Moeda única II

A Europa do futuro

A integração económica que o euro proporcionou beneficiou enormemente os países que a souberam aproveitar e não foi ela que causou os problemas dos países em crise – foram erros de política económica e orçamental. São esses erros que é preciso corrigir e já há muitos mecanismos de solidariedade para o fazer. Mas sem o euro não haverá uma nova prosperidade europeia.

O Euro é um dos grandes pilares de uma nova prosperidade europeia que começa a emergir e que transformará a Europa numa das zonas de mais forte e robusto crescimento do futuro. A crise dos países da periferia da Europa tem gerado uma imagem de estagnação, incapacidade de resolução de problemas e condenação a um futuro pobre e instável. A crise tem, de facto, elementos de grande perigosidade, porque, se mal conduzida, pode levar a uma implosão e ao próprio desaparecimento da moeda única. Mas esse cenário catastrófico só acontecerá em caso de extrema incompetência de alguns governos europeus, o que, não sendo possível excluir completamente, tem, apesar de tudo, uma probabilidade reduzida. E, pelo contrário, as atenções hoje focalizadas na crise da periferia fazem esquecer o enorme sucesso dos outros países da Europa do Norte e de Leste, que ilustram perfeitamente a profunda transformação que está a ocorrer no Velho Continente. 

Se utilizarmos uma perspectiva de longo prazo – por exemplo, uma década depois da criação do euro – o elemento mais estranho da performance europeia é a enorme discrepância de taxas de crescimento económico que se observam na Europa. Países como Alemanha, Suécia, Polónia, Holanda, Áustria têm tido desempenhos invejáveis. Em flagrante contraste, Grécia, Portugal, Espanha ou Itália não beneficiaram de verdadeiro crescimento económico, antes, no melhor dos casos, registaram um crescimento fictício e insustentável, baseado em mais despesa, financiada com dívida externa. Estes dois extremos ilustram bem o impacto diferenciado que o euro teve num caso, em comparação com o outro: os países bem sucedidos foram os que, graças ao euro, aprofundaram a sua integração europeia, abriram as suas economias, cresceram graças a ganhos de competitividade e eficiência, especializaram-se, fizeram exactamente o que deviam, no contexto de uma moeda única; os que falharam foram os que se limitaram a beneficiar da entrada no euro para se endividarem muito para além dos limites do aceitável, utilizar esse financiamento para aumentar o consumo privado e público ou para fazer investimentos ruinosos, ao mesmo tempo que tornavam as suas economias mais fechadas e protegidas – relembremos que, dez anos depois da entrada no euro, a Grécia exportava para a zona euro apenas 5% do PIB ou que praticamente todo o crescimento económico espanhol se explica pelo aumento da despesa interna, em particular o investimento em construção e imobiliário.

Note-se que o impacto do euro não se limita à zona euro. A grande maioria dos países da Europa do Norte e do Leste que não fazem parte do euro procedem como se fizessem: o euro é para eles uma âncora que lhes permite estabilizar as suas taxas de câmbio, o que esses países fazem com grande mestria. Apenas o Reino Unido insiste em manter uma taxa de câmbio totalmente desligada do euro, desvalorizando livremente e registando grande volatilidade, com consequências desastrosas para a economia britânica, como é bem patente.

O que hoje observamos na Europa é uma nova configuração da actividade económica. As empresas e os sectores económicos são cada vez menos nacionais, mais europeus. Redistribuindo a sua actividade pela Europa toda, as empresas vão buscar ganhos importantes de eficiência, colocando os diversos segmentos da cadeia de valor onde é mais eficiente fazê-lo. Como a característica principal da União Europeia é a enorme diversidade de situações, de competências, de custos e até de recursos, não admira que seja possível que essa reorganização da cadeia de valor traga grandes ganhos de eficiência e portanto de competitividade. Certas empresas europeias – especialmente as alemãs, mas também as francesas ou suecas – são especialmente eficazes nesta nova maneira de se organizarem: primeiro, beneficiam de marcas de grande valor a nível global, que asseguram a colocação dos seus produtos em qualquer parte do mundo; depois, sabem distribuir as suas cadeias de produção – incluindo de investigação e desenvolvimento – pela Europa fora; por último, têm uma capacidade organizativa que lhes permite gerir esta complexidade de situações – com governos, parceiros industriais e instituições financeiras fora do seu país – que torna todo o sistema muito eficaz.

