Portugueses

Gente comum. Pequenas histórias banais.

Gente comum. Pequenas histórias banais. Homens e mulheres que nada distingue daqueles com que nos cruzamos todos os dias. Têm uma profissão. Por vezes têm também outra ocupação. Uns já tiveram filhos e netos, outros ainda têm os avós vivos. Há quem viva sozinho e quem viva com a família. Num bairro antigo, numa urbanização nova, numa moradia. São portugueses. Cada um é apenas um entre quase onze milhões. Mas não são números: são pessoas. Têm nome, idade, morada, um passado e um futuro. São rostos que não aparecem nas estatísticas, mas fazem as estatísticas. “XXI, Ter Opinião” e a Fundação Francisco Manuel dos Santos iniciam com a edição destes retratos de seis portugueses um projecto mais ambicioso que será desenvolvido online. Aí ouvi-los-emos contarem as suas histórias e será possível assistir ao desfilar de episódios da sua vida quotidiana contados através de fotogalerias. Com tempo outros portugueses se lhes juntarão. Ajudando-nos a dar rostos e textura ao povo que somos.

OLÍVIA, A ÚLTIMA LAVADEIRA DA MADRAGOA

Olívia da Conceição Santos
88 anos
Natural de Lisboa
Lavadeira

Olívia lava roupa. É o que faz. Lava roupa para fora. Está lá todas as manhãs, no Lavadouro das Francesinhas, na Madragoa. Se calhar nem era preciso ir assim, todos os dias. Aos 89 anos, já lava pouco. As antigas freguesas compraram máquinas. Resistem três ou quatro. A primeira vez que mandaram lavar ainda eram rapariguinhas solteiras. Hoje já têm filhos casados, e netos… Olívia começou a lavar há 65 anos. Estava grávida da filha mais velha, Maria Elisabete. Trabalhava numa oficina de alfaiate mas o marido adoeceu, ela começou a faltar e, nessa altura, os patrões não podiam esperar. Ainda lavou em casa. Fazia muito chiqueiro. Passou a ir para o Lavadouro e por lá ficou. Nessa altura, os tanques, hoje grandes demais, estavam sempre cheios de mulheres. Umas lavavam, outras esperavam vez, outras punham roupa a corar ao sol e espreitavam o Tejo que se vê tão bem dali. Já morreram quase todas. Há muita gente morta na vida de Olívia. O marido que era torneiro de metais mas também sabia de electricidade. A sua menina, a Maria Edite, que morreu com 4 anos. O filho, desaparecido há poucos anos. Olívia faz pouca distinção entre vivos e mortos. Para ela, estão todos ali. Tanto fala da Maria Elisabete, dos netos e dos bisnetos, como salta para os pais. A mãe a lavar roupa naqueles tanques enquanto ela e os irmãos se escondiam dos guardas numas casas hoje em ruínas. Olívia sempre viveu na cidade mas a Madragoa é a sua aldeia. Foi algumas vezes a Alfama, contam-se pelos dedos das mãos. O Bairro Alto conhece melhor porque trabalhou em São Pedro de Alcântara. Os outros bairros não conhece mas acha que a Madragoa é o mais sossegado. O prédio onde vive ainda não foi abaixo, nem sabe quando irá. Espera que seja só depois de ela morrer. Agora está cheio de brasileiros, gente que trabalha nas obras. Portuguesas, só mesmo Olívia e a vizinha do segundo andar.

Agora dizem que vão acabar com o Lavadouro das Francesinhas. Olívia não gostava, a filha sim. Preferia que a mãe fosse viver com ela, nos arredores de Lisboa. Mas enquanto puder lavar, enquanto o Lavadouro estiver aberto, não vai. Sente-se bem na Madragoa. Gosta de ir para os tanques. Fala com um, fala com outro, vai passando o tempo. Enquanto puder, não vai.

