Igualdade? Depende

Quando pensamos em génios como Albert Einstein, sabemos que não podemos (nem queremos)ser todos iguais. Ao contrário de outros valores fundamentais, a igualdade vem sempre com um “mas” atrás. A cada nova esquina, tropeçamos na palavra “depende”.

Isso acontece até no mais inesperado dos grupos, como mostrou a socióloga Katharina Hecht num estudo que acaba de publicar pelo International Inequalities Institute, da London School of Economics. Interessada em analisar como a elite financeira de Londres encara a exorbitância dos seus salários e a distribuição da riqueza no mundo, entrevistou 30 britânicos com rendimentos mensais próximos dos 100 mil euros e descobriu que muitos se sentem em “desvantagem relativa”.

Como? Sempre que se comparam com quem ganha milhões por mês. Para esta minoria de ricos, haveria igualdade se eles, tal como os super-ricos, tivessem muitos milhões, não apenas alguns.

Esta é uma batalha perdida – e dizer isto não é conformismo pessimista. É reconhecer que lutar pela igualdade absoluta é uma causa infrutífera.
Independentemente do degrau onde estamos, quando olhamos para o degrau acima (e há sempre um), constatamos que a nossa posição é mais frágil ou mais pobre.

Provocador, Harry G. Frankfurt defende mesmo (em Sobre a Desigualdade, Gradiva) que estamos moralmente obrigados a eliminar a pobreza, mas não a alcançar a igualdade. O objectivo deve ser garantir que todos têm dinheiro para ter uma vida decente – não acabar com a desigualdade, diz este professor de Filosofia da Universidade de Princeton.

A ideia não é levar a proposta de Frankfurt à letra. Sabemos que os pensadores antigos consideravam a igualdade uma ideia ridícula e até perigosa, mas também que o “bizarro se tornou ortodoxo”, como escreve, a abrir esta edição da XXI – Ter Opinião, o historiador australiano Jack Turner. Ou seja, que desde que a estranha ideia da igualdade nasceu, houve progressos extraordinários porque, justamente, muitos lutaram por ela. Queremos sempre igualdade? Depende. Walter Scheidel, que aqui entrevistamos, avisa que só nas grandes tragédias – guerras, catástrofes naturais e pandemias – conseguimos ganhos significativos nos níveis de igualdade. Quando pensamos na incessante busca da imortalidade, sabemos que no momento em que vivermos para sempre já passámos à categoria de pós-humanos, num mundo sem raça, sem género e sem diferença, mas também sem identidade, nem alegria.

Para já, cada um de nós continua a ser um acontecimento irrepetível, e a ciência, lembra o biólogo Nuno Ferrand de Almeida, diz-nos que a diversidade é o motor da evolução, sem ela seríamos mais vulneráveis.

Em que ficamos? Com pelo menos quatro grandes convicções. 1. Quando falamos de igualdade, é melhor decidirmos primeiro sobre o que vamos falar. 2. A desigualdade prejudica o funcionamento das regras de competição democrática. 3. Em vez de “quotas”, devíamos falar em “paridade”. 4. É possível – e mais fácil do que parece – fazer correcções significativas na desigualdade contemporânea.

Podemos ir ao deserto indiano de Ladakh procurar soluções, mas basta visitar uma escola rural da Madeira.

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