OS SUCESSOS DO EURO

Este processo – que é verdadeiramente win-win – torna as economias europeias mais integradas, cria emprego e riqueza por todos os países que nele participam e melhora a posição competitiva da Europa em relação ao resto do mundo. E é um processo que está ainda no seu princípio, beneficiando da enorme diversidade de situações que se encontram por toda a Europa e da disponibilidade e capacidade de cada país de encontrar o seu lugar neste processo de integração. É impossível compreender o progresso drástico de países como a Polónia, a Eslovénia ou a Eslováquia, que estão hoje irreconhecíveis relativamente a há uma década atrás, sem ter em conta este desenvolvimento.

Ora nada disto teria sido possível sem o euro, ou só teria sido possível numa escala muito mais limitada. A volatilidade das taxas de câmbio torna esta redistribuição das cadeias de valor totalmente ingerível. Investimentos, contratos, planeamento a longo prazo ficam completamente impossíveis, se as taxas de câmbio variam drasticamente, como acontece noutros países. É por isso que o euro apareceu numa altura em que se percebeu – depois da grande crise cambial de 1992/93 – que o que estava em causa era a verdadeira sobrevivência do mercado único. E é por isso também que nenhum grande dirigente empresarial alemão ou francês quer sequer ouvir falar do desaparecimento do euro ou da saída do seu país do euro. O mundo anglo-saxónico subestima arrogantemente o compromisso dos grandes países europeus com a moeda única, precisamente porque não se dá conta da importância crítica que o euro tem para a prosperidade actual e futura da Europa.

Há ainda uma outra explicação para o cepticismo anglo-saxónico, ou pelo menos americano, em relação ao euro. É que o euro é de facto a única possível alternativa ao dólar americano, a única moeda que pode exercer alguma concorrência, isto é, que pode pôr fim ao extraordinário domínio que o dólar exerce, no contexto do Sistema Monetário Internacional. Para todos os grandes detentores de capital, desde a China, aos países do Golfo, dos fundos soberanos aos grandes investidores institucionais, não há hoje nenhuma alternativa ao dólar americano e ao mercado financeiro dos Estados Unidos da América. Só o mercado americano e os activos denominados em dólares têm a dimensão, a sofisticação e a profundidade necessárias para absorver esses capitais, que, como é sabido, atingem hoje uma escala completamente sem precedentes. Embora a zona euro tenha feito muito progresso nesta área, está ainda muito atrás dos EUA. Como é evidente, os EUA são grandes beneficiários desta posição de monopólio: podem financiar o seu défice externo sem qualquer dificuldade e a preço muito baixo, sem que os investidores tenham grandes alternativas. Os EUA podem, de facto, viver acima das suas possibilidades, praticar uma política fiscal totalmente irresponsável e manter taxas de poupança baixíssimas, em grande parte porque o resto do mundo que tem excedentes de poupança não tem grande alternativa senão entregar-lhes essa poupança para ser investida nos mercados financeiros americanos.

