Diários da sala de aula

O testemunho de cinco professoras

São muitas as formas de olhar para o que se passa nas nossas escolas, mas raramente isso é feito a partir de olhares que têm como ponto de partida o que se passa nas salas de aula. Um dos projectos de investigação lançados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos procurou, por isso, conhecer melhor essa realidade. Dirigido por Maria Filomena Mónica, o projecto intitula-se “A Sala de Aula” e tem como base os diários de um conjunto de professoras de várias escolas do país, diários realizados especificamente para este projecto. Foi desse imenso manancial de testemunhos que seleccionámos os extractos que aqui publicamos. Todos os nomes são pseudónimos.

Francisca

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Apesar de uma ligeira melhoria, os resultados são insatisfatórios. Empenhei-me tanto. Fiz tantas coisas para apoiar os alunos. Não foi o suficiente. Não sei mais o que fazer. Às vezes dou por mim a pensar que não estou preparada para certo perfil de alunos. Sinto-me angustiada com a percentagem de insucesso que continuo a ter nas turmas do 11.o ano, que “herdei” de outros professores. (...)

Já me aconteceu ir aos velhos dossiês, os que guardo na garagem, desde os inícios dos anos 90, ver os materiais que usava antigamente, os testes que fazia nos meus primeiros anos de professora, as notas que atribuía e os trabalhos que exigia. Fico estupefacta com o que vejo, com os textos filosóficos que conseguia analisar com os alunos, com as monografias que faziam, com o nível de exigência das perguntas que colocava. Em vez de ir subindo o nível, à medida que a experiência e os saberes foram sendo conquistados, opostamente, fui baixando o grau de dificuldade. Reconheço que mudei muito e que há anos que deixei de ser uma professora exigente. Por este sentir, irrita-me saber que continuo a ser vista como tal. Não obstante, insisto em não me familiarizar com o facilitismo. Liberta-me deste turbilhão de insegurança, até certo ponto, o facto de, por várias vezes em anos anteriores já ter recebido várias turmas de outros colegas e não ter havido este problema (mas eram professores da mesma escola há vários anos). Acresce também, o que é muito compensador, a boa relação que tenho com todas as turmas e o facto de, mesmos nos casos mais gravosos de falta de aproveitamento, não se verificarem faltas de respeito, nem problemas ao nível do exercício da minha autoridade enquanto professora e enquanto directora de turma, nem dentro, nem fora da sala de aula. 

Devo observar que na turma em que eu estou a dar continuidade não só os resultados são melhores, como as actividades que consigo realizar são mais diversas e enriquecedoras. Dá gosto ir para as aulas daquela turma, porque o meu esforço, em termos de preparação das mesmas, é sempre recompensado pelo entusiasmo e o comprometimento com que os alunos correspondem. A curiosidade e o interesse de um grande grupo de alunos contagia os mais desmotivados e, embora haja negativas, no final do período, o insucesso será mínimo. A massificação do ensino e o anunciado alargamento do ensino obrigatório até ao 12.o ano têm provocado mudanças profundas e a escola secundária não tem as respostas mais ajustadas para o perfil de alunos que recebe.

 

Terça-feira, 27 de Março de 2012

Quando comecei a dar aulas, as reuniões eram muito diferentes e, mesmo sendo tudo feito à mão, eram mais rápidas. Agora a agenda é vasta. E tudo tem de ficar registado. É preciso apresentar relatórios de todas as actividades e justificar todas as decisões. Começamos com as informações dos contactos havidos com os encarregados de educação. Tinha muito a comunicar. Os colegas ficaram indignados com o que aconteceu na sexta-feira. Deixamos em acta o nosso parecer sobre a necessidade de serem tomadas medidas que evitem estas situações de pressão que os encarregados de educação provocam.

Seguidamente, fizemos a avaliação das actividades desenvolvidas ao longo do segundo período, dos apoios implementados, das visitas de estudo realizadas, dos projectos em que os alunos da turma participaram.

