Líder dos sectores de retalho alimentar e da indústria de bens de grande consumo em Portugal (neste caso, em joint-venture com a Unilever), o Grupo Jerónimo Martins ocupa a oitava posição em termos de capitalização bolsista na Euronext Lisboa e emprega mais de 50 mil colaboradores, metade dos quais no estrangeiro. Desde Fevereiro de 1996, a presidência do grupo é assegurada por Elísio Alexandre Soares dos Santos (mais conhecido como Alexandre Soares dos Santos); a área financeira está actualmente a cargo de Luís Maria Viana Palha da Silva. Pedro Manuel Soares dos Santos e José Manuel Soares dos Santos dirigem, respectivamente, as operações de Distribuição Alimentar e de Indústria e Serviços de Marketing, Representações e Restauração. A fundação recém-criada pela Sociedade Francisco Manuel dos Santos presta homenagem ao homem que, ao tornar-se proprietário de uma provecta mercearia, deu início ao empreendimento: Francisco Manuel dos Santos.
O nome de Jerónimo Martins tinha uma longa história na praça alfacinha aquando da transacção de 1921. De “tenda”, fundada em 1792 por um galego no centro da cidade, fora promovida a mercearia e transferida da Rua Ivens para a Rua Garrett – uma das artérias mais elegantes da capital. Comercializava requintadas marcas nacionais e estrangeiras, incluindo o azeite produzido pelo historiador e político Alexandre Herculano no seu exílio de Vale de Lobos. Com uma clientela de estrato social elevado, recebera de D. Fernando, regente e viúvo de D. Maria II, o selo de fornecedor da Casa Real (distinção óbvia na fachada do estabelecimento, destruída pelo incêndio do Chiado).
Até à morte do fundador, a casa prosperou solidamente; os primeiros apuros financeiros, no final do século XIX, ter-se-iam ficado a dever às indulgências dos herdeiros e, concretamente, às dívidas de jogo acumuladas por um dos filhos de Jerónimo Martins. O leilão de uma parte significativa das posses familiares e a delineação e execução de um esquema de pagamento progressivo aos credores, suportado pela boa reputação de que gozava João António Martins, permitiram a ultrapassagem da crise (tendo este falecido sem deixar descendentes, os antigos empregados mantêm a designação original do estabelecimento). O mesmo não viria a suceder em 1918, altura em que as nefastas consequências económicas da guerra parecem ter-se somado à inexistência de sucessores empenhados na gestão do negócio.
Decorridos três anos, este passa para as mãos de Francisco Manuel dos Santos e dos seus parceiros nos nortenhos Grandes Armazéns Reunidos: Elísio Pereira do Vale e Domingos Gomes. Com o apoio do Banco Borges & Irmão, é criada uma cadeia de lojas de retalho, dinamizada a armazenagem e suprimidas as actividades relacionadas com produtos não alimentares. Calmamente, os Estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho recobram a segurança financeira, tornando-se ademais na primeira empresa do país a pagar o 13.º mês de salário aos seus operários, para os quais é construída uma cantina na sede do Chiado.
Em meados da década de 1930, dá-se a expansão para a indústria, traduzida no investimento numa fábrica de margarina, produto escasso e necessário. A Fima (Fábrica Imperial de Margarinas, Lda.) é constituída em sociedade com Silva Torrado, embora a laboração em Sacavém só tenha sido inaugurada em 1944, uma vez que o conflito mundial impediu a chegada do equipamento; arde totalmente pouco depois. A sobrevivência da firma dever-se-á à Unilever, cujas marcas a Jerónimo Martins vendia desde 1926, forçada pela política do condicionamento industrial do Estado Novo a acoplar-se a um agente nativo para se estabelecer em Portugal. Tendo tomado a participação de Silva Torrado, 60 % da partilha da Fima cabe à Jerónimo Martins; o balanço é reposto pela formação da Lever, na qual a Unilever detém uma participação equivalente, e que trata em produtos de limpeza e higiene pessoal. No decénio de 1970, a Olá (gelados) e a Iglo (produtos congelados) serão também incluídas na joint-venture.
A morte de Francisco Manuel dos Santos, em 1953, promove a organização dos legatários Soares dos Santos numa sociedade civil, ao passo que os Vales se instituem numa sociedade imobiliária. Até ao 25 de Abril de 1974, o crescimento da Jerónimo Martins é garantido pela opção industrial, que assinala uma segunda etapa (após a fase inaugural de retalhista e armazenista) na sua extensa crónica. Orienta-se então predominantemente para as colónias, sobretudo para Luanda , mau grado o recuo gradual, a partir de 1970, da aposta angolana, explicado pelos inconvenientes dos pagamentos atrasados. Apesar de contactados os movimentos revolucionários e as autoridades portuguesas nas vésperas da proclamação da independência, os seus bens africanos são todavia ocupados e desmantelados.
