla) faz parte do continente. E há que contar com as ilhas (Islândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Sicília, Malta, etc.). A Europa é um dos mais recortados e fragmentados dos sete continentes. É também o segundo mais pequeno, ocupando apenas 6,8 % da superfície continental.

Em Os Lusíadas (1572), Luís de Camões traça um primeiro esboço (moderno) da Europa. No Canto X considera “as várias partes que os insanos/ Mares dividem” e vê a “Europa cristã, mais alta e clara/ Que as outras em polícia e fortaleza”. A visão é lusocêntrica, com Portugal à cabeça: “Eis aqui, quase cume da cabeça/ De Europa toda, o reino lusitano,/ Onde a terra se acaba e o mar começa” (Canto III). (Entretanto Portugal passou da cabeça para a cauda, onde ainda se mantém.) No Canto VII, Camões descreve portugueses (lusos), alemães, ingleses, franceses (galos), italianos, gregos, e até trácios, arménios e georgianos.

Do ponto de vista linguístico, a Europa é uma Babel. Há línguas celtas, germânicas, itálicas, eslavas, etc. (para não falar do finlandês, húngaro ou basco). E, pelo menos, três alfabetos: latino, grego e cirílico. Se a definição geográfica da Europa é complexa e a linguística impossível, a religiosa também não vale. A Europa precede Cristo e Maomé. E se é verdade que, em 800, o Papa Leão III coroou Carlos Magno (pater Europæ) como Sacro Imperador Romano – evocando o Império Romano do Ocidente, que colapsara no século V com as invasões bárbaras – há que lembrar o Grande Cisma Ortodoxo de 1054 e as convulsões divisivas da Reforma Protestante a partir de 1517. Por outro lado, o Cristianismo nada tem a ver com a cultura greco-romana (que está na génese da Europa). Hoje a Europa é secular e o Cristianismo um molho de religiões universais.

Diversidade, antagonismos, guerras fizeram a Europa. Mas haverá uma ideia unificadora, um “capital identificador” (na expressão de José Ortega y Gasset) para a Europa? Uma consciência ou alma europeia? Encontro aqui a mesma perplexidade que Santo Agostinho sentia em relação ao tempo: “Se ninguém me pergunta, eu sei; se alguém me pergunta e eu quiser explicar o que é, já não sei”. A Europa define-se pelas suas obras; pelas suas vitórias e derrotas; pelos benefícios e pelos malefícios que criou. Ser ou não ser, é mesmo a questão.

3.  CIÊNCIA

A ciência é o maior contributo europeu para a civilização. Há outras grandes criações, como as catedrais medievais espalhadas pelo continente e ilhas – Burgos, Chartres, Viena, Colónia, York, Moscovo, etc. – mas também se encontram templos fabulosos na Índia e no Sudoeste Asiático. O mesmo vale para a literatura e as artes visuais (mas tenho dúvidas em relação à música...). A Europa, porém, é definida pela ciência e pelas atitudes que da ciência resultam. Como disse Albert Einstein, “o mais incompreensível facto acerca da Natureza, é que ela é compreensível” e explicável – e esta é uma descoberta europeia.

As origens da ciência – tal como as da mítica Europa – remontam ao Mediterrâneo oriental e ao Médio Oriente. Gregos, persas e árabes construíram os caracteres (números e figuras geométricas) e a linguagem (matemática) que tornaram possível a comunicação e desenvolvimento científicos. Pitágoras (século VI a.C.), Euclides (séculos III-IV a.C.) e Ptolomeu (século II), ambos de Alexandria, e o persa Al Khwarizmi (século IX) são alguns dos nomes maiores da génese matemática. A ciência moderna, assente na experimentação, verificação e refutação sistemáticas (seguida ou não de rejeição), foi construída na Europa (o que não desvaloriza as invenções oriundas de culturas alheias, como a indiana, chinesa ou maia). A física moderna nasceu com a publicação de Mensageiro Celestial, pelo florentino Galileo Galilei, em 1610; a química moderna, com a publicação de O Químico Céptico, pelo irlandês Robert Boyle, em 1661; as ciências naturais, com a publicação do Sistema da Natureza, do sueco Carl Linnaeus (1735/1766-68). Isaac Newton, Antoine Lavoisier, Carl F. Gauss, Michael Faraday, Charles Darwin, James Maxwell, Ernst Rutherford (nascido na Nova Zelândia), Max Planck, Marie Curie, Albert Einstein e Niels Bohr são todos cientistas europeus.