Já a posição britânica é mais difícil de compreender. Os ingleses, depois de terem aderido ao processo de integração monetária europeia – quando, ainda no tempo da primeira-ministra Margaret Thatcher, decidiram entrar no Sistema Monetário Europeu –, nunca conseguiram ultrapassar a profunda humilhação que foi a sua expulsão desse sistema pelos mercados cambiais. Desde então, a posição britânica – apesar da lucidez e das melhores intenções de Tony Blair, que queria o Reino Unido no euro – não voltou a ter nenhuma racionalidade. Optando por ficar de fora, os britânicos queriam ter a liberdade de praticarem a política que mais lhes conviesse, sem restrições à escala europeia. Na verdade, têm hoje uma situação bem mais difícil do que a dos principais países da Europa, com uma séria recessão e uma enorme dificuldade de pôr em prática uma política monetária credível. E demonstram uma incompreensível incoerência, no que respeita aos verdadeiros interesses do seu país. É que a integração monetária e financeira da Europa beneficiará a City de Londres muito mais do que qualquer outro centro financeiro europeu, criando condições para uma verdadeira concorrência com Nova Iorque. Esperemos que um dia a racionalidade volte a dominar a política britânica; mas não será a curto prazo.

A ACTUAL CRISE

A crise da zona euro tem suscitado inúmeras dúvidas sobre a viabilidade do euro, havendo mesmo quem, como o primeiro-ministro Cameron, argumente que o euro está fatalmente ferido por erros profundos de concepção. Na verdade, a crise resulta apenas de más políticas económicas seguidas por alguns países que, não tendo percebido bem o que esta mudança de regime implicava e perante uma grande facilidade de acesso a financiamento externo, foram longe de mais no estímulo à sua despesa interna e acabaram completamente desequilibrados, com dívidas incomportáveis e sem capacidade de crescimento que tornasse essas dívidas sustentáveis.

Convém relembrar que este comportamento estava claramente proscrito, no momento de arranque do euro. O Tratado de Maastricht, de inspiração alemã, mas ratificado por todos os que quiseram fazer parte do euro desde o início, previa uma grande cautela em políticas de estímulo excessivo à despesa interna: a política monetária, da responsabilidade do Banco Central Europeu, deveria orientar-se apenas pelo objectivo de estabilidade de preços; e a política fiscal estava limitada por restrições inscritas no tratado que, se tivessem sido seguidas, teriam evitado tudo o que se passou.

O objectivo de estabilidade de preços foi claramente conseguido. Hoje a reputação do euro enquanto moeda forte, com base em taxas de inflação que serão sempre das mais baixas do mundo, está firmemente estabelecida. Em consequência, os países de boa saúde beneficiam de taxas de juro extraordinariamente baixas, o que é a recompensa normal de quem tem a inflação sob controlo.

Pelo contrário, a política fiscal teve divergências enormes de país para país. Sem grandes preocupações com a sua dívida pública ou o nível dos seus défices, os vários países hoje em dificuldade avançaram com políticas fiscais que se revelaram catastróficas, porque, sem terem conduzido a crescimento sustentável, levaram esses países para uma situação extremamente periclitante, devido à perda de credibilidade junto dos investidores e à consequente impossibilidade de se financiarem. Esta irresponsabilidade teve várias configurações: no caso da Grécia e de Portugal, défices gigantes foram escondidos das autoridades europeias – ou através de operações financeiras (Grécia) ou por desorçamentação (Portugal); no caso da Espanha, os números de execução orçamental não eram maus, com vários anos de saldo positivo; mas, com uma explosão quase incontrolada da despesa interna, alimentada por uma extraordinária bolha imobiliária, a Espanha, sem política monetária autónoma, deveria ter tido uma política fiscal muito mais contracíclica; no caso da Itália, apesar de défices relativamente mais pequenos, o montante total de dívida pública era de tal maneira avassalador que os italianos deveriam ter sido desde o início muito mais cautelosos na forma como geriam as suas finanças públicas.

