A Universidade

Crónica

As universidades não se destinam a fornecer as técnicas necessárias ao crescimento económico –para isso existem os politécnicos – mas constituem o local onde tem lugar a “conversa”, esse empreendimento cooperativo através do qual se processa a busca do saber.

Por vezes, imagina-se que apenas os filhos dos pobres são marcados pela origem de classe. Não é verdade: todos o somos. O meio onde nasci, além do facto de ser rapariga, militava contra a ideia de que eu pudesse ou devesse frequentar a universidade. O meu destino era casar, o mais depressa possível, com um rapaz bem-nascido. Olhando hoje a fotografia das colegas que, a meu lado, frequentavam o 7.o ano do liceu no Colégio das Doroteias, noto que apenas uma optou por continuar os estudos.

Depois de um 5.o ano do liceu em que obtivera notas razoáveis, escolhera a alínea g), que dava acesso ao curso de Economia. Não que pretendesse ser economista – eu sabia lá o que isso era – mas por desejar combinar cadeiras de Ciências com as de Letras. Durante dois anos não me preocupei com o futuro. Até que, na Páscoa de 1960, fui à Rua do Quelhas, onde funcionava o instituto que então se designava ISCEF, a fim de ver que tipo de curso era o que escolhera. Sim, queria ir para a faculdade, mas não para um curso onde fosse obrigada a estudar contabilidade. Troquei-o rapidamente por Filosofia. Habituados à minha teimosia, os meus pais deixaram-me fazer o que entendesse.

Em Outubro de 1960, matriculei-me na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma menina loira era, por definição, pouco inteligente, coisa de que logo me apercebi pelo olhar dos colegas. De início, aceitei o veredicto: aqueles rapazes, de óculos com muitas dioptrias, eram mais inteligentes e mais cultos do que eu. Mantive um perfil baixo, fácil em disciplinas como a História da Cultura Clássica, leccionadas num anfiteatro a cerca de quatrocentos jovens. Além desta cadeira, o primeiro ano consistia em História da Filosofia Antiga e em várias Introduções, à Filosofia, à História, à Psicologia. O único docente que me atraiu foi o padre Manuel Antunes.

Quanto às outras disciplinas, a situação variava. A regente de Introdução à História era a Prof. Virgínia Rau, que, devido ao seu estatuto, não se dignava conviver connosco. As aulas eram dadas pelo assistente, Dr. Borges de Macedo, um professor que se especializara em me aterrorizar. Passei o ano escondida atrás de uma aluna de elevada estatura. O medo levou-me a deixar o exame para a época de Setembro. Dos outros docentes, nada recordo.

A minha vida académica, se assim se lhe pode chamar, reduzia-se às manhãs. Mal deixava a faculdade, ia para casa, onde convivia com os amigos de Cascais, com quem nunca falava da faculdade. Os meus pais tão pouco me maçavam com interrogações. O facto de nada me ser exigido acabou por ser positivo. Fazia os exames com um à-vontade que espantava os colegas. Não tardei a aperceber-me de que aquilo que ambicionava, um estímulo intelectual, não seria ali que o ia encontrar. No final do ano, fiz exame às três cadeiras a que me havia apresentado, tendo deixado duas para Setembro: Introdução à Psicologia, por ser demasiado tonta, e Teoria da História, por temer o assistente. Em vez de me concentrar nas sebentas, vendidas – e provavelmente escritas – pelos contínuos, passava os dias a ler Kafka, Gide, Wilde, Vailland, Huxley e Malaparte, mas nenhum livro me marcou tanto quanto O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë.

Em Setembro, tão distraída andava com o jovem rebelde que encontrara na praia, que me esqueci de ir à faculdade ver as notas de Introdução à Psicologia, o que levou a que faltasse ao exame oral, um gesto que equivalia à não passagem de ano. Em vez de ficar em Lisboa, a fazer os disparates que os meus pais temiam, fui para um colégio de freiras em Londres, do qual logo fui expulsa, passando a residir em casa de uns polacos. A greve académica de 1962 ocorreu enquanto estava no estrangeiro.

