10 Tendências que mudaram a cidade

Um guia para redescobrir Lisboa e o Porto

O pior ainda não chegou. Está anunciado para 2012. Mas os hábitos dos portugueses já começaram a mudar. A pouco e pouco, porventura ainda evitando as escolhas mais difíceis. Come-se menos carne de vaca – mas ainda se come carne, de porco e de aves. Anda-se menos de automóvel – mas ainda não se dispensou a viatura própria. Com o maior desemprego de que há registo, com a maior dívida dos últimos cem anos, depois de dois exercícios orçamentais (2009 e 2010) com os maiores défices em tempo de paz, a crise e a poupança forçada toca a todos. Aqui fica o retrato possível.

MERCADOS

Campo de Ourique / Ribeira / Matosinhos / Bom Sucesso / 31 de Janeiro / Forno do Tijolo

Em 2014, Portugal regressou aos mercados, e isto tanto se aplica à vida financeira do país como aos hábitos das suas duas maiores cidades.
À semelhança do que já acontecia em Madrid, nos fervilhantes mercados de San Miguel e San Antón, Lisboa revitalizou dois importantes espaços da cidade, levando o comércio tradicional de frescos a conviver com novos negócios de comida e bebida.
No Mercado de Campo de Ourique, a fruta e o peixe têm agora a companhia de várias bancas de restauração, enquanto no Mercado da Ribeira a nova vida inclui não só comida mas também lojas e uma sala de espectáculos.
A norte, o sushi que se prepara actualmente no Mercado de Matosinhos não podia ser mais fresco: mesmo ao lado das peixeiras, que providenciam a matéria-prima, é um exemplo dos negócios mais modernos que estão a transformar o espaço, tal como já aconteceu com o Mercado do Bom Sucesso, que inclui até um hotel.
Durante muito tempo votados ao abandono, os Mercados de Lisboa foram entregues à gestão das respectivas juntas de freguesia e por isso são de esperar várias alterações no futuro.
Em plena remodelação está já o Mercado 31 de Janeiro, no Saldanha, para dar lugar a uma oferta multicultural no primeiro piso, e o Mercado do Forno do Tijolo, transformado em espaço de cowork.

HAMBURGUERIAS

To.B / Real Hamburgaria Portuguesa

Como na história da lebre e da tartaruga, quem ganha é quem anda mais devagar. Neste caso, foram as hamburguerias que conquistaram o primeiro lugar de grande moda gastronómica do último ano ao trocar as voltas ao conceito de fast food e provar que há muito mais ciência em vender hambúrgueres do que entalar uma rodela de carne picada entre duas fatias de pão.
Servidos em bolo do caco ou pães rústicos, com carne nacional, queijo da serra, chutneys balsâmicos e opções vegetarianas ou de peixe, os hambúrgueres passam agora a apregoar uma qualidade dos cestos – artesanais – e a ser o prato forte das dezenas de Hamburguerias que não param de abrir em Lisboa e no Porto.
Algumas moradas para tirar as teimas? Real Hamburgueria Portuguesa (Rua da Torrinha, 134, Porto) e To.B (Rua Capelo, 134, Lisboa), onde até a célebre deixa de Shakespeare foi transformada num mantra dos tempos modernos: “To burger or not to burger”.

COPOS

Quiosques da Avenida / Candelabro / Champanheria da Baixa, Aduela

Se de Espanha não vem bom vento nem bom casamento, de Espanha também não vem só o botellón, vem o copo ao fim do dia.
Lentamente, este hábito tem vindo a impor-se como a melhor terapia para depois do trabalho, ajudado pela abertura de espaços estrategicamente colocados em centros empresariais, como os Quiosques da Avenida da Liberdade, em Lisboa.
No Porto, o Largo do Candelabro e da Champanheria da Baixa começa a encher-se a partir das sete e, logo ali ao lado, o Aduela (Rua das Oliveiras, 36) é um dos que já abriram espaço na carta para a próxima tendência na área: a cerveja artesanal.