Mas a crise actual não é só uma crise de dívida soberana ou de finanças públicas. É também uma crise de competitividade e de crescimento económico. O euro foi criado, entre outros objectivos, para que o capital circulasse na Europa com liberdade e se orientasse para onde fosse mais produtivo. Na verdade, os países hoje em dificuldade utilizaram esse acesso a capital para o esbanjarem de forma escandalosa. Na perspectiva de manterem um estímulo forte às suas economias, teoricamente a custo muito baixo, foram-se endividando no exterior para financiarem aumentos extraordinários de consumo privado e público, e investimento desastrosamente improdutivo. Grécia, Espanha e Portugal, em especial, deixaram as suas taxas de poupança descer para valores próximos de um terço do que é a média europeia. Todos estes países mantiveram taxas de investimento altas, muito mais altas do que a sua poupança interna permitiria, mas os projectos que puseram de pé revelaram-se ruinosos: imobiliário em escala gigantesca que hoje não tem qualquer mercado, infra-estruturas de grande luxo, para as quais o país não tem qualquer utilidade, indústrias caríssimas que só podiam sobreviver graças a enorme protecção do Estado. Pelo caminho, foram alimentando subidas de custos, salariais e outros, que os colocaram cada vez mais fora do mercado. Todas estas economias se foram tornando cada vez mais fechadas, com recursos canalizados de forma crescente para os sectores mais protegidos e um desinteresse enorme pelos sectores verdadeiramente competitivos.

Para tornar a situação ainda mais calamitosa, o financiamento externo que alimentou todo este desvario foi essencialmente conduzido pelo sistema bancário de cada país. Por outras palavras, foram os bancos que se endividaram no exterior para emprestarem aos seus clientes internos, quer para consumo, quer para projectos sem rentabilidade. Não admira, por isso, que os bancos se encontrem em situação muito precária, necessitando de apoios estatais sem precedentes. Infelizmente, a consequência quase imediata desta situação é um completo volte-face no comportamento dos bancos, que hoje se tornaram radicalmente cautelosos, não emprestam a ninguém e asfixiam a actividade económica destes países, tornando a recuperação ainda mais difícil.

A braços com dívidas gigantescas, tendo perdido a sua competitividade e sem banca capaz de financiar investimento realmente produtivo, estes países vêem-se numa situação sem saída e são inevitavelmente obrigados a recorrer ao auxílio externo. É claro que o auxílio externo traz consigo condições draconianas de reequilíbrio; mas estas não são senão a consequência dos excessos do passado recente. Restabelecer a saúde de economias tão estruturalmente desequilibradas não se faz sem dor.  

COMO ULTRAPASSAR A CRISE

Ao contrário do que por vezes se lê na imprensa, não falta solidariedade na Europa. Hoje, centenas de biliões de euros – na verdade, com o início de funcionamento do ESM, chegaremos a mais de um trilião – estão disponíveis para ajudar os países em dificuldade. Existe também já hoje um mecanismo extremamente poderoso para ajudar a financiar a dívida dos países em dificuldade, graças à disponibilidade do Banco Central Europeu em intervir no mercado de obrigações. Não é necessário mais nada para que os mercados se acalmem, os países possam ganhar tempo, as economias voltem ao equilíbrio.

O único obstáculo a uma saída rápida e segura da crise é que todo este impressionante arsenal está disponível com uma condição: que os países em crise ponham a sua casa em ordem. Não se pode pedir aos países fortes da zona euro – seja a Alemanha, a Finlândia ou a Áustria – que ponham à disposição o dinheiro dos seus contribuintes para que os países em crise continuem a praticar políticas irresponsáveis, se recusem a fazer os ajustamentos que são indispensáveis ou façam tudo o que podem para minar ainda mais a sua credibilidade nos mercados.

Aqueles que continuam a insistir que, quaisquer que sejam os erros e incompetências dos países em dificuldade, qualquer que seja a arrogância e tontaria dos seus governantes, os países mais ricos e fortes têm de continuar a financiar as economias da periferia, serão os verdadeiros coveiros da União Monetária. É que toda a Europa vive em democracia; e os eleitores revoltar-se-ão muito depressa se virem o seu dinheiro, que tanto custa a ganhar, servir apenas para financiar quem não se sabe governar.

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