A verificação e ratificação das propostas de classificação foi o que ocupou menos tempo. No segundo período, o Conselho de Turma só se pronuncia e pede fundamentação ao professor da sua proposta em casos muito pontuais – descida/subida de classificação muito acentuada face ao período anterior, uma vez que a avaliação é contínua, ou classificação muito discrepante da proposta para as outras disciplinas.

Procedemos à análise do comportamento e do aproveitamento da turma, estabelecendo uma comparação com o período anterior. Fizemos também a apreciação do aproveitamento de cada aluno e foram propostas estratégias de remediação para os casos com mais de duas negativas. Fez-se a avaliação dos planos elaborados no Conselho de Turma de Dezembro. É uma tarefa muito aborrecida, que acaba por ser inútil. Fazem-se papéis com o único propósito de “mostrar serviço” aos pais e encarregados de educação, que tomam conhecimento deles e os assinam na reunião de entrega de notas, aqueles que vão, claro está... Não servem para nada, penso que é o parecer unânime de professores e directores de turma. Ficam no dossiê de cada turma e ninguém mais lhes toca, só o director de turma, aquando da preparação da próxima reunião, volta a pegar nesses documentos. Isto não significa que os professores não procurem realizar tudo o que foi estipulado, o que se passa é que o fazem naturalmente. Quando em reunião de coordenação de direcções de turma contestamos esta obrigatoriedade de preenchermos estas fichas, a resposta é que tem de haver um documento, podemos é propor mudanças no mesmo. Por isso, têm-se feito apenas alguns ajustamentos. No final do ano, colocam-se as referidas fichas no processo do aluno.

Também é nas reuniões que se faz a verificação do grau de cumprimento das planificações de cada disciplina. Além disso, é obrigatório proceder à planificação do trabalho conjunto a desenvolver no terceiro período, tendo sobretudo em vista as articulações curriculares possíveis.

Os coordenadores alertam para a necessidade de todas as ocorrências e decisões ficarem devidamente fundamentadas em acta, para nos protegermos de eventuais reclamações, mas também porque, na última inspecção à escola, um dos aspectos negativos que nos foi apontado foi o de não haver testemunho escrito do que é feito, e esta falha deve ser igualmente colmatada ao nível dos conselhos turma. É uma verdade que a minha escola, até há uma meia dúzia de anos, não investia nesse domínio. É e sempre foi uma escola com uma dinâmica muito intensa e muito empenhada num ensino de qualidade e na promoção de uma diversidade de experiências, nos mais variados domínios (artístico, desportivo, científico, etc.), mas não se preocupava com as “provas” do que fazia. Nos dias que correm, apregoa-se a publicitação de todas as “evidências”. Penso que caímos no extremo oposto e a virtude talvez se encontre no meio.

Findo o meu Conselho de Turma, depois de confirmar as classificações atribuídas junto de um elemento da direcção, fui para outro. Já só me falta uma reunião. Já estou mais aliviada.

 

Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Quando me despedi da última mãe que atendi e abri aporta da sala, vi a R.. Estava à espera para falar comigo. Mandei-a entrar. Insisti com ela para me explicar por que razão, em vez dela, não tinha ido a mãe à reunião. Sentiu-se “contra a parede”, sem ter como fugir a uma explicação, à verdade. Disse-me com a voz um tanto embargada: ‘Sôra’, a minha mãe foi internada ontem numa clínica de desintoxicação.” Fiquei paralisada. Fraquejei. Tinha de reagir. Como podia ter sido tão cega? Estava longe de supor uma tal coisa. O que devia dizer? Não contive a emoção. Sem conseguir conter as lágrimas, disse-lhe: “R., desculpa-me toda esta insistência, não imaginava serem esses os motivos da ausência da tua mãe.” Ela respondeu: “Não se preocupe ‘Sôra’, deixe lá. Eu não queria contar, porque a escola não tem nada a ver com isto.” Elogiei o seu sentido de responsabilidade. Ela começou, finalmente, também a chorar. Descarregou a tensão. Contou-me, seguidamente, que o problema da mãe – alcoolismo – já é antigo. O ano anterior, em Maio, devido a isso, retiraram-lhe a guarda das duas outras filhas, mais novas. Ela ficou com a mãe porque já tinha feito 16 anos. As irmãs estão numa outra cidade, num externato. Falou delas com muita saudade. Esclareceu que as faltas que tem dado se devem todas a, frequentemente, ter de levar a mãe ao hospital. Contou-me que, já há muito, tem a seu cargo a feitura das refeições, a limpeza da casa, os cuidados com a roupa e, imaginem, a higiene da avó. “Estou habituada a fazer tudo, não sou como as princesinhas da turma, sou eu que mudo a fralda à minha avó, que lhe faço tudo. Não custa nada. Só preciso de ajuda para lhe dar banho. A minha mãe não tem tido condições de fazer nada. Foi por isso que as assistentes sociais a forçaram a este tratamento.” Questionei-a sobre como cuidaria da avó agora, sozinha. Resoluta, disse-me “Está tudo controlado. Deixo o almoço pronto e uma vizinha vai lá a casa aquecê-lo e dá-lo à minha avó. Muda-lhe a fralda, vira-a de lado e vê como é que ela está.” Senti-a, até, um pouco aliviada com a ida da mãe. Perguntei se o pai vivia perto, se a ajudava. Disse-me, com o conformismo de quem não conhece outra vida: “Nem sei em que terra é que vive. Não é o pai das minhas irmãs. Nunca vivi com ele, nem tenho nenhum contacto dele, nem conheço ninguém da família dele. Raramente o vejo, só quando vem entregar a minha pensão de alimentos.” Eu continuei com as minhas dúvidas: “E tens apoios de outros elementos da família do lado da tua mãe? E do pai das tuas outras irmãs?” A sua resposta foi pronta: “Não. Nem quero ter nada a ver com essa gente. A ‘Sôra’ não está bem a ver o tipo... O pai das minhas outras irmãs, que viveu com a minha mãe 14 anos, refez a vida com outra mulher, está na Suíça, e não quer saber das filhas, nem da minha mãe para nada.” Perante a minha perplexidade, a R., invertendo os papéis, disse-me: “ó ‘Sôra’ há gente em situação muito pior que eu. Eu ‘safo-me’ bem.

Não se preocupe.” No final, antes de se ir embora, as palavras dela foram: “Mas eu sei que sou muito preguiçosa e as notas que tive foram só da minha responsabilidade. A minha mãe nunca me disse para eu não estudar.” Como é que uma jovem como a R., numa sociedade como a nossa, numa família como a dela, assume esta responsabilidade? Onde vai ela buscar força e coragem para viver a rotina da escola? Manifestei-lhe todo o meu apoio. Mas que apoio posso eu prestar? Como pude equacionar tantas suposições e não suspeitei desta possibilidade? Afinal, o que sei eu dos meus alunos? Como pode esta jovem vir para as aulas e trabalhar normalmente? Por sua vez, só a formação escolar a pode apoiar na sua mobilidade social. E ela é muito inteligente, apesar de ter duas negativas. Não sei o que posso, nem o que devo, fazer, mas alguma coisa tem de ser feita.

 