Nesse Verão, submeti-me ao exame da disciplina que me faltava para completar o elenco. Estava, por fim, no 2.o ano. Mas o meu percurso académico ia sofrer um revés. Em Abril de 1963, casava-me. Dado que o gesto era mal visto tanto pelos meus pais como pelos meus sogros, não lhes podíamos solicitar ajuda. A fim de pagar as despesas da casa – o meu marido estava na tropa, onde o salário era irrisório – empreguei-me, como intérprete, no Ministério da Saúde. Nem o facto de trabalhar oito horas por dia, nem o de, a curto prazo, ter sido mãe, me levou a abandonar a faculdade. Inscrevi-me como aluna voluntária, o que exigia que a cada disciplina, em vez de um exame, tivesse de fazer três. Ainda hoje me interrogo sobre o motivo que me levou a prosseguir os estudos. Suponho que o tédio da repartição pública, aliado ao trabalho doméstico, me ajudaram a tomar a decisão. No Verão de 1966, aconteceu algo de impensável: chumbei numa oral. Ao apresentar-me à prova de História de Filosofia Moderna II, verificara estar diante de um desconhecido: era o Prof. Oswaldo Market, que acabara de chegar de Espanha, e que presidia ao júri. Eu tinha respondido à questão por ele colocada sobre Kant contando uma história mirabolante, inspirada no filósofo chinês Chuan Tzu, que evidentemente não fazia parte das leituras obrigatórias. Imaginei que me safaria. Estava enganada.

Quando fui conferir a pauta, verifiquei que a percentagem de reprovação fora altíssima. Considerei uma injustiça que um docente, que nunca dera aulas, alterasse, a meio, as regras do jogo. O Prof. Market explicou-me ter eu reprovado por nada saber de Filosofia, acrescentando que, caso desejasse passar, teria de ir assistir às suas aulas. Sabia que a exigência não era legal – a lei previa o que hoje se chama estudantes-trabalhadores – mas relatei o drama ao meu “patrão”, o qual me autorizou a ir à faculdade, desde que, ao fim da tarde, repusesse as horas.

Apesar do meu desespero ou, quem sabe, por causa dele, continuei a estudar, a maior parte das vezes com o Vasco Pulido Valente, que entretanto havia trocado o curso de Direito pelo de Filosofia. Gostámos logo um do outro: entretínhamo-nos a fazer troça dos professores, a trocar referências bibliográficas e, através dos apontamentos de uma colega, a tentar digerir o que havia sido dado nas aulas.

Por ter chegado à conclusão de que seria essa a forma mais expedita de acabar o curso, decidi fazer a tese de licenciatura em Psicologia. Para o efeito, mandei vir, dos EUA, um formulário, o “Questionário de Interesses Vocacionais de Strong”, com 399 questões, supostamente indicativas dos interesses dos “respondentes”, como se dizia no jargão. Ao fim de oito meses, apresentei-me na faculdade com o volume na mão. Quando o entreguei, o Prof. Moreira de Sá informou-me que ninguém fazia uma tese – uma regra informal – em menos de dois anos. Em Novembro de 1969, sem ter mudado uma vírgula no texto, licenciei-me, em Filosofia, com a classificação de “Bom” (14 valores).

A passagem pela Universidade de Lisboa teve importância por quatro razões. Em primeiro lugar, libertou-me do mundo a que, pelo sexo e pela classe social, estava destinada. Em segundo, mostrou-me que nem todos os docentes eram manipuláveis. Em terceiro, deu-me um amigo. Finalmente, a nota da licenciatura revelou-se importante, pois me dava acesso ao doutoramento. A certa altura, decidi tentar obter uma bolsa a fim de prosseguir estudos – em Sociologia, matéria que me atraía, por Salazar a proibir – na Universidade de Oxford. Em meados de 1970, recebia uma carta da Fundação Gulbenkian, comunicando-me que me financiariam uma pós-gradução em Inglaterra.

