Crise

Crise, cólera e liberdade

Uma das primeiras palavras da literatura europeia, e por isso da história universal, é a palavra “cólera”. No primeiro verso da Ilíada: “A cólera canta, deusa...”. Raiva, fúria, ira, indignação, furor, ódio, vingança, violência, a palavra é uma mesma: cólera. Não se trata de uma doença pontual mas de uma das grandes características que nos torna humanos. O homem, o único animal que “tantas coisas (...)”, é também único na sua determinação para ferir os outros, quando ferido na sua dignidade.

A ofensa ao homem pelo homem é mais antiga e mais poderosa do que a exploração do homem pelo homem. A exploração toma os traços de uma versão simplista, arrivista, “industrial” da cólera mais antiga, a da ofensa, do desprezo, da desconsideração. As mais venerandas teorias da cólera alimentaram o impulso religioso e, mais tarde, o marxismo. A irritação contra o que é percebido como mal mas existe e funciona, contra o que é sólido – e que, por vezes, se dissolve no ar – é o impulso natural dos espoliados e dos ofendidos. O ódio ao que existe, porque existe ou, pior, porque persiste, é parte da caixa de ferramentas moral dos injustiçados. Todas as sociedades e todas as instituições precisam de se haver com os muitos insatisfeitos. Ofendidos, sempre os haverá entre nós.

A capacidade de os fracos e injustiçados da espécie humana se vingarem dos fortes e afortunados está na origem da nossa necessidade de pensar e viver colectivamente. O sentimento de amor-próprio e a capacidade de vingar a injustiça pela força fazem parte do caldo de cultura da democracia. A democracia transformou os indignados em eleitores. Conta-se que os primeiros eleitores suíços votavam na praça pública erguendo a sua espada no ar. O voto de “espada no ar” era a forma mais evidente de exibir a possível raiva de cada um, de qualquer um. Um homem, uma espada, um voto, portanto. A espada deu lugar ao braço no ar, mas durante demasiado tempo reservava-se aos homens o direito de aplacar a cólera pelo voto. O desenvolvimento económico, o debate público e a própria tecnologia permitiram que o género e outras armas mais evidentes deixassem de determinar o acesso à profilaxia política da cólera.

CRISE E CÓLERA

Para Tocqueville, “na América os homens têm as convicções e paixões da democracia; na Europa temos ainda as paixões e convicções da Revolução”. Para Hannah Arendt, esta verdade europeia continuava verdade no século XX. Deixou de o ser. Na Europa de hoje conservámos a capacidade de cólera, mas abandonámos a crença na revolução. A maioria não é movida por um destino final, numa outra vida, nem por um futuro político absoluto e diferente, mais à frente, nesta mesma vida. E, no entanto, estamos zangados.

A crise é de agora e é do último século. Ultrapassámos o mero mal-estar civilizacional. Hoje o mal-estar pode ter-se tornado a forma mais evidente da nossa civilização. Sloterdijk usa a metáfora financeira de um banco de cólera para ilustrar o uso político deste sentimento. O cristianismo ofereceu aos explorados, aos ofendidos, aos ressentidos, a libertação num paraíso de bem-estar fora da terra, inclusivo e igualitário, em quase simetria com a realidade da pobreza e da desigualdade terrenas. A receita: paciência, oferecer a outra face e, claro, o desprezo educado por todos os bens terrenos. Um investimento, portanto. Uma acumulação calma que levaria a retornos extraordinários, pascalianos. Mas era preciso acreditar.

As ideologias de pendor totalitário vieram prometer aos explorados um novo paraíso, mas alteraram o pacote financeiro: aproximaram o paraíso no tempo e no espaço, exigiram acção e apontaram os humanos a quem se devia dirigir o “investimento colérico”. Os ricos, os estrangeiros, ou simplesmente os outros, a definir. O nazismo consumiu-se na imensa fogueira colérica por si mesmo ateada. O milenarismo socialista, ao contrário do religioso, fez a pedagogia da expressão da cólera. Na sua forma política, promoveu a cólera. Pior, organizou-a. Durante algum tempo, a sua força existencial – ou seja, o mero facto de existir – pareceu anunciar uma alternativa à democracia e ao capitalismo “burgueses”. Até que as vítimas e os seus descendentes se cansaram do teatro da espera e exigiram retornos mais rápidos e mais materiais, arrastando o banco de cólera comunista a uma bancarrota inesperadamente veloz.