ESPAÇOS ANTIGOS

Embaixada / Cinema Ideal / Galerias Lumiére / Hospital do Desterro

Antigamente é que era, mas agora é que vai ser. Podia ser uma luta entre saudosistas e empreendedores, mas é um dos lemas que melhor resume o que tem acontecido ao edifícios de duas cidades cheias de história como Lisboa e o Porto. Espaços antigos ao abandono ou desvirtuados são agora recuperados com novas funções e devolvidos aos habitantes com projectos vivos em paredes às vezes centenárias.
Veja-se o exemplo da Embaixada, que se instalou no Palácio Ribeiro da Cunha, no Príncipe Real: apesar do nome, está aberta aos curiosos e é um espaço comercial com lojas originais debaixo de tectos altos trabalhados, um restaurante no pátio interior e outro no jardim. Não muito longe, o Cinema Ideal (Rua do Loreto, 15-17), inaugurado em 1904 e reaberto na rentrée de 2014 depois de um passado literalmente pornográfico, pode agora orgulhar- se de ser o único cinema de bairro com programação regular e dedicado a filmes portugueses e independentes. Ex-cinema, mas também ex-centro comercial decrépito, as Galerias Lumière, em plena Baixa portuense, estão agora reabertas e em processo de renovação pelas mãos da mesma designer que organiza o mercado Porto Belo.
Em breve segue-se o antigo Hospital do Desterro, em Lisboa, que será transformado pela Mainside, a mesma empresa que criou a LX Factory, num espaço de eventos culturais com residências de artistas, galeria de arte, restaurantes e até uma horta pedagógica. A cura para a doença que é a degradação do património pode ser mesmo esta: mudar o conceito, manter a fachada.

CORRIDAS E BICICLETAS

Secret Run / Correr Lisboa / Pro Runner / Nike Chiado / Jornal O Pedal / Vélocité Café / Urban Cicle Café

De dia, de noite, sozinho ou acompanhado. Correr na cidade tornou-se um hábito social, de tal forma que já há vários grupos organizados só para não ter os headphones como única companhia. Correr Lisboa é um dos mais populares, uma comunidade em que se combinam treinos e que deu origem à Secret Run, uma corrida secreta, com enigmas para resolver e que acontece de noite. Atentas à tendência, lojas especializadas como a Pro Runner ou a Nike Chiado organizam também clubes para garantir que os ténis comprados têm uso, e as aplicações nos telemóveis tratam de partilhar, em tempo real, os quilómetros percorridos. As passadeiras rolantes saem dos ginásios, mas também as bicicletas, que têm vindo a conquistar mais do que as ciclovias ou a estrada. Para além de um jornal especializado (O Pedal), a moda das duas rodas chegou às lojas e aos cafés, com espaços como o Vélocité, em Lisboa, e o Urban Cicle Café, no Porto, onde se pode comer uma fatia de bolo no meio de guiadores e selins.

ARTE URBANA

Projecto Crono / Galeria Underdogs / Vhils / Festival Push Porto / RU+A

De vandalismo a expressão artística celebrada em festivais, a street art cresceu tanto que já não falamos apenas da mera tag (assinatura feita à pressa) mas em empenas de vários andares. As obras ilegais e de intervenção continuam a fazer parte do movimento, mas são as grandes peças autorizadas em prédios inteiros e com uma linguagem mais próxima da ilustração que se tornam cada vez mais conhecidas.
Primeiro, com o projecto Crono, que levou a lisboeta Avenida Fontes Pereira de Melo a aparecer no jornal The Guardian, e, depois, com a Galeria Underdogs, o artista Vhils colocou Lisboa na rota dos grandes nomes internacionais.
Actualmente, a cidade é das poucas a contar com um gabinete dedicado à arte urbana dentro da própria Câmara Municipal, responsável, por exemplo, por abrir um concurso para pintar os vidrões. Mais recente, o Festival Push Porto estreou-se, em Setembro de 2014, mostrando murais a serem feitos ao vivo, um ano depois de o RU+A ter transformado a zona de Cedofeita numa galeria ao ar livre.

AR LIVRE

Parque da Cidade / Ribeira das Naus

Os lisboetas e portuenses descobriram a natureza no meio do cimento e estão cada vez mais a tirar partido disso. O investimento feito em estruturas como o Parque da Cidade, no Porto, e a inauguração de novas zonas ribeirinhas, como a Ribeira das Naus, em Lisboa, ajudaram a reforçar a tendência, mas é também a programação ao ar livre, cada vez mais variada, e a moda dos piqueniques, cada vez mais forte, que explicam as autênticas enchentes nos jardins aos fins-de-semana. Um fenómeno que deverá crescer, como a sombra das árvores.