O que é interessante é que a ciência moderna brotou à margem de outra grande criação europeia – as universidades. Mesmo Isaac Newton teve o seu annus mirabilis em 1666, quando a Universidade de Cambridge estava fechada, devido à peste. E é curioso que a física tenha começado com a descoberta de uma outra Europa: o mais pequeno dos quatro satélites jovianos enxergados por Galileo, com a ajuda do telescópio, a 8 de Janeiro de 1610. Galileo chamou-lhes “estrelas de Medici” (em homenagem ao recém-instalado Grão-Duque de Florença), mas o seu contemporâneo Simon Marius, astrónomo alemão, baptizou-os de “Io, Europa, o rapaz Ganimedes e Calisto [que] muito agradaram ao concupiscente Júpiter”. Ao contrário de Io, que é o planeta mais vulcanicamente activo do sistema solar, Europa é um corpo gelado – uma esfera sem montanhas ou crateras significativas. No entanto, a superfície parece estar eriçada de lâminas de gelo (água) de dez metros de altura, que escondem mares subterrâneos capazes de albergar formas primitivas de vida. Mas haverá que esperar pelos resultados da sonda JUICE (acrónimo de Explorador da Lua Gelada de Júpiter), a ser lançada em 2022 pela Agência Espacial Europeia.

A aplicação das ciências tem gerado máquinas e técnicas capazes de alterar profundamente a vida quotidiana, para o melhor (e para o pior – as armas). Basta recordar o microscópio, a imprensa, a máquina a vapor, o motor eléctrico, o motor de combustão interna, o telefone, a rádio e a telegrafia sem fios, o computador, a televisão, o motor a jacto, etc. – tudo invenções europeias (à excepção do telefone, patenteado em primeira mão pelo americano Alexander Graham Bell). E todos, instrumentos determinantes de um estilo de vida apetecível, que associamos ao chamado Ocidente. Foram estas invenções que causaram várias revoluções industriais. É verdade que onde há ganhos também há perdas, mas o saldo é francamente positivo. Ao produzir qualquer coisa, além do lixo que fica, obtêm-se outras coisas indesejáveis (poluição). Destroem-se florestas e gastam-se preciosas reservas naturais. O calcanhar de Aquiles da nossa civilização é a energia. Aliás, a energia forma, com as ideias (interligadas) de espaço e tempo, a trindade básica de conceitos científicos.

É estimulante especular que podia não ter sido assim. Havia, na Europa, em sintonia com o Oriente, uma outra corrente de entendimento da natureza que podia ter vingado: orgânica, qualitativa, baseada em símbolos e signos (em vez de sistemas), integradora do homem na natureza. Uma corrente que vinha de Paracelso (século XVI) e se estendeu até Johann Wolfgang von Goethe (teoria das cores). Uma ciência que seria não apenas um modelo da realidade, mas também um modelo do conhecimento humano da natureza. Mas venceu a corrente de Copérnico, Galileo e Newton – mecânica, quantitativa, previsível. Na evolução do conhecimento aparecem bifurcações: certas vias são preteridas em favor de outras. Sobrevivem as mais aptas. Foi o que aconteceu no princípio do século XVIII (Newton morreu em 1727). O velho mito de Prometeu – o Titã que roubou o fogo aos deuses para civilizar a humanidade – levou a melhor à modernidade do mito de Fausto.

4. AMOR

Enquanto o sexo é universal, o amor é uma invenção europeia, com ramificações importantes na literatura (nomeadamente, no romance). Refiro-me ao amor romântico que engloba distância e sofrimento. Shakespeare, que sabia tudo sobre a alma humana, disse que o “O amor é fumo alimentado com vapores de suspiros” (Romeu e Julieta, ca. 1592). Tipicamente europeu é o “amor de longe” dos trovadores, que atravessou o continente e continua a florescer na era do horrível Facebook. O amor de Jaufré Rudel, Senhor de Blaye (Bordéus) que, no século XII, se apaixonou pela Condessa Hodierna, de Tripoli, sem nunca a ter visto, e que Amin Maalouf pôs em prosa para a ópera L’Amour de loin (2000), de Kaija Saariaho. (Maalouf nasceu apropriadamente no Líbano, embora viva em França desde 1976.)

Os gregos já dividiam o amor em quatro categorias, consoante o destinatário: família, amigos, amantes e deuses. Apenas o terceiro, o amor das paixões eróticas, é regrado por Eros (que passou a Cupido/Amor com os romanos). O latino Catulo (século I a.C.) deu forma ao poema de amor. Os três livros de A Arte de Amar (2 d.C.), de Ovídio, são manuais de instruções: ao homem, de como encontrar e conservar a mulher; e à mulher, de como conquistar e manter o homem. Um novo estado de espírito espalhou-se pelas artes – um amor “que não olha com os olhos mas com a mente” (por isso Cupido é cego), como refere Helena (Sonho de Uma Noite de Verão, ca. 1595). É este amor imaginado e sublimado que me parece tipicamente europeu – na literatura como nas artes visuais. (As ideias do belo e do sublime serão outras tantas construções europeias, teorizadas por Edmund Burke no século XVIII.) Claro que o amor erótico e carnal nunca está ausente, mas também nunca assume a visibilidade e o esplendor que caracterizam, por exemplo, os templos de Khajuraho, em Madhya Pradesh (Índia).