Sim, a cólera é objecto de poupança, pode ser posta religiosamente de parte, ou investida em movimentos sociais, com consequências públicas. Nos dois casos, a história é um acumular de experiências de injustiça que atingirá o seu clímax quando todos os prazos e toda a paciência se vencerem. Ou isso ou acumulamos paciência até ao fim do mundo. “A eternidade é o asilo do ressentimento.” De religiosa a política, a cólera passa de tesouro a capital. O seu retorno perde a natureza de juro, associado à mera passagem do tempo, e ganha a característica do lucro dependente da iniciativa, do risco, do cálculo político. “Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista! Nela, os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar”, segundo o manifesto do investimento comunista. A bondade original, em mais de um sentido, toma a forma política de um bem-estar final e definitivo, curiosamente intermediado pela violência.

A democracia e os mercados oferecem aos indivíduos uma sucessão contínua de contratos que são ressentidos porque percebidos como incertos e desiguais. O drama aumentou quando o bem-estar dos europeus começou a ser ameaçado por monstros tão “inumanos” quanto a globalização, a competitividade e, também, o envelhecimento. O capitalismo e a democracia são o existente e apenas porque se recusam a desaparecer. A globalização tornou-se uma espécie de guerra civil mundial, difusa e silenciosa. A “paz eterna do consumismo real” e da participação cívica regular no Ocidente são atacadas no seu prestígio no momento exacto em que se universalizam, para o bem e para o mal. A crise veio colocar o nosso paternalismo ocidental em conflito íntimo com a realidade de massas mais pobres e menos cultas que descobrimos magnificamente envolvidas na sua futura prosperidade. A sua, apenas. A prosperidade dos “pobres e estrangeiros” que, tristemente, não arrastará necessariamente a nossa própria prosperidade.

Sentimo-nossúbditos,inanimadosedesanimados. Há um niilismo cansado, uma falta de futuro e, quando a raiva passa, descobrimos que depois de adoptarmos de corpo e alma a abundância, voltámos a chorar. Esquecemo-nos: uma das características do sofrimento é a sua enorme persistência. Sofredores, talvez mais que pobres, “sempre os tereis entre vós”. A fúria é uma das formas fáceis de transformar a persistência do sofrimento em actividade. O espaço público, que nos prometeram transparente, tornou-se invisível. A praça é o lugar onde as multidões descontentes tentam reconquistar a visibilidade, expor o seu significado. O “espaço onde a liberdade aparece e se torna visível a todos”, aliada a uma “embriaguez cujo elemento principal é a multidão”. Acordada, desassossegada, por vezes furiosa, outras vezes espectacularmente afectiva.

CÓLERA, ANTECÂMARA DA VIRTUDE?

Há uma antiga intimidade entre inteligência e ressentimento, facilmente confundidos com virtude. O poder e a abundância raramente recompensam os iluminados. Mesmo nas suas versões domesticadas, quando o poder toma o nome de democracia e a abundância o nome de capitalismo, os virtuosos e os sábios são ultrapassados em reconhecimento público pelos práticos e pelos atentos. Isso não é bom, nem necessariamente mau. Há um prazer sensual – obsceno? – no intelectual resguardado que justifica em texto todas as materializações de cólera de rua contra o que quer que possa ser chamado de “sistema”, sendo ele mesmo incapaz de se levantar e atirar uma pedra – a primeira? Como refere Sloterdijk, a propósito de episódios de vandalismo em França, “[e]les incendeiam carros – e nós brincamos às nossas teorias favoritas”. A empatia de alguns pensadores com a violência revolucionária tem algo de sadismo ou, pelo menos, de prazer suspeito. A cólera é movimento, festa, “vinho da acção”. Os pensadores lançam-se ao pescoço do “burguês” com um vigor que tem tanto de lúdico como de político. Fazem-no desde sempre, desde as suas ”ilhas de abençoado lazer”, na expressão feliz de Sloterdijk. E quando o lazer se democratiza, com a indústria e a tecnologia, passa a ser chamado alienação. Um efeito visível de espelho, de um para o outro lado do espelho. Ao lado dos pensadores encolerizados, o revoltado de rua que apedreja e incendeia, sujeitando-se assim à fúria legal e à cólera da sociedade, emerge com uma postura inesperadamente moral.