COMÉRCIO TRADICIONAL

Peixaria Centenária / Loja das Conservas / Barbearia Campos / Figaro’s / Ayres

O que podiam ser negócios em vias de extinção são agora negócios em remodelação. Ofícios antigos dinamizados por gente nova, que traz também um novo cuidado com o design e novas estratégias de funcionamento. O melhor exemplo desta tradição 2.0 é a Peixaria Centenária (Praça da Flores, 55, Lisboa), onde a arte de vender peixe foi transformada por dois designers e um artista plástico num negócio quase sexy, com pregões escritos nas paredes – “encomendai meus amores” – a fazerem companhia a dicas coloridas sobre como cozinhar peixe penduradas em ganchos e para levar para casa. Na mesma área, mas sem espinhas, a Loja das Conservas (Rua do Arsenal, 130, Lisboa) foi montada pela Associação Nacional dos Industriais das Conservas de Peixe para juntar quase todas as variedades feitas a nível nacional e mostrar como esta indústria histórica se modernizou. Noutros pontos de Lisboa, muitas barbearias mantêm as cadeiras de séculos passados mas vêem jovens barbeiros de braços tatuados pegarem nas tesouras e chamarem novos clientes. É o caso da centenária Barbearia Campos (Largo do Chiado, 4) ou de outras barbearias abertas de raiz, como a Figaro’s (Rua do Alecrim, 39). E se a barba pode ser feita à navalha, como antigamente, também os fatos podem passar por um alfaiate dos tempos modernos: depois de deixar os portuenses mais bem vestidos, aos 32 anos, Ayres abriu o seu primeiro ateliê na capital (Rua Rodrigues Sampaio, 19, 4o B), onde o cinzento não cabe nem nas paredes, pintadas de azul forte, nem nos tecidos, atentos às novas tendências.

WI-FI GRATUITO

Metro / Restaurantes / Cafés / Jardins

No final de 2013, quatro estações do Metro de Lisboa passaram a ter internet gratuita, seguindo-se em 2014 a restante rede. Foi o culminar de um crescimento que é transversal à cidade, por cima e por baixo de terra, e que actualmente inclui não só os transportes públicos mas os hotéis, cafés e até jardins, como os da Fundação Calouste Gulbenkian. Para prevenir o segundo pedido mais habitual a seguir ao copo de água, os restaurantes passaram também a incluir as passwords do wi-fi nas suas ementas.

STREET FOOD

Lisboa sobre Rodas / Yonest / Chippers / Shika / Bolas da Praia / Sou Sweet / Tell a Story / Lisbon Lovers

Tendência forte nas cidades norte-americanas – por alguma razão se pensa em carrinhos de cachorros-quentes quando se pensa em Nova Iorque... –, em 2014 a street food chegou com a frota completa, automóvel e não só. Lisboa sobre rodas foi o projecto que uniu a Câmara Municipal de Lisboa a cinco conceitos diferentes, de hambúrgueres a comida de autor, com cinco carrinhas de venda ambulante que andam por vários pontos da cidade e ao fim-de-semana estacionam no cimo do Parque Eduardo VII com esplanadas montadas. Antes disso, no final de 2013, já a comida de rua começava a ser representada pelo Yonest, que vende iogurtes gregos numa Piaggio verde, e o Chippers, um quiosque de batatas fritas com molhos variados, também estacionado no Saldanha. Puxados a bicicleta ou mota, outros carrinhos mais pequenos surgiram entretanto pela cidade, a vender focaccias, crepes, cocktails e limonadas. O mesmo tem acontecido no Porto, onde o Mercado da Rua da Lionesa concentra vários conceitos que vendem desde sushi (shika) a bolas de Berlim (Bolas da Praia), passando por gelados artesanais (Sou Sweet), com liberdade para circularem por outros pontos da invicta. Esta é uma vantagem deste tipo de negócios, já a estender-se para além da comida: basta dar à ignição e vão onde quiserem, seja com livros portugueses traduzidos em inglês, como faz a carrinha pão de forma da Tell a Story, seja com outros souvenirs para turistas, na loja móvel da Lisbon Lovers.

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