Na Europa houve o cuidado de fazer a separação entre os amores sacro e profano, como na misteriosa pintura (ca. 1514) de Tiziano com as suas duas figuras femininas – uma pomposamente arreada e a outra nua, com a rosa e a flor da murta, símbolos do amor, e Cupido, no meio, a misturar as águas... Mas haverá religião mais dada ao amor e às penas do martírio do que a católica? Amor filial que é amor divino, franciscano amor fraternal (Irmão Sol e Irmã Lua), às vezes temperado por amor erótico (como no êxtase da Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini, esculpido entre 1647-52). O “penso, logo existo” de René Descartes (que morreu em 1650) estava em vias de ser substituído pelo “sinto, logo existo”, de Jean-Jacques Rousseau. William Wordsworth definiria a poesia como um “transbordar espontâneo de sentimentos poderosos” e, de facto, o amor excessivo, às vezes sublimado, é um dos ingredientes do Movimento Romântico que dominou a primeira metade do século XIX (e do pós-Romantismo doentio no final do século). Afloramentos mais recentes misturaram amor com pacifismo – o “faz amor e recusa a guerra” dos anos 60, ou os cravos nos canos das espingardas de Abril. Em suma, só um europeu (James Joyce) podia ter inventado – em Ulisses (1922) – que o “amor ama amar oamor”.

5. RENASCENÇAS

Para um optimista, a Europa é o promontório das renascenças. Ao longo dos séculos tem demonstrado a capacidade de se renovar, tanto a nível global como regional. E fá-lo, em geral, após períodos de grande instabilidade (política, social ou económica), de conflito aberto, ou até de epidemias – confirmando o velho ditado de que “depois da tempestade, vem a bonança”. A explicação talvez esteja na matriz fenícia. Também a fénix, a ave púrpura das Arábias, voava todos os 500 anos para o Egipto, para se imolar e renascer dos escombros e das cinzas.

O grande Renascimento europeu – após a medieval Idade das Trevas – começou na Itália (século XIV), propagou-se pelo resto do continente e perdurou até ao século XVII. Veio na cauda da Peste Negra (que dizimou quarenta por cento da população europeia, entre 1348-50), da Guerra dos Cem Anos (que opôs a Inglaterra à França entre 1337-1453 e levou ao colapso de bancos florentinos), e das Guerras da Lombardia (que redesenharam o Norte da Itália entre 1423-54). Eis a Europa de Leonardo da Vinci, François Rabelais, Erasmo de Roterdão e Albrecht Dürer, de Gil Vicente e Hieronymus Bosch – todos contemporâneos uns dos outros. Ou, um século depois, a Europa de Galileo, Claudio Monteverdi, Shakespeare, Pieter Paul Rubens, Johannes Kepler e Lope de Vega.

No século XVIII houve a Europa do Iluminismo, com o filósofo David Hume a proclamar que “tudo o que existe tem uma causa” (teoria da causalidade). O efeito segue-se a uma causa (excepto em mecânica quântica onde a causa pode ser consequência do efeito). Hume, aliás, foi um dos faróis da Renascença escocesa, juntamente com o químico (e médico) Joseph Black, o economista Adam Smith, o geólogo James Hutton e o poeta Robert Burns. E houve um último fogacho modernista nos começos do século XX, com Albert Einstein e Niels Bohr (ciência), Arnold Schoenberg (música), Pablo Picasso (pintura) e James Joyce e Fernando Pessoa (literatura), com uma guerra mundial (1914-1918) e uma revolução (russa) de permeio. Virá aí outra Renascença europeia? O futuro é imprevisível e a fénix só renasce de 500 em 500 anos...

Há duas conquistas renascentistas que me impressionam: na música, a inteligibilidade da palavra; na pintura, a simulação do espaço tridimensional. Depois da massificação do canto gregoriano e da polifonia, as camerate florentinas procuraram revitalizar o drama clássico grego através da música. O entendimento do texto era essencial – daí a emergência de um estilo novo, o parlar ou recitar cantando, que gerou a ópera, a mais complexa forma de arte ainda em uso. L’Orfeo (1607), a ‘fábula por música’ de Monteverdi, composta para a Corte de Mântua, é a mais antiga ópera a subsistir no repertório. Coincidência, ou não, a primeira cantora de ópera a distinguir-se foi Madama Europa (Rossi), na mesma Corte de Mântua, e que terá talvez interpretado um intermezzo baseado no mito do rapto de Europa (por Zeus).