Catarina

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Pontual, eram 15h30 quando entrei na sala onde já era esperada pelos três famosos. Os outros colegas foram entrando e, já dispostos como manda a lei – hierarquicamente distribuídos –, teve início a sessão. O avaliador, sentado em posição central, que supus ser o coordenador, fatalmente decidiu começar por mim. “Fantástico”, pensei, esta é a melhor forma de abreviar a minha ansiedade. Tudo correu como eu tinha previsto. De forma incisiva, cortante e num tom levemente agressivo, fui “convidada” a justificar resultados académicos, qualidade do sucesso, abandono e desistência, práticas e estratégias de ensino, planeamento, gestão e articulação de currículos, trabalho docente cooperativo, projectos interdisciplinares, acompanhamento e supervisão de práticas lectivas e, por fim, monitorização e avaliação das aprendizagens. A tudo respondi e a tudo o avaliador me devolvia um olhar seco e cortante e um riso amarelo. Apercebi-me que, como vem sendo hábito, se verifica uma tendência para focalizar no professor as razões do insucesso e do abandono escolar. E eu só ouvia: “E as estratégias que usa em sala de aula... E as estratégias que usa em sala de aula?”. Por muitas, inovadoras e criativas que sejam as estratégias, estas não resolvem questões sociais que influenciam de forma determinante o sucesso e o abandono escolar. Lidamos todos os dias com miúdos com problemas sócio-afectivos graves, com alunos com necessidades educativas especiais, com alunos cujos encarregados de educação não lêem, não compram jornais, não visitam museus, não vão ao teatro... enfim, não esquecendo todos aqueles cujo contexto socioeconómico é bastante frágil. Mas, para o avaliador, nenhum destes factores parecia importar e persistia: “Interessa-me saber as estratégias que usa para mitigar o insucesso e o abandono.” Falei da imensidade de horas retiradas do artigo 79 e do Tempo Remanescente do horário de todos os docentes de Português, destinadas a aulas de apoio. Expliquei que todos os alunos referenciados com necessidades educativas especiais e com problemas de compreensão/expressão, no plano da oralidade e da escrita, tinham aulas suplementares. A nível da competência de leitura, salientei que o grupo de Português estava a ser fortemente apoiado pelo grupo da Biblioteca Escolar. Descrevi com minúcia o trabalho colaborativo, as imensas reuniões de nível convocadas com o objectivo de trabalhar as questões relativas ao insucesso; a elaboração conjunta de planificações, instrumentos de avaliação e actividades extracurriculares. Clarifiquei o sistema de substituição de professores: sempre que um colega de Português tenha necessidade de se ausentar, pelas mais diversas razões, é imediatamente substituído por um congénere com horário compatível. Isto pareceu desagradar ao avaliador sentado à direita do seu coordenador, anteriormente referenciado como catedrático jubilado na área das Ciências da Educação. Este admoestou-me sarcasticamente: “Nesta escola não funcionam como humanos, mas como robots.” Não tendo compreendido a metáfora do “robot”, solicitei-lhe o devido esclarecimento. “São robots!” – insistiu. – “Entram nas aulas dos colegas para os substituir de forma mecânica.” Decidi abandonar esta batalha, talvez o senhor avaliador achasse preferível os alunos não terem aula de Português. (...)

Outra das grandes preocupações do senhor avaliador foi confirmar se a gestão dos currículos de Português tinha em conta o estudo da literatura própria do meio. Neste momento, contive-me para não ser também um pouco agressiva ou recorrer a uma ironia mordaz. Eu jamais trocaria Antero, Gomes Leal, Cesário e Pessanha por alguns “conhecidos” poetas [locais], por quem não morro de amores, nem lhes reconheço genialidade. Eu já sofro imenso em gerir um programa que foi concebido para três blocos de 90 minutos e cuja estrutura curricular compreende apenas dois. (...)

Terminei a minha intervenção com um alerta, na esperança de que este ficasse registado no relatório final, para o qual o terceiro elemento da “troika” contribuía, disciplinadamente, anotando no seu portátil as observações suscitadas pelo meu já tão longo discurso. Tratava-se de uma chamada de atenção para a gravidade de, presentemente, numa mesma escola, num mesmo país, se trabalhar, a nível do estudo da gramática, com três terminologias diferentes: os 7o, 10o e 11o anos aprendem as regras de funcionamentoda língua de acordo com o Novo Dicionário Terminológico; o 8o e o 9o com a gramática dita tradicional; o 11o e o 12o segundo a TLEBS, gerando uma enorme dispersão entre alunos que apresentam e sentem bastantes dificuldades em expressar-se correctamente na sua língua materna. Obviamente, nada disto parecia interessar...

 