Na realidade, a cólera pública, nas sociedades da abundância, tem o benefício de quebrar o tédio e atenuar o mal-estar das multidões solitárias, os “indivíduos excitados e isolados” das metrópoles e subúrbios modernos. A raiva perdeu protagonismo político no Ocidente, a não ser como proposta estética e hábito de pensamento. Emerge pontualmente como um modelo de “comunhão pela destruição” que agrega os descontentamentos e tem a vantagem de ser atraente para os media, que servem a cólera em doses escolhidas, nos jornais da noite, para gáudio – e contra-cólera? – das audiências televisivas extenuadas. A raiva extrema e espontânea alimenta-se de dois vícios inebriantes e universais: por um lado, a sensação de relevância instantânea, reforçada pelos efeitos miméticos e materiais da violência – o incêndio, a ferida, a deformação de coisas “sólidas”; por outro, a cólera nutre-se da ideia de que a violência, magicamente, abre mundos, novas possibilidades – arriscadas mas, quem sabe?, salvíficas. A cólera não quer aprender, quer revelar. Há uma incompatibilidade entre cólera e medida. A retaliação e a vingança dão-se mal com o cálculo e o equilíbrio. Nada disto deixa em algum momento de ser humano. Mas o humano aqui não é elogio, pode até ser desculpa.

CÓLERA, REVOLUÇÃO, E POR VEZES TERROR

“Isto é uma revolução.” Segundo Hannah Arendt a frase foi aplicada pela primeira vez à conversão de Henrique IV de França ao catolicismo. Uma conversão strictu sensu, portanto associando a revolução à ideia de movimento de inspiração superior e inescapável, de inevitabilidade política. A América poliu a palavra revolução. A “busca da felicidade”, da nossa própria felicidade, inclui o direito à desobediência civil, a do americano Thoreau, a quem foram reveladas as possibilidades rústicas do individualismo extremo quando se isolou no lago Walden. Para Thomas Jefferson nada era imutável, a não ser os direitos do homem, entre os quais incluía o direito à rebelião. Mas a revolução americana perdeu o seu prestígio intelectual entre as aristocracias e as elites culturais europeias quando, no século XIX, a América se tornou a terra prometida dos pobres, pobres vindos da Europa, pois claro, e no século XX se tornou fonte primeira da cultura de massas, popular e rasteira, com que se entretêm as classes médias e baixas entretanto agraciadas com o lazer.

A transformação da cólera em terror é, felizmente, uma ocorrência rara em condições atmosféricas normais. Não se trata de acreditar. O problema surge quando um grande número acredita na mesma coisa, da mesma maneira, e tem nas mãos os instrumentos colectivos que possibilitam o martírio dos que não acreditam. O terror necessita de um número razoavelmente grande de pessoas organizadas que crêem num conjunto suficientemente restrito de ideias. Hoje há poucas organizações fora do Estado que sejam capazes da insensatez de organizar a cólera. 