A terceira dimensão entrou na pintura através da perspectiva linear, inventada pelo arquitecto Filippo Brunelleschi no início do século XV. Nas Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitectos (1550), o pintor Giorgio Vasari conta como Paolo Uccello, entusiasmado com a perspectiva, esquecia os seus deveres matrimoniais. Trabalhava pela noite fora, e quando a mulher o chamava para a cama, respondia: “Que bela coisa é a perspectiva!”. O curioso é que, enquanto a arte europeia enveredou pela conquista do espaço, a arte oriental preocupou-se com o domínio do tempo (uma variável só introduzida na pintura ocidental no século XIX). Há toda uma tradição narrativa na pintura chinesa e japonesa (mural e de rolo). Mais ainda: a representação é feita do ponto de vista do objecto representado, enquanto na Europa o é do ponto de vista do observador omnisciente. Os ocidentais valorizam o espaço, mas os orientais, mais pacientes, dão tempo ao tempo. Conta-se que, interrogado sobre a importância histórica da Revolução Francesa, o primeiro-ministro chinês Chu-en-Lai terá dito: “Ainda é cedo para saber”.

6. REVOLUÇÕES

A Europa acordou no século XVIII com três grandes revoluções: Industrial, Francesa e da Independência Americana. A Revolução Industrial resultou da substituição de uma matéria-prima (a madeira) por outra, mais perene e resistente (o ferro). A primeira ponte de ferro no mundo foi construída em Coalbrookdale (Inglaterra) em 1779. O ferro não se encontra na natureza em estado nativo, mas sim em minério (óxidos de ferro); para obter o metal é preciso reduzir o óxido – um problema que a química resolve com o carvão. Sucede que onde havia minério de ferro havia também minas de carvão (e rios, para o transporte das matérias-primas e produtos). Naturalmente, os berços da Revolução Industrial foram as regiões dos Midlands (Inglaterra), Ruhr (Alemanha) e Pennsylvania (América), ricas em carvão e minério de ferro. Também foi inventado o motor de desenvolvimento: a máquina a vapor, alimentada a lenha/carvão e água, e capaz de produzir o trabalho (energia) de vários cavalos, funcionando a todas as horas do dia e da noite.

As consequências económicas e sociais foram tremendas: novos tipos de engenharia, produção em série e em massa, subida em flecha do emprego (a ponto de absorver crianças e velhos), embaratecimento do produto. Há ainda que adicionar a poluição e as reacções antimáquina e anticiência. O poeta, artista e gravador William Blake via o diabo nas fórmulas e leis mecanísticas de Newton (que representou como um quadrúpede de mãos no chão, desenhando o universo a compasso); as fábricas seriam outros tantos “moinhos satânicos tenebrosos”. Para Blake, a “Arte é a Árvore da Vida, e a Ciência, a Árvore da Morte”. A relação homem-técnica nunca mais foi a mesma. Mas a primeira das grandes revoluções industriais partiu da Europa à conquista do mundo.

Quanto às Revoluções Americana e Francesa, não podiam ser mais diferentes. A segunda seguiu-se à primeira, mas sem relação de causa e efeito. Houve, é certo, influências mútuas: alguns dos Pais Fundadores da América, como Benjamin Franklin, John Adams e Thomas Jefferson, passaram longas temporadas em Paris, nos anos 1770 e 80, e a França apoiou e subsidiou a luta da América. A Revolução Francesa foi um fenómeno com uma potência incontrolável que arrasou consciências, costumes e instituições, na Europa e não só; a Revolução Americana criou uma nova nação democrática e exemplar. Distingue-as também a ciência e a violência. Em França afirmou-se que “A República não precisa de cientistas”, e Lavoisier acabou guilhotinado. Os Fundadores da América preocuparam-se com a educação: Franklin era um cientista famoso e Jefferson fundou a Universidade da Virginia. Também não houve Ter-ror na Revolução Americana, mas houve-o na Francesa e na maior parte das revoluções europeias (por exemplo, a Grande Purga operada por Josef Estaline entre 1936-39). (Bem, também é verdade que os ingleses se tinham adiantado aos franceses ao executarem o rei Charles I em 1649...)

Em França, o evento relevante foi a Tomada da Bastilha a 14 de Julho de 1789. Símbolo da tirania monárquica, tinha, à data, apenas sete velhos prisioneiros, mas o tumulto gerou uma centena de vítimas. Na América, houve a Festa do Chá, ou ‘Tea Party’, a 16 de Dezembro de 1773, instigada pelos “Filhos da Liberdade”. Protestavam contra a introdução de um imposto indirecto – a Lei do Chá, passada pelo Parlamento britânico – e atiraram ao mar, no porto de Boston, 342 caixotes de chá. O motivo era simples: os colonos não estavam representados no Parlamento; não podiam, pois, aceitar, de mão beijada, as leis desse mesmo Parlamento. “Não aos Impostos sem Representação!” No ADN da nação americana está esta crença de que cabe aos cidadãos controlar individualmente o seu próprio destino (o que explicará muitas vicissitudes e impasses da actual política americana).

