
Em 1792, um imigrante galego abre no centro de Lisboa uma modesta casa de comércio de víveres. A boa reputação que depressa alcança garante-lhe parceiros e clientes de renome e o selo de fornecedor da Casa Real. Mais de um século volvido, os descendentes e colaboradores de Jerónimo Martins manter-se-ão à frente dos destinos da mercearia do Chiado; a decisão de venda resulta das atribulações financeiras exacerbadas pela primeira guerra mundial, provavelmente conjugadas com uma crise de sucessão. Francisco Manuel dos Santos é um dos três sócios que adquirem, em 1921 a Jerónimo Martins, inaugurando assim a dinastia que ainda hoje controla a empresa. O papel fundamental que desempenha nos anais do grupo explica o tributo que lhe é prestado no acto da criação da fundação homónima.
Francisco Manuel dos Santos partilha das origens humildes e nortenhas de Jerónimo Martins. Nascido em 1867 no Safurdão, a 23 km da Guarda, há indícios que apontam para uma situação familiar relativamente desafogada. A frequência da escola primária – que o obrigava a percorrer diariamente, a pé, metade da distância até à capital de distrito – sugere a pertença a um agregado de classe média, dado que eram ainda raros, sobretudo no interior do país, aqueles que beneficiavam do ensino básico. Dotado de noções limitadas de leitura, escrita e aritmética, Francisco Manuel dos Santos é, porém forçado, pelo deteriorar das economias paternas, a abandonar a aldeia natal; tinha 10 anos, e não mais gozaria de uma educação formal.
Respondendo ao apelo de um merceeiro em busca de um rapaz que soubesse ler, escrever e fazer contas, Francisco Manuel dos Santos é enviado para o Porto. A cidade atravessava então o seu período de crescimento mais pronunciado da época moderna, e o jovem não deixaria de aproveitar as oportunidades que tal facto acarretava. Abandonado o posto de ajudante de mercearia, estabelece-se por conta própria no mesmo ramo de negócio. Bem sucedido, faz fortuna e desenvolve uma rede de úteis contactos profissionais, tendo travado conhecimento com Elísio Pereira do Vale.
Juntos criam, em 1920 e com Domingos Gomes, os Grandes Armazéns Reunidos, com sede na Invicta. No ano seguinte, a sociedade responde à colocação no mercado da Jerónimo Martins; uma porção substancial do lucro da antiga “tenda” provinha já na altura da sua actividade de armazenista. A reestruturação dos designados Estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho é assegurada por um empréstimo do Banco Borges & Irmão, que aceita o “trabalho e honradez” de Francisco Manuel dos Santos como garantia (tendo Domingos Gomes abdicado de quaisquer encargos administrativos, estes eram partilhados apenas com Elísio Pereira do Vale). Eliminando a transacção e armazenagem de produtos não alimentares – uma deliberação curiosa, à luz das fracassadas tentativas posteriores de penetração neste domínio – e multiplicando as lojas de retalho, a estratégia adoptada propicia uma recuperação lenta mas constante.
Pai de uma prole numerosa, Francisco Manuel dos Santos regozija-se com o casamento da sua filha Maria da Conceição – responsável pelas tarefas caseiras desaconselhadas à mãe por uma saúde débil, e por essa razão especialmente querida – com um seu primo direito, Elísio Alexandre dos Santos. Jovem promissor, é-lhe oferecido um posto de gerência, que aceita oficialmente em 1935. O patriarca da família Santos morre em 1953, no término de uma etapa marcada pela escassez provocada pela guerra e pela expansão industrial da empresa, deixando o futuro da Jerónimo Martins efectivamente nas mãos do seu genro e sobrinho.