Maria da Silva Rainha 

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Retomo a aula de 6o ano. Toca para o início dos segundos quarenta e cinco minutos. Duas das alunas da turma não param de falar. Uma delas foi a que chegou tarde e a quem tiraria a falta se se portasse bem. Não resultou. Falam num tom de voz cada vez mais alto. Avisei-as várias vezes durante o primeiro bloco. Aviso-as outra vez. Abrandam. Voltam a falar. Cada vez mais alto. Levantam-se. Não é possível continuar assim a aula. Convido-as a sair cinco minutos para se acalmarem. Têm que ficar quietas do lado de fora da porta até sossegarem. Anuem. Sei que não estou a cumprir o regulamento interno que não me permite pôr alunos fora da sala. Tenho que escrever a ocorrência, chamar o funcionário, esperar que chegue, enviá-las com uma tarefa para o GAAP ou para a Direcção. Para não perder mais tempo, não o faço. Saem. Menos de um minuto decorrido, a aula é interrompida pela funcionária. A aluna que tinha chegado atrasada despejou o extintor de incêndios no chão. Digo à funcionária que a aluna já tem falta e para fazer o favor de a levar à Direcção, relatando o sucedido. A outra aluna reentra na sala. A turma voltou a agitar-se. Enquanto falava com a funcionária levantaram-se quase todos para ver o que tinha acontecido ao extintor e à colega. Voltamos ao início: sentar, acalmar, manterem-se atentos. Acaba a apresentação. Projecto-lhes três perguntas sobre a matéria para passarem para o caderno (as fotocópias estão limitadas) e responderem durante o tempo que resta da aula. Depois de alguns alunos lerem as suas respostas, projecto no quadro electrónico a correcção das mesmas. Acaba a aula. A sala está suja. Peço à delegada para ir buscar uma vassoura e uma pá. (Há poucos funcionários e a Direcção pede-nos para fazermos este tipo de acção). Uma aluna da turma varre a sala, enquanto os outros despejam no caixote do lixo lenços e papéis. Depois da sala arrumada e limpa deixo-os sair. A este nível dão mais trabalho do que as turmas de 9o ano todas juntas.

 

Maria Pala

Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

A sensação que eu tenho é que não ganho para tudo o que faço e com gosto naquilo que faço. Mas o gosto não chega. Dou aulas desde 1990 (ano de estágio), trago para casa 1400 euros (aproximadamente), não tenho direito a subsídios... Quase nem acredito que 280 contos é um mau ordenado, não era, mas agora 1400 euros é realmente um ordenado sofrível. Claro que sei qual é o salário mínimo nacional e que muita gente “sobrevive” com muito menos, mas será que ganho muito? Será que paga o que tirei à família e ao descanso? Duvido. 

 

Maria Queirós

Sexta-feira, 27 de Julho de 2012 

Quando era miúda queria ser enfermeira. Achava o máximo tratar de pessoas fragilizadas, dar-lhes miminhos e comprimidos. Claro que tinha uma perspetiva romântica do que é tratar de doentes e hoje percebo que, na prática, o que eu queria era ser voluntária. Depois entrei para a escola, descobri a História e fiquei apaixonada. Quando, num longínquo 1978, acabei os exames do ano propedêutico a primeira opção que coloquei nos papéis para ser admitida ao ensino superior foi: História – Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Aí fiquei e digo-lhe que adorei os quatro anos que passei na faculdade. Acabei o curso em Julho de 82 e em Outubro já estava a dar aulas em Beja, sem cadeiras pedagógicas, sem estágio, sem nada. Foi logo uma paixão. Dura, exigente (sem grandes apoios, que naquela altura não havia a febre do trabalho colaborativo e outras coisas quejandas), mas uma paixão. Eu, que nunca tivera o sonho de ser actriz, via-me num palco tendo o condão de criar batalhas, traçar rumos de nações inteiras, dar a conhecer heróis e trastes... Era mesmo giro dar aulas! E como se perdia muito menos tempo em burocracias (apesar de os testes serem em stencil o os slides o último grito) tinha mais hipóteses de preparar aulas com toda a criatividade (que é aguçada pela falta de recursos). A atenção dos meus alunos, as suas boas notas, o seu riso, as suas questões, as suas ilações (às vezes bem toscas, mas enfim...) eram uma recompensa para todo o esforço despendido. Trinta anos e milhares de alunos depois...

Continua a ser mesmo giro dar aulas! (...)

Gosto muito de ensinar. Acho que ser professora é das mais nobres profissões que se pode ter. Continua a ser duro, é cada vez mais desgastante (o facto de ir ficando mais velha também não ajuda) mas é muitíssimo gratificante. (...) Quando me perguntam a profissão, é sempre com um imenso orgulho que digo – sou professora.

Ler do início