ALVARINHO VITELEIRO

Álvaro Lapa,
70 anos,
Natural da Malveira Comerciante de gado

Foi o senhor Mário que o lançou a sério no negócio, naquela sexta-feira em que lhe encomendou dez ovelhas. Álvaro Lapa tinha dez anos, disse que sim e arranjou onze. O senhor Mário, um senhor de Lisboa, pagou-lhe dez ao preço combinado. A outra não fazia parte da encomenda, por isso valia menos. Álvaro concordou. Percebeu como funcionam os negócios e que naquele mundo é preciso ser esperto. O seu pai era comerciante de gado. A mãe era filha de um comerciante de gado. Sempre na Malveira. Álvaro foi o único filho a seguir a tradição. Não tinha cinco tostões mas à quinta-feira, quando as pessoas chegavam à feira com as vacas para vender, as prendiam àqueles ferrinhos que ainda hoje estão no recinto, e chamavam o Alvarinho, ele comprava. E foi fazendo a vida assim. Sempre em negócio, sempre em negócio.

Negociar em gado foi uma coisa que nasceu com ele. Não aprendeu com ninguém. Chegou a trabalhar uns tempos numa casa de lanifícios mas não se deu bem. Sentia falta dos animais, do sangue, da carne. Quando tinha 30 anos, o pai era o maior negociante de gado da região. Um dia, acompanhou-o a uma feira no Alentejo. O pai estava de olho nos melhores bois, mas acabou por ser ele a comprá-los. O pai ficou todo contente. A feira de gado da Malveira era a melhor feira do mundo. Não é por acaso que chamavam à terra, Malveira dos Bois. Hoje tem 100 cabeças de gado, ou se calhar nem isso, mas chegou a ter 1700 ou 1800. Sempre foi à quinta-feira, abria de madrugada. Agora só abre às sete. Quando são sete e meia começam a chegar os homens do Norte. Querem saber os preços. Ao meio-dia e meia carregam o gado e depois vai tudo almoçar ali mesmo, no restaurante improvisado da feira. Álvaro não vai. É muito barulho, faz-lhe doer a cabeça e ele não gosta nada de dores de cabeça. E deve ter tido muitas. Afinal, a vida não correu bem a Álvaro Lapa. Chegou a ter muito mas resta-lhe pouco. Diz que a culpa é de uma firma de Lisboa, a firma do tal senhor Mário, que foi à falência e lhe ficou a dever cem mil contos. Fala sempre em contos, não consegue pensar em euros. Agora só negoceia em ovelhas, cabras, chibos, gado miúdo. Antigamente, só comprava vacas e vitelas. Chamavam-lhe o Alvarinho Viteleiro e quando chegava a um mercado, já todos sabiam que, nesse dia, o mercado ia ser bom.

FERNANDO, O GUARDIÃO DE FARO

Fernando Silva Grade
56 anos
Natural de Faro
Artista plástico

A vida profissional é feita a pintar quadros, mas é nas vestes de guardião de Faro que encontra a sua verdadeira identidade. Fernando é o fiscal do centro histórico da cidade, o vigilante de um passado que não desiste de manter vivo. Todos os dias recomeça a sua cruzada solitária. Passeia, a pé, por todo o casco velho, à procura das obras que outros teimam em fazer, sem se preocuparem em preservar a autenticidade dos monumentos, das casas, das praças. Vê o que os verdadeiros fiscais, demasiado adormecidos, deviam ver se andassem de olhos abertos. O trabalho é minucioso, persistente, sem descanso, mas tem dado resultados. Por causa desta teimosia, desta obsessão, muitas obras foram paradas. As suas guerras nunca são fáceis. Na Sé de Faro só pode entrar clandestino. Está condenado a ficar à porta, por não ter permitido o seguimento das obras de modernização do templo, projectadas pelo cabido da igreja.

Fernando é implacável. A dor d’alma que o atinge sempre que passeia pelo centro histórico de Faro, o maior de todo o Algarve, e o vê, assim, desabitado e em ruínas, dói ainda mais sempre que se confronta com uma reabilitação inundada de cimento, de tinta plástica, de alumínio. Património rima com autenticidade. Tudo o resto são pastiches.