O mote da Revolução Francesa era outro: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” – bem sonante, mas ainda hoje dificílimo de pôr em prática. Se todos são iguais (cidadania), a liberdade de cada um afecta a liberdade do vizinho. Quando Don Giovanni canta, na ópera (1787) de Wolfgang A. Mozart, “Viva la libertà!”, percebe-se que ele reclama a liberdade sexual absoluta à custa da violação das mulheres (como aconteceu à Europa de Zeus). Na ópera, tal como na peça original (ca. 1630) de Tirso de Molina, o burlador de Sevilha acaba no Inferno. A libertinagem sedutora de D. João, com o seu quê de demoníaco, é tipicamente europeia. Na Europa, Deus pode ter morrido, mas o Diabo, não. E D. João continua a ser, a par de Dom Quixote, Robinson Crusoe e Fausto, um dos grandes mitos do individualismo europeu moderno. Tradicionalmente, a Europa viu-se sempre como a sedutora entre as várias culturas – a tal “ficção gloriosa que fez da Europa uma espécie de D. João da História”, no dizer de Eduardo Lourenço. E, até certo ponto, ainda é. O nível de vida e as conquistas sociais europeias são poderosos atractores para quem vive na miséria na orla mediterrânica extra-europeia. Também se deu a inversão do fluxo colonial, com os povos de além-mar a demandar a Europa. O sedutor pas-sou a seduzido. Nascia o multiculturalismo.

O mote da Revolução Francesa tem expressão na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948): “Todos os homens nasceram livres e iguais, em dignidade e em direitos, e, sendo dotados, pela natureza, de razão e consciência, devem comportar-se como irmãos uns com os outros”. Para evitar excessos, a liberdade e os direitos têm de ser regulados por deveres. Como se lê no mesmo preâmbulo, “O cumprimento dos deveres de cada indivíduo é um pré-requisito dos direitos de todos”: deveres para com a família, a sociedade, a nação, etc. – mas também o dever de procurar instrução, de votar, etc. Enquanto os direitos exaltam a liberdade individual, os deveres exprimem a dignidade dessa liberdade. Um dos primeiros a escrever sobre estes conceitos foi Samuel Pufendorf – um europeu da Saxónia cujo Dos deveres do homem e do cidadão segundo a lei natural (1682) muito influenciou o pensamento dos Pais Fundadores da América. Giuseppe Mazzini, um dos paladinos da unificação italiana e advogado dos Estados Unidos da Europa, publicou (1860) Deveres do Homem – uma síntese banal dos seus utópicos pensamentos políticos, sociais e morais. Mais arreigados (do que os deveres) na consciência individual e colectiva estão os direitos, principalmente desde que Thomas Paine – um inglês que viveu ambas as revoluções, americana e francesa – deu a lume, em 1791, um panfleto em “defesa dos princípios da liberdade”, com o título Direitos do Homem. Era, também, um ataque às Reflexões sobre a Revolução em França (1790), de Edmund Burke, onde este manifestava o seu receio de que o fervor moral da revolução destruísse os valores e recursos (materiais e espirituais) que tinham sido lenta e penosamente adquiridos pela sociedade. Segundo Paine, os direitos humanos têm origem na natureza e não compete ao monarca outorgá-los. Embora fosse cidadão francês honorário, Thomas Paine sofreu com o Terror e escapou por um triz à guilhotina. As revoluções não hesitam em devorar os seus melhores.

7. DEMOCRACIA

CHURCHILL tinha razão: “A democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as outras formas que, de vez em quando, têm sido experimentadas”. Disse-o na Câmara dos Comuns, dois anos após ter ganho a Guerra mas perdido as eleições de 1945. Eis outro motivo de orgulho para a Europa: a democracia nasceu cá. As raízes da república democrática (contra a tirania) podem ir buscar-se a Atenas, à polis grega: governo da maioria, igualdade perante a lei (com excepções, nomeadamente mulheres e escravos), supremacia do mérito (sobre o dinheiro, casta, clã). Com o tempo, vieram os valores éticos, como temperança, lealdade, justiça, clemência, liberdade. O problema são sempre os outros, os excluídos. Em suma, a xenofobia. Havia os gregos e os não-gregos, ou bárbaros (a quem se atribuíam hábitos primitivos e que falavam línguas esquisitas, género ba-ba, daí o nome). O “outro” só é tolerado quando se está na mó de cima. Numa Europa em declínio, o “outro” passou a ser o bode expiatório. Como Sigmund Freud explicou, o ódio ao estrangeiro é um factor de coesão social.

Na Oresteia (458 a.C.), a trilogia dramática de Ésquilo constituída por Agamemnon, As Coéforas e As Euménides, há um episódio crucial na última peça: o julgamento de Orestes pela morte da mãe, Clitemnestra (que matara o marido, Agamemnon, que, por sua vez, sacrificara a filha, Ifigénia, irmã de Orestes). As Fúrias clamam vingança, mas a deusa Atena opta pela litigação seguida de votação em urna, e convoca onze atenienses para formar um júri. Apolo convence Atena – que nasceu, sem mãe, da cabeça imaculada de Zeus – que no casamento o homem é mais importante do que a mulher. Embora o resultado da votação seja um empate 6-6, Orestes é absolvido porque o perdão deve sempre prevalecer sobre a crueldade. As Fúrias acatam a decisão e são homenageadas pelos cidadãos de Atenas. Quando vi (1981) a famosa produção da Oresteia (versão de Tony Harrison), no Teatro Nacional em Londres, lembro-me que todo o público se levantou para a cena da votação. Democracia em acção é uma coisa muito séria.