A regularidade da guerra é testemunho das possibilidades humanas para metamorfosear a frustração e a indignação em terror. Nenhuma sociedade humana conseguiu até hoje escapar ao uso da guerra para se tornar vítima ou carrasco. Mas as guerras chegam ao fim. Os corpos e a cólera esgotam-se no tempo. Em tempos de paz, o monopólio da violência por parte do Estado tornou-se o fundamento possível da paz civil. Um Estado que tenha a força mas se afaste da cólera. Idealmente organizamo-nos em torno da violência rara, hiper-regulada, sob a forma de lei. Em tempos de paz, quando a cólera emana do Estado, derrota-o. A independência da maior democracia mundial, a Índia, e os direitos civis da minoria afro-americana na mais antiga democracia, os Estados Unidos, são o resultado da não-violência. Ou seja, da cólera controlada, sublimada. Gandhi e Martin Luther King perceberam que perante um Estado que deixa a violência degenerar em cólera, as vítimas de hoje tornam-se os vencedores amanhã. Gandhi e Luther King tornaram-se uma espécie de santos cívicos, talvez o estatuto mais próximo do sagrado que ainda reúne consensos.

CÓLERA, CAPITALISMO E DEMOCRACIA REPRESENTATIVA

É difícil não reconhecer à democracia representativa e ao capitalismo, as duas personagens mais expostas das sociedades liberais, o seu papel na profilaxia da cólera. A democracia e o capitalismo podem ser acusados de “produzir indiferença”. E sim, em mais que um sentido, democracia e capitalismo constituem-se em ópio do povo. Mas o ópio aqui aplaca o ódio. Trata-se de duas drogas leves, portanto. A luta empresarial e a campanha política trazem o dinheiro e a palavra para o espaço público, adornadas de regras, entre as quais a exclusão da violência dos negócios privados e do desejo de poder.

Os analistas são sempre surpreendidos pela forma como os eleitores sobrevalorizam o passado quando se trata de castigar governantes soberbos ou ineficazes. Mas o passado é uma boa fonte de cólera. O mérito da democracia é prover um instrumento para essa cólera que não faz vítimas físicas. Também a resiliência do capitalismo escandaliza os observadores. Um e outro, democracia e capitalismo, têm a virtude de quebrar os monopólios de produção de cólera, os étnicos, os religiosos e os ideológicos. Em seu lugar entretêm os cidadãos e os consumidores com raivas regulares, reguladas pela escolha. Votamos noutro partido, compramos noutro sítio. A cólera faz o seu caminho pela deposição pública dos poderosos e pela expropriação parcial dos produtores desatentos. São mecanismos abertos. Substituem os juízos do alto pelos movimentos poderosos das massas, sejam elas consumidoras ou eleitoras.

Esse juízo final, no fim dos tempos ou no espaço público, perdeu eficácia social. A religião cedeu espaço ao secular, o que significa abandonar a capacidade de gerar e organizar a cólera. O discurso religioso tornou-se escandaloso para uns e irracional para outros, mas manteve a sua eficácia íntima. A cidade de deus, contraponto da cidade dos homens, saiu do palco do poder no Ocidente. A paciência e a resignação não são virtudes industriais, nem talvez cívicas. Espectacularmente, os pais fundadores da revolução americana, devotos e crentes, associaram o destino da revolução americana a “uma cidade nas colinas”, a “city on the hill”, com virtudes de inclusão e de permanência. “Na colina” significa na Terra, bem entendido, e num lugar não demasiado alto. Desaparecia a eficácia extraterrena e “extra-mortal” dos paraísos religiosos. O futuro cívico, terreno, mas potencialmente eterno, substituía o paraíso.

Várias análises e movimentos políticos surgiram para explicar e canalizar a frustração e a cólera. Mas Marx, Freud, Nietzsche, os auto-es das “teorias barbudas típicas,” na expressão de Sloterdijk, também eles perderam espaço no cânone. “Barbudas” tem aqui o sentido estranhamente masculino de adolescente e imatura: algo entre o individualmente profundo e o socialmente ingénuo. No discurso revolucionário de pensadores do sexo masculino, a cólera e a violência pública foram usadas como metáfora fácil para dores de parto. Várias teorias radicaram-se na ideia de “apocalipses positivos”, revoluções ou mudanças interiores radicais que abriam espaço a novas irmandades e novos confortos, adventos, possibilidades próximas de paraíso. O céu antigo foi substituído pela fé nas virtudes do subterrâneo, como se “lá em baixo, a verdade e o futuro estivessem agachados e prontos a dar o grande salto cá para cima”. Não aconteceu. O paraíso, a possibilidade do paraíso, é um instrumento muito imperfeito para o governo sensato dos homens. A ideia de alcançar um tempo final “permanentemente bom” é fonte de grandes equívocos. As visões iluministas ou, na sua versão perversa, iluminadas, perderam protagonismo. Nem planos visionários, nem grandes saltos em frente (ou para o alto). A natureza humana non facit saltum. 