Ainda se lembra dos tempos em que, na sua cidade natal, ao fundo de cada rua vislumbrava-se a ria e do cimo de cada açoteia avistava-se o mar. Hoje as vistas estão toda tapadas. Nessas alturas sente-se a viver numa cidade sem identidade cultural, como que ocupada por romanos, eles que destruíam a arquitectura das cidades que invadiam, conscientes de que um povo sem identidade arquitectónica é um povo enfraquecido.
E apesar de ser único, não vê aquilo que faz como algo extraordinário. Está apenas a defender a cidade onde nasceu há 56 anos, o seu habitat. No fundo, compara-se a qualquer outro animal, ele que é biólogo de formação. Diz que se todos os bichos defendem o seu território, o homem devia fazer o mesmo. Recusa o pensamento dominante em que cada um se preocupa apenas com o seu quintal, achando que o que está lá fora não é de ninguém. Fernando sabe que o que está lá fora é de todos e por isso espanta-se. Espanta-se por estar sozinho, e continua.

DIÁRIO MUSICAL DE IVAN

Ivan Veiga,
28 anos,
Natural de Angola Funcionário de supermercado

A música surgiu como se fosse um diário. Quando ainda vivia na sua terra, em Angola, Ivan Veiga já cantava, mas não cantava assim tanto. Depois veio para Portugal com a mãe. Primeiro para a Buraca, depois para a Amadora. Tanto num sítio como no outro, a criminalidade era o prato do dia. Foi no meio de tanta repressão, de tanta violência, que procurou a música.

No princípio eram sons assim sem ideias, sem lógica, sem sentido. Com o passar dos tempos, Ivan percebeu que os sentimentos negativos que as suas músicas transportavam só serviam para semear maldade. Sentiu-se como alguém que pega numa arma e a põe na mão de uma criança. Foi então que começou a tentar fazer cada música como se fosse uma flor.

Ivan está sempre a rir. Nunca pára de rir, com a boca, com os olhos, nem mesmo quando fala de coisas que não têm graça. Como aquela que se passou pouco depois de ter chegado a Portugal. A mãe mandou-o ir a casa do vizinho pedir um copo de açúcar e o vizinho chamou a polícia. Pensou que era um assalto. Em Angola, Ivan pedia coisas aos vizinhos a toda a hora e ninguém chamava a polícia.

Histórias de intolerância que Ivan não leva a sério. Se assim não fosse, nunca teria ido para a Quinta da Fonte, em Loures, conhecida pelos tumultos entre africanos e ciganos, criar uma banda de africanos e ciganos. Mas foi. E criou. Com a ajuda da comissária da Esquadra da Polícia lá do bairro, que gostou logo daquele som onde se fala de paz e amor, e convida a banda para actuar em todas as festas das redondezas. A banda não tem nome mas tem angolanos, cabo-verdianos, portugueses e ciganos. Tem Hip-Hop, R&B, Funaná, Kizomba. Ensaia no Centro Comunitário da Apelação, no mesmo estúdio onde está a gravar o primeiro disco.

Sector Peixaria, num dos supermercados do Pingo Doce. É lá que Ivan trabalha. Não foi propriamente uma opção de vida mas junta duas coisas que lhe agradam muito. Conversar com as pessoas e trabalhar com peixe. Peixe lembra mar e Ivan adora o mar. Em miúdo queria ser marinheiro. Agora quer ser psicólogo. Aos 28 anos, vai voltar à escola, já se inscreveu e está a tentar entrar na Universidade.

Também gostava de fazer carreira musical, de cantar.

Já conseguiu tanta coisa…

FILIPA, A DANÇARINA

Filipa Sá,
40 anos,
Natural de Lisboa Bancária

Nessas alturas esquece tudo o que está lá fora. Enquanto dança, não tem preocupações, nem problemas, nem cansaço. Está simplesmente a dançar. Não se pode dizer que se transforme noutra pessoa. Filipa Sá continua a ser ela mesma… só que a dançar e a mostrar aos outros o prazer que a dança lhe dá. O seu dia-a-dia é de escritório, embora não esteja agarrada à secretária. Trabalha numa instituição bancária. Depois, dá apoio aos pais. Mora sozinha. Calça os sapatos de salto alto, veste um vestido rodado e vai para ali, para a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo. É naquele prédio um pouco degradado do bairro de Campo de Ourique, um templo das danças de salão, que passa grande parte do seu tempo livre. Gosta de deitar as culpas para cima do Carlos, o seu par, amigo de longa data. Foi com ele que fez o primeiro curso de dança, há quatro anos, foi ele que lhe ofereceu a inscrição nos Alunos de Apolo. Filipa diz que foi ele que criou o “monstro”! Carlos fica calado, sorri. Quem ouve a história nunca imaginaria que tudo começou nele. É ela que respira dança como se aquele sempre tivesse sido o grande sonho da sua vida.