No século XIX começou a falar-se da Inglaterra como a mãe de todos os parlamentos, e, de facto, a Magna Carta das Liberdades foi imposta a João Sem Terra, rei de Inglaterra, em 1215. Se a palavra “parlamento” vem do francês parler, é verdade que foi pela primeira vez usada em Inglaterra em 1236 para designar o grupo aumentado de conselheiros do rei (que incluía também gente do povo). No entanto, a Islândia tem precedência com a assembleia geral de notáveis (althing) que se reuniu ao ar livre, no ano de 930, em Thingvellir – por coincidência o vale que marca a separação geológica das placas tectónicas euroasiática e norte-americana.

A natureza pacífica da democracia fora notada por Thomas Paine noutro dos seus panfletos, Senso Comum (1776), escrito em prol da Revolução Americana (e no qual advoga uma maioria de três quintos para que uma lei seja satisfatoriamente justa). Por outro lado, a atitude científica da dúvida e da refutação é essencial a qualquer discussão e procura de compromisso, próprias da democracia. Discutir é duvidar das próprias convicções. Ao longo da história a Europa passou por muitas vicissitudes – guerras intestinas, longas ditaduras, holocaustos terríveis, etc. – mas avançou para as democracias imperfeitas de hoje. Ciência-Democracia é a grande matriz europeia. Como afirmou Herbert Spencer, um dos mais influentes filósofos ingleses do século XIX, “A forma republicana de governo é a melhor forma de governo e, por isto mesmo, requer o tipo mais superior da natureza humana”. Infelizmente, como Spencer acrescentou, é “um tipo que actualmente não existe em parte alguma”.

8. GUERRAS

A Europa é o mais violento dos continentes. Entre guerras, lutas, revoluções, revoltas, insurreições e cercos, etc., a Wikipedia lista cerca de quatrocentos conflitos europeus no ́ltimo milénio (e a lista está certamente incompleta). O século XX, em particular, com oitenta e quatro guerras e revoluções é, de longe, o mais sangrento. Etnias várias, fronteiras mal definidas, cruzadas religiosas, ambições hegemónicas, propósitos expansionistas e imperiais, rivalidades políticas e económicas, etc. – todas serviram de pretexto. E quando não havia razões para lutar em casa, procurava-se o conflito longe – do Médio Oriente (Cruzadas) ao Afeganistão. Não se trata de um defeito civilizacional de crescimento – até porque os maiores horrores e genocídios são relativamente recentes, praticados por gente que amava a música de Beethoven. É, sim, algo de profundo, que faz parte das raízes europeias. Os raptos de Europa e de Helena de Tróia têm muito por que responder.

Einstein pensava que a agressão tinha uma base biológica. Era o carácter predador e sexual do homem-macho que o levava a atacar e a matar o inimigo. Embora não acreditasse na psicanálise, sugeriu Freud como interlocutor quando, em 1932, foi convidado pelo Comité Internacional para a Cooperação Intelectual a uma troca de ideias sobre guerra e política. A questão posta por Einstein era simples: como suprimir as “psicoses de ódio e destruição” que regularmente assolavam a Europa? (Mal sabiam eles que vinha aí a maior de todas.) Freud lembrou que os conflitos de interesse entre espécies animais são, em geral, resolvidos pela violência. Existem dois tipos de instintos, ambos necessários: os eróticos ou instintos de vida, que conservam e unificam, e os destrutivos ou instintos da morte, que agridem e matam. Todos os fenómenos da vida derivam da maneira como estes instintos interactuam – concertados ou em oposição. Afinal, as forças atractivas e repulsivas da física funcionam da mesma maneira!

Para Freud, seria impossível suprimir as tendências agressivas da humanidade. Quando muito, poder-se-iam canalizar os instintos destrutivos para outras actividades que não a guerra, ou fortalecer os instintos vitais através de sentimentos de comunidade e de pertença. (A construção da União Europeia corresponde a esta última solução.) Mas como lidar com o paradoxo de que para evitar a guerra se torna, às vezes, necessário usar a força? Há uma ironia trágica (como Einstein notou um ano depois) no facto de serem as mesmas qualidades que tornam a civilização europeia tão apetitosa e pitoresca – a afirmação do indivíduo e dos vários grupos nacionais, a balbúrdia de culturas – as responsáveis pela discórdia e guerras sucessivas. Uma Europa unida e pacífica será, porventura, uma Europa chata e burocrática, onde a cultura é kitsch ou não vale nada. Aquela para onde caminhamos?