Dos sete filhos de Francisco Manuel dos Santos (Fernando, Francisco, Maria da Conceição, Helena, Alzira, Vasco e Artur), somente ao segundo mais velho era admitido o privilégio de acompanhante em viagens de negócios, mantendo-se os restantes algo à margem das lides empresariais. Contudo, os diferentes temperamentos dos dois homens impediram uma aproximação propiciadora de uma eventual transmissão directa da liderança. Por outro lado, Elísio Alexandre dos Santos dera provas de manifesto profissionalismo ao longo de uma década de experiência, desfrutando total confiança da família. Neste contexto, é com o beneplácito dos proprietários que assume a gestão da Jerónimo Martins, ainda com o estatuto de mero empregado da casa – só mais tarde surgirá no esquema de partilha dos Estabelecimentos a quota de 1,8 % que lhe é atribuída, uma percentagem crucial dado que em caso de impasse bastava para conceder a maioria tanto aos Vales como aos Santos.
Tendo nascido no Porto, em 1907, desconhecem-se os motivos que levaram o adolescente Elísio Alexandre dos Santos a partir para Angola. Sabe-se apenas que trabalha em Luanda até que o agravamento de uma doença do pai o traz de volta a Portugal. A estreiteza do orçamento doméstico está por detrás da opção de abdicar de uma instrução superior a fim de ajudar o irmão Mário a diplomar-se em Medicina; em alternativa, frequenta o Curso Comercial Completo da Escola Académica do Porto. No início dos anos 1930, contrai matrimónio, e em 1935 muda-se para a capital para assistir na direcção do negócio da família. Goza de uma excelente relação com Francisco Manuel dos Santos, que respeita a sua competência e demonstra um carinho particular, de entre os seus catorze netos, pelo pequeno Elísio Alexandre (conhecido simplesmente por Alexandre).
Imediatamente após a sua estreia na empresa, é determinado o propósito de investir numa fábrica de margarinas. É constituída a Fima (Fábrica Imperial de Margarinas, Lda.), em sociedade com Silva Torrado; a fábrica em Sacavém permanecerá parada, no entanto, até ao desfecho do conflito mundial, quando é finalmente apetrechada com o equipamento requerido. Um incêndio devastador, pouco mais tarde, põe um ponto final num percurso atribulado desde o início. Entretanto, a Unilever procura um parceiro para operar em Portugal que lhe permita ultrapassar os obstáculos resultantes da política do condicionamento industrial, e contacta a Fima. Assinado o acordo, Silva Torrado anuncia a breve trecho o desejo de vender a sua quota, que avalia em 10 mil contos. Constrangido pelo protocolo de uma grande multinacional, o representante da Unilever hesita; Elísio Alexandre dos Santos, não. Quando Francisco Manuel dos Santos é informado do ocorrido, que lhe concede porém o predomínio na Fima face à Unilever, questiona seriamente a sensatez do negócio, preocupado com o montante em causa; um empréstimo do Banco Lisboa & Açores encerra a discussão.
A expansão industrial desencadeada pela Fima acentua-se ao longo dos decénios subsequentes: a Lever (produtos de limpeza), a Favorita (gelados) e a Iglo (congelados) integrar-se-ão também na joint-venture que une a Unilever à Jerónimo Martins. Todavia, em meados de 1960, este debate-se com um grave problema de envelhecimento dos quadros, cuja maioria fora recrutada por Francisco Manuel dos Santos durante a juventude, sob promessa de conclusão dos estudos. O panorama internacional alterara-se significativamente com a criação das Comunidades Europeias e da EFTA, e o anunciar da era digital exigia um conjunto de colaboradores dinâmicos e abertos às novas tecnologias. Cansado – viria a morrer no Brasil, em 1967, onde visitava o filho –, Alexandre Soares dos Santos sugere-lhe que regresse ao país e conduza a Jerónimo Martins. Este declina e aconselha a venda da empresa, pela qual a Unilever afirma estar disponível para oferecer 400 mil contos, uma quantia substancial.
As duas decisões fulcrais tomadas por Elísio Alexandre dos Santos na história da Jerónimo Martins foram, assim, uma de compra e outra de venda; se a primeira marcou a passagem do ciclo do retalho e armazenagem para a fase industrial, a segunda viria a favorecer, de forma imprevisível e enviesada, o nascimento de um gigante da distribuição. De facto, conhecidos os termos propostos pela Unilever, a sua reconfiguração aquando da morte de Elísio Alexandre dos Santos é malvista pela família, que recusa um acordo e aposta na vinda de Alexandre Soares dos Santos para Portugal com o objectivo de revitalizar a Jerónimo Martins.