Qual a relação da democracia e do capitalismo com a virtude? Não a proíbem, em privado, e não pretendem garanti-la, no espaço público. Democracia e capitalismo excluem a virtude como critério único de escolha dos que nos governam ou nos vendem o pão e o circo do dia-a-dia. A história testemunhou o efeito dos que alcançaram o poder escudados na confiança excessiva na sua própria virtude, tentados a construir sociedades virtuosas de cima para baixo, se necessário recorrendo à força. Não correu bem, morreu muita gente. A exigência encolerizada da felicidade não surte bons efeitos. Resta-nos a busca da felicidade e o direito inalienável a essa procura. É certo que os “mais fortes precisam ser muito bem atados”, ou seja, fiscalizados. A democracia precisa da participação e da transparência, o capitalismo de regulação e de concorrência.

ADENDA: CÓLERA À LIBERDADE

A cólera terá redenção? A produtividade moral dos movimentos de cólera é bastante limitada, se nos é permitido falar de produtividade, se nos é permitido falar de moral. As revoluções motivadas pela urgência das necessidades têm efeitos espúrios no bem-estar, quando incapazes de se moderar através de novas instituições. Mais produtivas, talvez, são as revoluções motivadas pelo anseio de liberdade. A cólera é mais eficaz a prenunciar a liberdade do que a garantir a prosperidade e o conforto. A cólera individual ou, pelo menos, desorganizada é um dos recursos da liberdade. Indigno-me, logo existo, é verdade em mais do que um sentido. A cólera organizada, colectiva, violenta, é uma brincadeira com o fogo. As consequências são imprevisíveis. Essas mobilizações excessivas e violentas ajudam a diagnosticar a doença social, mas não fazem parte da convalescença.

As visões de paisagens finais com paraíso perderam a sua mágica milenar. As grandes narrativas evidentes cansaram-se, retiraram-se da história e talvez até da moral. Bem ou mal – às vezes, mal – as multidões que ultrapassaram a fome e as necessidades básicas vivem para o hoje e o agora, distraídas e divididas entre o entretenimento e o conforto, numa busca por mais tempo livre e forma de o ocupar. Neste dia-a-dia dos entediados e dos entretidos, a humilhação pelo real perdeu terreno. Dilui-se na lassidão das horas de lazer virtual perante uma multidão de ecrãs apropriadamente disseminados. O instinto da apropriação metamorfoseou-se, nas sociedades democráticas e prósperas, nas virtudes calmas da prodigalidade e do entretenimento.

Seja na necessidade ou na crise, a cólera reaparece como um dos actores sombrios da luta pela dignidade humana. Por vezes resulta, e obtemos mais dignidade. Sem esses acrescentos de dignidade, raramente se consegue sonhar e construir novas cidades na colina.

Temos diante de nós uma escolha entre a distracção permanente e a vida verdadeira. É preciso aprofundar instituições que nos permitem um futuro, imperfeito, mas que se sobreponha a todos os paraísos: os artificiais, os novos e os virtuais. A resposta à cólera não se pode limitar a uma soma de anestesias privadas. Tem que incluir um impulso colectivo para partilhar as alegrias inesperadas no futuro. Afinal, a história mostra-nos que o futuro foi sempre um substituto bastante razoável para o paraíso.

 

A revolução? Vamos dizer-lhe que “sim”, muito bem, e ao sábado, vamos dizer-lhe que “não”?

ISAAC BABEL
Ler do início