Numa entrevista recente a Der Spiegel em Março de 2013, o primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, veio lembrar que “os demónios da guerra não desapareceram; estão simplesmente adormecidos, como mostram as guerras na Bósnia e no Kosovo”, nos anos 1990. Juncker reconhece semelhanças entre a situação económica e financeira actual e a de 1913, nas vésperas da I Grande Guerra. É certo que temos uma União Europeia, mas há um século também os monarcas inglês, alemão e russo eram primos. “Quem governa tem de assumir as responsabilidades pelo seu país e pela Europa como um todo”, exorta Juncker. Embora a falta de liderança na Europa seja gritante, muitos políticos sabem o que é preciso fazer para ultrapassar as crises actuais. Mas também sabem que não seriam reeleitos se o fizessem. A democracia só funciona se for uma meritocracia, e mesmo assim... A política devia seguir as leis naturais da evolução, com a “sobrevivência dos mais aptos” (uma expressão devida a Herbert Spencer). O sistema americano das eleições primárias, às vezes, permite isso.

9. UNIÃO

É costume pensar na Europa como o continente da rivalidade cultural (da língua à culinária) e do passado monumental. Paradoxalmente, oqueaEuropatemdecomuméa divisão e a diversidade – o facto de que basta, às vezes, percorrer uma dúzia de quilómetros para a paisagem e o estilo de vida serem diferentes. Houve, é certo, tentativas de união parcial – a mais bem sucedida das quais o Império Romano, de sul a norte, de leste a oeste, que deixou rasto (estradas, arenas, termas, ruínas). Houve a colonização árabe, a sul. Um Império Cristão central. Espanha, Itália e Alemanha tiveram processos de unificação peculiares e lentos. O problema dos Balcãs nunca foi resolvido. De Gaulle acertou ao inventar (1962) a expressão “Europa das pátrias”. Infelizmente, pátrias comportando-se como famílias desavindas – nomeadamente o disfuncional eixo França-Alemanha e a desconfiança tradicional da Inglaterra em relação ao continente. Vem à baila o começo da Anna Karenina (1873-77), de Lev Tolstoi: “Todas as famílias felizes são parecidas; cada família infeliz é-o à sua maneira”.

A consciencialização da Europa começou com a descoberta e colonização da América, e aprofundou-se com a perda dos impérios coloniais no seguimento da II Guerra Mundial (à excepção de Portugal). Com os filhos crescidos e emancipados (independentes), a Europa podia pensar naquilo que era. E fê-lo primeiro numa época privilegiada – a do Iluminismo. O que emergiu como ideia unificadora foi a aceitação pacífica de certos ideais: diálogo, tolerância, liberdade, direitos individuais, dignidade humana, protecção dos mais necessitados. Em suma: a argumentação e troca de ideias (próprias das mentes científicas). Deriva daqui o equívoco da “Europa dos cafés” – um conceito espalhado por George Steiner em A Ideia da Europa (2004). É verdade que havia mais de quinhentos cafés em Londres na segunda metade do século XVIII (e nenhum em Lisboa, presumo). Mas o café como espaço de debate (e conspiração) sumiu-se da Europa há cerca de cinquenta anos, com o monopólio televisivo. Hoje as pessoas não conversam: mandam mensagens (msg) por telemóvel. (Há excepções: na Grã-Bretanha, continua a cultura do pub.) Prefiro a definição alternativa de Steiner: “Europa é o lugar onde o jardim de Goethe deita para Buchenwald, onde a casa de Corneille fica na praça que viu Jeanne d’Arc abominavelmente imolada”. Ou onde o teatro de ópera era vizinho da sede da PIDE – acrescento eu.

Também saltam à vista a idade e a história, manifestas nos castelos, catedrais e palácios. “A Europa museu de si mesma”, na fórmula de Eduardo Lourenço. Falar da Europa é evocar a História e lembrar o passado (enquanto falar da América é pensar no futuro). A herança histórica, feita de memórias, não podia ser mais pesada. Lembro-me do conto de Jorge Luis Borges, “Funes, o mnemonista” (1942) – a história do jovem Ireneo Funes que, após uma aparatosa queda de cavalo, ficou com memória total mas incapaz de pensar e agir: “a minha memória é um monte de lixo”. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar e construir abstracções”. A verdade é que a Europa é uma colecção de nações velhas, a viver das grandezas do passado e incapazes de actuar. Um lar de 3a idade.