Em criança, o contacto deste com a Jerónimo Martins fora muito limitado. O avô materno apreciava a sua companhia, e o pai levava-o aos domingos para o trabalho, com uma paragem pelo caminho na Pastelaria Bijou; estes relacionamentos não se baseavam, porém, no acalento da imagem de um futuro sucessor. O verdadeiro sonho que Elísio Alexandre dos Santos alimentava era o de ver o filho formar-se em Direito, o que explica a prolongada tensão causada pelo abandono do curso por Alexandre Soares dos Santos, já no terceiro ano curricular.
Em 1957, este viaja para a Alemanha como management trainee na Unilever. Seguir-se-ão estadas na Irlanda, em França e no Brasil, onde se fixa em 1964. À época, os colaboradores da multinacional destacados para países categorizados como do Terceiro Mundo tinham direito a dois meses de férias bienalmente. Foi durante essa pausa que, em Lisboa e reatada a amizade entre pai e filho, ambos discutiram pela primeira vez a questão da liderança da Jerónimo Martins.
Antecipando as dificuldades que um eventual retorno implicaria, agravadas por um inevitável choque de mentalidades, Alexandre Soares dos Santos sentia-se renitente em ligar-se a um projecto que via mal preparado para sobreviver às turbulências modernas. Após o desaparecimento de Elísio Alexandre dos Santos, teve um carácter decisivo a intervenção amigável do então vice-presidente da Unilever (que seguira de perto e desde o início a sua carreira internacional) em prol do retorno. Explicitada e concedida a exigência de lhe serem reconhecidos plenos poderes de administração, Alexandre Soares dos Santos ingressa finalmente no negócio familiar.
Os desafios que marcaram a fase inicial da sua liderança prenderam-se com a urgência da renovação dos quadros, traduzida numa série de aposentações difíceis de compreender para os colaboradores, cujas carreiras se tinham desenrolado em muitas instâncias exclusivamente no seio do grupo, e com a revolução de 25 de Abril de 1974. Os atrasos nos pagamentos oriundos de Angola, colónia pela qual a Jerónimo Martins se tinha interessado nas décadas anteriores, tinham conduzido a uma retirada progressiva, a partir de 1970, do investimento feito no agora Estado independente (ironicamente, no Natal de 1973 Alexandre Soares dos Santos conversara com a mulher sobre a possibilidade de se transferirem para Luanda). Mesmo assim, a ocupação das instalações pertencentes à empresa teve graves consequências financeiras e humanas. Uma centena de trabalhadores foi transferida e acomodada na colónia de férias da Praia das Maçãs, obrigando a uma recolocação problemática. Em Lisboa, urgia resguardar as estruturas da casa, ameaçadas pelo PREC.
Passada a tempestade, Alexandre Soares dos Santos inquieta-se com o desequilíbrio provocado na joint-venture pela tentativa de controlo por parte da Unilever da esfera da produção, e arrisca a distribuição como estratégia de contrapeso. Em 1980, é inaugurado o primeiro Pingo Doce; o ano marca o regresso da Jerónimo Martins à actividade da pequena mercearia da Rua Garrett, desta feita concretizada através de uma extensa rede de grandes superfícies rapidamente desenvolvida. De novo, é um diálogo com o antigo vice-presidente da Unilever, em visita ao supermercado de Linda-a-Velha, que lança a ideia por detrás do passo seguinte de Alexandre Soares dos Santos.
Assim, em 1989 a família Francisco Manuel dos Santos adquire – após sete décadas de sociedade – a participação da família Vale no Jerónimo Martins, ficando 40 % deste nas mãos do presidente do Conselho de Administração, ao qual, porém é autorizada a liberdade de nomeação dos quadros do grupo. A operação é financiada por uma colocação parcial de capital na Bolsa de Valores, através de uma oferta pública de venda (OPA).
Alexandre Soares dos Santos ocupa ainda o cargo que assumiu em 1967. Tem 74 anos e é casado desde 1957 com Maria Teresa Canas Mendes da Silveira e Castro, com quem tem sete filhos, dois dos quais membros do Conselho Executivo do grupo, e dezoito netos.