No Outono do ano seguinte, depois de uma entrevista com meia dúzia de docentes, fui aceite na Universidade de Oxford. O meu colégio, St. Antony’s, destacava-se pelo seu cosmopolitismo, um facto positivo para quem, como eu, vinha de paragens distantes. Mais importante, era dirigido por um grande intelectual, Raymond Carr. Em meados de Setembro, ou seja, antes de o trimestre ter começado, mandei um cartão ao meu supervisor, Alan Ryan, informando-o de que pensava ser útil começar a digerir, logo que possível, doses elevadas de Cultura. Respondeu, aconselhando-me a divertir-me, pois, na devida altura, ele se encarregaria de me esmagar com trabalho. Passados uns dias, tomando o meu desejo à letra, mandou-me escrever um ensaio, de 2000 palavras, sobre “What would be a sociologial explanation of suicide?”, após o que me comunicou que passaria a ter tutorials – lições individuais – todas as semanas. Na data combinada, entreguei-lhe o trabalho. Li com atenção as palavras que escrevera à margem do ensaio, “You need to explain why”. Ia ser ensinada a pensar.

Nunca mais deixei de olhar Oxford como o local onde melhor me sinto. Sei que a universidade mudou desde que, em 1978, por ela me doutorei. Basta olhar as fotografias de St. Antony’s para se ver como a instituição tem crescido. Em 1971, o número de membros andaria à volta de 80; hoje, é de 450. Para satisfazer a pressão dos políticos e das classes médias, Oxford tem vindo a admitir cada vez mais alunos. Frequentam hoje a universidade 6768 pós-graduados; em 1971, o número era de 2000.

A expansão não significou todavia uma maior democratização, nem no recrutamento de alunos, nem no de docentes. Em 1960, a proporção de alunos que frequentava Oxford com uma bolsa de estudo era de dois terços (os ingleses não pagavam propinas e as bolsas de estudo, concedidas pelas autoridades locais, eram numerosas). Em 1971, 62% dos alunos vinha do ensino estatal; hoje, isso apenas sucede em 55% dos casos. Não porque a universidade não se esforce por os acolher, mas porque o ensino público de tal forma se deteriorou que só os miseráveis o frequentam. A origem dos professores também era singular. Quando ali cheguei, espantou-me o número vindo de meios operários, um fenómeno desconhecido na Faculdade de Letras. Para só citar dois exemplos, Raymond Carr, o warden do meu colégio, era filho de um ferroviário, e o meu primeiro supervisor, Alan Ryan (que acabou warden de New College) de uma criada de servir.

A Universidade de Oxford está hoje perante um dilema: por um lado, quer receber alunos oriundos de meios sociais diferenciados, por outro, sabe que não pode diminuir a qualidade do ensino. Não é apenas a expansão numérica ou a engenharia social que me parecem perigosas, mas a americanização da vida universitária, a qual se traduz em “grelhas” de apreciação dos curricula dos docentes, na introdução do pensamento politicamente correcto e no ataque ao sistema de tutorials, a jóia da coroa da universidade.

A meio do meu doutoramento, os capitães de Abril derrubaram o regime. Entusiasmada, pedi ao meu supervisor para interromper a investigação em curso, coisa a que acedeu. Procurei reformar tudo o que estava à minha volta, mas, a certa altura, compreendi que, na faculdade onde ensinava, o ISCTE, nada havia a fazer. A meritocracia era vista como sinónimo de fascismo. Interrompi a carreira lectiva, concentrando-me na investigação, o que só foi possível por existir um homem, Adérito Sedas Nunes, em vias de criar um instituto de pós-gradução em Ciências Sociais, o ICS, a que ainda pertenço.