Em Lisboa, a empresa sobrevive incólume ao fervor revolucionário, tendo os dirigentes permanecido no país (algo que não se verificaria noutras situações). Aos funcionários retornados de Angola são atribuídos paulatinamente novos postos, enquanto as estruturas são salvaguardadas e permanecem ilesas. Tal consente à Jerónimo Martins o reforço da sua postura face à Unilever, dedicando-se à distribuição como contrabalanço da produção da multinacional anglo-holandesa. Em 1980, é aberto ao público um primeiro supermercado; de uma parceria com o segundo maior retalhista belga, Delhaize “Le Lyon”, desenvolver-se-á a vasta rede de grandes superfícies Pingo Doce, já no enquadramento do Mercado Comum; em 1992, a Jerónimo Martins tomará a quota estrangeira do negócio. O Pingo Doce online surge em 1999.
A passagem de 1980 para 1990 é dominada pela multiplicação das lojas do grupo, com a aquisição de 15 supermercados Pão de Açúcar à brasileira Supa; do Recheio, empresa de cash-and-carry; de 53 supermercados Inô, 3 hipermercados Feira Nova e 8 cash-and-carries (em parceria com a holandesa Royal Ahold, uma das maiores empresas no mundo de retalho alimentar); de 45 lojas das Cadeias Invictas e Mordomos, bem como do Centro de Distribuição de Loures; de 46 lojas Modelo; e da madeirense Lidosol. Na área de grosso, a compra do hipercash Arminho, de Braga, impulsiona a joint-venture com a Booker Plc, à cabeça do sector no Reino Unido. Nasce a HUSSEL, especializada em bonbonneries, em joint-venture com a alemã Douglas AG. Na vertente industrial, a conquista pela Fima do azeite GALLO, de Vítor Guedes, e da Sá & Brás, produtora do azeite Condestável, concedem-lhe uma posição importante no ramo. No conjunto, esta política permite o enraizamento definitivo no território continental e ilhas.
Criada a Jerónimo Martins Distribuição, esta assume a representação e comercialização de insígnias como a Kellog’s, a Idal/Heinz, a Rowntree/Perugina, a Calvin Klein e a Bahlsen. Entretanto transformada em holding, com a designação social de Estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho – Administração e Participações Financeiras, em 1985, a empresa fica sob o domínio da família de Francisco Manuel dos Santos em 1989, por intermédio da cedência das últimas participações dos herdeiros Vale, parcialmente financiada pela entrada em Bolsa através de uma oferta pública de venda.
Em 1995, o grupo alarga as suas actividades à Polónia, inicialmente numa acção mista com a Booker lançada pela aquisição de uma rede de cash-and-carries; dois anos volvidos, o mercado polaco é afiançado pela compra da Biedronka. Cinquenta e sete lojas de discount TIP, anteriormente pertença do Grupo Metro, consolidam o estatuto da Jerónimo Martins no país. No plano da indústria, a Fima Lever estreia-se na padaria e limpeza industrial, tornando-se proprietária da Panduave e da Diversey Portugal. Outras decisões tomadas na segunda metade do decénio de 1990 não conhecem igual sucesso, criando sérias dificuldades financeiras. A tentativa de penetração no não alimentar, representada pela aquisição da inglesa Lillywhites (artigos de desporto), fracassa. As operações no Brasil, de entre as quais sobressaem as compras dos paulistas Supermercados Sé e Santo António, geram resultados significativamente negativos. São vendidos em 2002, assim como a casa londrina. Nos meses precedentes, foram alienadas a Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas, a participação no Expresso Atlântico e a Oniway, com as quais o grupo se comprometera em 1996; o Eurocash será comprado numa acção de management buy out.
O reposicionamento insiste na Polónia, onde o grupo detinha, no final de 2009, 1466 lojas, geradoras de mais de 3,5 mil milhões de euros de facturação, e 24 estabelecimentos fundados após um acordo com a Associação Nacional de Farmácias. Em Portugal, a Bestfoods Portugal – Produtos Alimentares SA é integrada na Fima em 2005, à qual concede a representação de nomes de sucesso como a Knorr, a Maizena e a Alsa. A Iglo é colocada no mercado e dá-se uma fusão da qual surge a integrada Unilever Jerónimo Martins. Pouco mais tarde, o Pingo Doce e o Recheio tornam-se as primeiras companhias no mundo, a operar em distribuição, a certificar a actividade de desenvolvimento e acompanhamento de marca própria.
No campo da responsabilidade social, o Grupo Jerónimo Martins está envolvido em várias iniciativas, de entre as quais se destacam o combate à desnutrição infantil na Polónia, e associado desde 2007 ao projecto “Aprender e Evoluir”, com o objectivo de dar formação e diplomas a 11 500 colaboradores em Portugal.