Em 1946, Churchill propôs, em Zurique, a ideia dos estados unidos da Europa. “Só assim, centenas de milhões de trabalhadores poderão recuperar as alegrias e esperanças simples que tornam a vida digna de ser vivida”. Infelizmente, quando o caminho para a união começou, foi o modelo franco-alemão e não o anglo-saxónico que prevaleceu. Em vez do pragmatismo britânico triunfaram a regra bonapartista e o pedantismo teutónico. O Tratado de Roma, que estabeleceu a Comunidade Económica Europeia, foi assinado por seis estados continentais em 1957; seis anos depois, De Gaulle vetava a entrada do Reino Unido (que só viria a ser admitido em 1973). O resultado é que temos hoje uma União Europeia onde foi necessário definir o que é (ou não é) uma salsicha! A burocracia liquidou o bom senso e a imaginação. Enquanto o Reino Unido funciona sem constituição e a dos Estados Unidos da América tem apenas 4400 palavras, a da União Europeia espraia-se por 60 000! No Reino Unido não há bilhete de identidade nem número de contribuinte. Recentemente recorri ao Serviço Nacional de Saúde britânico e não me foi pedida nenhuma forma de identificação. Chamo a isto liberdade!

Freud falava dos instintos vitais de comunidade. Creio que o inglês, como língua franca, tem contribuído para o sentido de pertença europeia. Entretanto, a diversidade vai desaparecendo. As Baixas das várias cidades parecem-se cada vez mais umas com as outras: as mesmas lojas, as mesmas marcas, a mesma quinquilharia de norte a sul e de leste a oeste. (Honra à França, que prima pela diferença, neste aspecto – e.g. as centenas espécies de queijo que levaram De Gaulle a exclamar: “Como se pode governar um país que tem 246 variedades de queijo?”). Começa ser difícil encontrar a culinária local, mesmo em remotas cidades de província. As televisões dos vários países mimetizam-se mutuamente. A imitação tornou-se mais valiosa do que a criação. Em vez da União Europeia optou-se pela regulamentação e homogeneização europeias. O preço da paz?

10. AAMÉRICA

A Europa renasceu, unida, na América. Como Camões adivinhara, a posição geográfica da Europa apontava para a América. Pessoa confirmou-o num poema da Mensagem (1934): “A Europa jaz, posta nos cotovelos;/ De Oriente a Ocidente jaz, fitando,/ [...] / Fita, com olhar esfíngico e fatal,/ O Ocidente, futuro do passado./ O rosto com que fita é Portugal”. Observador e observado – Europa e América – configuram o Ocidente. Tal como Lisboa teve a sorte de sofrer um terramoto no século XVIII (e não noutra altura qualquer), também os Estados Unidos da América lucraram com uma independência em 1776, movida por Pais Fundadores de grande calibre intelectual, sábios a combinar o melhor pragmatismo (e liberalismo) britânico com o racionalismo francês. A América é uma projecção da imaginação europeia.

Também há várias Américas – da famigerada Costa Leste à hedonista Califórnia, e uma clivagem Norte-Sul (responsável pela Guerra Civil de 1861-65). A América é uma nação jovem, que ainda não teve tempo de inventar uma culinária (excepto o hambúrguer e a adopção da tarte de maçã), e não aprendeu a usar a faca (às refeições). Mas qualquer europeu que se preze inveja o sentimento de pertença (à América) dos americanos, independentemente da sua origem. A Little Italy em Manhattan é tanto um canto da América como a New Sweden no Maine. Com o Sonho Americano tudo é possível, inclusivamente começar uma vida nova. (Notei o mesmo noutros países continentais de matriz anglo-saxónica, como o Canadá e a Austrália.) Como americanos, sentem-se salutarmente emulados pelos êxitos uns dos outros, sem inveja. E, ao contrário da Europa acomodada, cultivam uma ética do trabalho, competitividade e independência do Estado, que muitos associam à matriz protestante. É preciso estar fora ou vir de fora para perceber as diferenças entre a Europa e a América.

Quando os meus amigos americanos começaram a visitar Lisboa nos anos 70, uma das coisas que notaram foram as estátuas a escritores e poetas (e a episódios de poemas, como o Adamastor). Para uma Europa que olha para o passado, tal circunstância era banal; para um americano habituado a encarar o futuro, não. No princípio dos anos 1980, depois de passar 15 meses a leccionar e a investigar numa universidade americana, percebi que era europeu. O tempo é o grande divisor entre a Europa e a América. Os americanos aproveitam e usam o tempo; nós perdemos tempo. A prática do dolce far niente, a noção de que somos capazes de fazer parar o tempo e transformar o presente no passado são tipicamente europeias. Senti-me europeu quando, no Liceu de Pedro Nunes, decorei poemas de Alphonse de Lamartine; quando os meus pais me levaram ao Teatro Nacional para ver Sonho de uma Noite de Verão; quando, antes de haver gravação integral, ouvi e vi Parsifal no São Carlos; quando comi a minha primeira pizza em Verona e apanhei uma diarreia; quando, na primeira viagem a Inglaterra, cheguei ao meu quarto do New College (Oxford) às 2 A.M.; quando entrei na Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, e soube que lá jazia o coração de Chopin; quando vi as pinturas de Vilhelm Hammershoi em Copenhaga; quando deambulo pela Sintra de William Beckford e Richard Strauss. Gostava, porém, de ter coragem para também me sentir americano.

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