E, quando olha para trás, Filipa vê que sempre gostou de dançar. Sai à tia. Tinha o hábito de ouvir música, de marcar os ritmos. Dançava de vez em quando, mas o pai costumava dizer-lhe que não tinha assim muito jeito. Afinal, não teve dificuldade em aprender. Pelos vistos, já havia qualquer coisa que a indicava para a dança, ela é que não tinha percebido. Dois anos na dança social chegaram para os professores da Apolo desafiarem Filipa e o seu par a passarem à competição. Vai, pelo menos, a um campeonato por mês. Há meses em que entra em dois, três, quatro. Procura ir a todos os que pode. Porque é divertido, porque se sente bem, porque há todo um saudável convívio entre dançarinos. Concorre nas dez danças de salão, mas são as latinas que mais a fazem vibrar. Uma rumba, um samba, um chá-chá-chá, um jive… Nessa latina vertiginosa, então, se a música puxar por ela, ela dá tudo!

Ganhar tem alguma importância, claro. Mas quando se está a chegar aos 40, já não é tão importante como quando se tem 16 ou 17 anos. Filipa não dançava nessa idade nem tem ilusões sobre a longevidade de uma dançarina de competição. Os campeonatos não duram toda a vida. A dança, sim. Faz-lhe bem.

O SENHOR NUNES DA CHARCUTARIA

José Nunes,
79 anos,
Natural de Ferreira do Zêzere, Comerciante

A entrada aqui é sempre às sete horas da manhã. Dez para as sete. Depois começam a chegar os fornecedores. O homem do leitão, os queijos frescos, os padeiros, que são três, alguns homens da fruta que vêm de longe… Ainda ontem um chegou aí às cinco e meia. Vinha do Fundão com pêssegos e figos… Os olhos do senhor Nunes brilham enquanto descreve a rotina da sua charcutaria. Perto das nove começam a chegar as pessoas e, de repente, já são oito da noite.

Para o senhor Nunes, o tempo voa. Parece que foi ontem que chegou à Mercearia Corália, baptizada em homenagem à filha do antigo dono, para a transformar na Charcutaria Riviera. Mas já foi em 1957. Contratou uns arquitectos, refez a frente da loja, que ainda hoje está igual, e deu ao interior da loja o mesmo aspecto que mantém, mais de cinquenta anos depois. O senhor Nunes não está muito virado para fazer uma Riviera muito moderna. Quer que todos vejam como era uma casa nos tempos em que não havia supermercados.

Os dias são cheios na charcutaria. Quantas vezes o almoço acaba adiado para a hora do lanche. Há que receber mercadoria, conferir facturas, e conversar com os clientes. Há muito tema de conversa quando os pais e os avós de quem entra também já faziam ali as suas compras. Há ainda que ensinar os que não sabem apreciar devidamente o que compram. Como aquele homem que gastou um dinheirão numa lata de ovas de sardinha, a que pomposamente se chama o caviar português, convencido de que ia para casa cozê-las. São estas coisas que fazem um profissional e o senhor Nunes orgulha-se de ser um profissional do comércio alimentar. Foi neste ramo que começou a trabalhar, aos 13 anos, quando veio de Ferreira do Zêzere para Lisboa. Ainda esteve na aldeia três anos, depois de acabar a quarta classe, a dar serventia a pedreiros e a guardar cabras, mas não era vida para ele. Veio para as mercearias e apaixonou-se.

A Riviera é obra sua. Dedicou-lhe a vida inteira, primeiro a sonhá-la, depois a construí-la, agora a mantê-la viva. Ou então é a charcutaria que mantém vivo o senhor Nunes. À beira dos 80 anos, planeia reformar-se… daqui a dez. De uma coisa tem a certeza: se a má sorte o obrigar a sair de trás do balcão antes disso, nem um ano dura. 

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