Em 1981, o reitor da Universidade de Lisboa, Prof. Rosado Fernandes, aceitou lutar contra tudo e contra todos, institucionalizando o antigo Gabinete de Investigações Sociais, financiado pela Fundação Gulbenkian. Eu reunia, todos os sábados, com o Adérito, a fim de planear a ilha de qualidade com que ambos sonhávamos. Em 1990, no momento em que ele adoeceu, decidi, num gesto de gratidão, oferecer-me para chefiar o Conselho Directivo. Foi um disparate, mas teve uma vantagem. Tive oportunidade de observar o funcionamento da universidade a partir do topo. A situação era pior do que pensava.

Na sequência da aprovação da Lei da Autonomia Universitária de 1989, votei sozinha, no Senado, contra a participação dos estudantes em certos órgãos de decisão. Para minha surpresa, os alunos “revolucionários” de Letras eram apoiados pelos docentes “reaccionários” de Direito, uma aliança que se manteve quando se discutiu se o ICS poderia conferir os graus de mestre e de doutor. O óbice residia no facto de, não tendo alunos de licenciatura, o organismo ser diferente. No final, obtivemos uma meia vitória: passámos a poder leccionar mestrados, mas não doutoramentos, o que, com o tempo, foi conseguido. Isto permitiu-me ensinar licenciados. A dimensão do curso era aceitável, havia livros na biblioteca, vontade não me faltava, mas o meu primeiro estudante de mestrado nunca ouvira falar de Tocqueville, algo equivalente, esclareça-se, a alguém que, nas ciências exactas, desconheça a fórmula do oxigénio.

Muitos são os responsáveis pelo actual estado – em geral, medíocre – das nossas universidades, a começar pelo ministério. Talvez não seja ele o maior culpado, mas a instituição que, por preguiça, abdicou da possibilidade de ter uma palavra a dizer sobre os alunos que nela ingressam. Sobre as ruínas do ensino superior salazarista, medíocre e fechado, ergueu-se a arbitrariedade ditada por um computador. Sem um passado em que ancorar os cursos, defrontado com uma classe média que exigia que os filhos tivessem acesso ao ensino superior, não dispondo de um corpo docente qualificado, o regime democrático viu-se perante um problema difícil. Com medo de serem apelidados de elitistas, os políticos foram, e são, incapazes de afirmar qual o papel de uma universidade. A direita, por covardia, e a esquerda, por convicção, estão unidas na indefinição, o que faz com que seja impossível alterar a política educativa.

Seja como for, vale a pena mencionar um benefício que ultrapassa o meramente económico: a frequência universitária pode mudar uma vida. Sei-o, porque foi isso que me aconteceu. A Faculdade de Letras ajudou-me a dar o primeiro passo; um arménio, Calouste Gulbenkian, permitiu-me o acesso a uma das melhores instituições do mundo.

Lembro as palavras de Michael Oakeshott: “O que distingue uma universidade é a maneira especial como se dedica à busca do saber. Trata-se de uma unidade corporativa de intelectuais, cada um devotado a um ramo especial do conhecimento: o que a distingue é a investigação como um empreendimento cooperativo. Os membros desta corporação não se encontram espalhados pelo mundo, apenas se reunindo ocasionalmente ou até nunca se vendo; vivem em permanente contacto uns com os outros.” E acrescentava: “A busca do saber não é uma corrida na qual os concorrentes devam tentar chegar em primeiro lugar, nem sequer um argumento ou um simpósio: é o sítio onde tem lugar uma conversa” . A palavra importante é a última.

As universidades não se destinam a fornecer as técnicas necessárias ao crescimento económico – para isso existem os politécnicos – mas constituem o local onde tem lugar a “conversa” de que falava Oakeshott. Nas sociedades democráticas em que, como advertia Tocqueville, existe o perigo de surgir uma tirania imposta pela maioria, as universidades têm a obrigação de ensinar a pensar livremente. Há três anos, farta de presidir a concursos de promoção com base em grelhas idiotas, pedi a reforma antecipada, mas ainda hoje dou comigo a pensar na universidade portuguesa, olhando-a, como o fazia Almeida Garrett, relativamente aos frades, em Viagens na Minha Terra: tenho saudades, não do que foi, mas do que poderia ter sido.

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