Capitalismo

O shopping e a cidade

O mistério e a pergunta são: onde nos levará esta crise? Ao recolhimento endividado dos nossos lares? Ao passeio diletante dos centros comerciais? Ou até à rua e à cidade?

Nas últimas décadas, e a uma geração ou duas de distância dos sossegos claustrofóbicos do mundo rural, os portugueses preencheram as cidades e os seus arredores. Se quiséssemos erigir dois símbolos sólidos da abundância mentirosa em que temos vivido seriam as auto-estradas e os centros comerciais. Em ambos estamos hoje à cabeça da Europa. Temos um dos maiores volumes de metros quadrados de centro comercial por habitante do mundo ocidental. Tínhamos a obrigação de construir cidade mas, em vez disso, fomos às compras e entretivemo-nos com o prolongamento do mapa das estradas.

No entanto, enquanto as auto-estradas apenas foram criticadas quando nos começaram a pesar no bolso, foi sempre de bom tom criticar os centros comerciais. Para a intelligentsia universal, criticar os prosaicos centros de comércio é o substituto fácil da leitura e da reflexão. Trata-se de uma injustiça. Os centros comerciais podem ter salvo a democracia.

Quando os juízes e outros poderes ostensivamente públicos se entretinham a esconder e recortar acusações judiciais e a mascarar a crise, os eleitores, mascarados de consumidores, embrenharam-se nos centros comerciais com um afã que, se os endividou, também lhes ofereceu uma forma simples de alienação, esse bicho mundano com tanto de irresponsável como de divertido.

Vão dizer, claro, que a democracia se salvou da pior maneira. Afastando o olhar público dos nossos piores vícios: uma Justiça formal e subserviente, uma representação parlamentar instalada e uma modernidade ainda feita só de cimento e de diplomados. A modernidade em Portugal não aconteceu, é uma táctica.

Mas nem tudo são defeitos. É nos centros comerciais que nos encontramos com pessoas com quem dificilmente partilharíamos uma mesa de café. Misturamo-nos nas lojas e nas filas para os restaurantes e para as casas de banho. Há uma parte de civismo e republicanismo nas agora comerciais que não podemos ignorar. Estes centros comerciais substituíram, imperfeita mas naturalmente, o passeio público burguês e o adro da igreja. E agora sem a exclusão snob dos humildes e dos infiéis.

O mistério e a pergunta é: onde nos levará esta crise? Ao recolhimento endividado dos nossos lares? Ao passeio diletante dos centros comerciais? Ou até à rua e à cidade?

provérbio italiano

Parte deste concerto cosmopolita resulta de duas virtudes do mercado que, invisíveis à maioria dos seus observadores críticos, têm o poder fulgurante dos verdadeiros humanismos. A primeira virtude é o carácter voluntário das trocas. As transacções fazem-se pacificamente e com o acordo do vendedor e do comprador. A segunda virtude é a tendência do mercado para rejeitar as discriminações.

Claro que na sua base o mercado pratica uma discriminação essencial. Distingue os compradores pelo seu poder aquisitivo. Muitos são excluídos das transacções aí mesmo. No caso da pobreza essa exclusão primária do capitalismo é naturalmente obscena e muitas vezes criminosa. Mas o vendedor que recuse transacções com alguém por causa da cor da camisa ou da cor da pele está a excluir-se a si mesmo da conversa e da prosperidade. Perderá no mercado do dinheiro e perderá no mercado moral, o que não tem menos consequências a longo prazo.

O capitalismo do shopping center é um capitalismo de aquário. A arquitectura, a segurança, a música ambiente e a temperatura do ar são estudados para serem agradáveis. Agradáveis e propensos ao consumo, pois claro. Mas não esqueçamos o agradável da coisa. Muitos consumidores “passeiam no centro comercial” não porque têm compras a fazer mas pela vontade de participar nessa sociedade artificial, mais calma e mais segura, mais cosmopolita, que o sistema político é incapaz de lhes proporcionar.

Aquilo que não se faz nos centros comerciais é política. O centro comercial é quase tudo a que uma sociedade moderna almeja, excepto cidade. Não é cidade.

Temos temperaturas ideais, mas não cuidados de saúde. Temos entretenimento com dinossauros e até contributos para salvar o planeta, mas não verdadeira educação. Todos os caminhos e cuidados se dirigem ao espaço do comércio. A agora grega sem as arengas e os discursos. Ninguém vota, não fazemos escolhas conjuntas, ninguém nos representa.

Os tempos que chegam confrontam-nos com a escolha entre os passeios anestesiantes do capitalismo de fim-de-semana e a verdadeira construção da cidade através da política. A política: a disputa pública e permanente sobre a verdadeira vida, que nunca será resolvida. Mas que nos anima, no sentido literal de nos 

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