7 Dez 2010

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As consequências nefastas de certas práticas pedagógicas

Salvador de Sousa escreve sobre o valor de educar, o valor de instruir, in Diário do Minho

Salvador de Sousa - Ex-Professor da Escola Monsenhor Elísio de Araújo (Pico de Regalados]  

 

Ao ler o livro "O valor de educar, o valor de instruir" da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fiquei ainda mais convicto de que temos de contestar essas vozes perturbadoras da educação em Portugal (e noutros países) pelo desaire patenteado, nestes últimos tempos, num sector que deve ocupar um lugar predominante na nossa sociedade e que se arruina cada vez mais.  

Nestas últimas décadas, tem havido variadas transformações, como é óbvio, pois é uma área em permanente evolução e onde se concentram teorias e práticas inspiradas em doutrinas e pensamentos diversificados.  

Mas não exageremos. Deve existir equilíbrio entre as práticas existentes e aquelas que se desejam introduzir, nunca rompendo totalmente com o passado só pelo facto de se ir ao encontro de modas culturais que, por vezes, prejudicam as boas praxes, rejeitando-as apenas numa perspectiva ideológica, sem obedecer a critérios definidos. Mudar, sim, destruir, não. Há certos iluminados, abstraídos da realidade, embrenhados em teorias facciosas, que não se coadunam com a realidade dos nossos estudantes e das nossas escolas.   

Ricardo Moreno Castillo, professor e especialista na área de educação, diz que a lei implementada em Espanha, na década de 90, consistia em igualar, por decreto, todos os alunos, menosprezando o esforço e a disciplina como algo pertencente ao passado fascista e reaccionário. São os tais erros que se pagam muito caros. Em Portugal passou-se precisamente o mesmo: acabaram com o ensino profissional que estava a dar incomensuráveis resultados; baniram certas práticas pedagógicas, sobretudo no ensino da Língua Portuguesa, Matemática e outras; apregoou-se o facilitismo e o nivelamento de estatuto de professores e alunos; acentuou-se bastante o ensino por competências em detrimento dos conhecimentos.  

A este propósito, o autor citado, refere: «como é que vamos ensinar a competência de fazer uma conta de dividir sem ter conhecimento prévio da tabuada? Como pode ter competência de traduzir um texto latino quem não aprendeu previamente as declinações e as conjugações?   

Como se pode analisar gramaticalmente um texto quando se carece do conhecimento que permite distinguir um substantivo de um verbo, ou uma preposição de uma conjunção?  

Ensinar competências não é nenhuma novidade, é algo que sempre fizeram os bons mestres do mundo (...). Para que os alunos tenham os conhecimentos necessários prévios a qualquer competência, não há outro remédio senão exigir-lhes que estudem. E para que essa exigência seja efectiva, terão de aprender a tabuada, as declinações latinas e a lista das preposições. Sim, ensinar a lição, como sempre se fez, sem complexos e sem medo de parecerem professores obsoletos, caducos ou nostálgicos, e dar má nota a quem não sabe. E se um aluno ficar traumatizado por ter má nota, que se aguente.

O importante não é saber conteúdos, mas formar pessoas. Mas formar pessoas sem dar conhecimentos é tão impossível como arrumar os móveis de um quarto vazio. Uma pessoa formada é a que tem os seus conhecimentos bem arrumados e estruturados na cabeça, não a que tem a cabeça vazia.  

Esta longa citação veio dar razão àquilo que sempre fiz como professor, remando, em certo tempo, contra a maré. Algumas práticas eram consideradas antipedagógicas, por exemplo, quando mandava conjugar os verbos com aquela lengalenga que todos conhecem (eu estudo, tu estudas, ele estuda...), mas de que os alunos gostavam e aprendiam; quando se faziam exercícios ortográficos (ditados e cópias, aprende-se a escrever, escrevendo); quando se era exigente e se mantinha a autoridade na sala de aula (o professor é quem manda na sala de aula para que haja verdadeira qualidade no ensino!); quando se aproveitava a interpretação de textos para transmitir certos valores aos alunos.  

É evidente, e ainda bem, que hoje, algumas dessas práticas aceitam-se melhor, mas ainda há muito a fazer para se acabar totalmente com certos preconceitos, sobretudo na exigência e na autoridade dos professores, factores fundamentais, em decadência constante, onde é urgente intervir.  

Ricardo Moreno Castilho aponta, no texto do livro já citado, onde escrevem também outros estudiosos como Fernando Savater, Nuno Crato e Helena Damião, as várias causas para o fracasso escolar em Espanha, passando-se precisamente o mesmo no nosso país. O aluno que perturba está a prejudicar o seu colega, mas não tem havido a coragem suficiente para castigar os prevaricadores e defender os que livremente querem estudar, assim como os professores na sua tarefa de ensinar. Diz ele: «Não existe propriamente um ensino obrigatório. Não é obrigatório estudar (pode passar-se de um ciclo para outro, reprovado a oito disciplinas), nem respeitar os colegas e professores, nem acatar normas obrigatórias em qualquer lugar público.  

Quando um aluno é grosseiro com um professor, não é obrigatório pedir perdão. E a expulsão não é um castigo para quem não quer estudar, antes pelo contrário. O nosso sistema educativo confunde aprender com estar encerrado. Um estudante que chega aos dezasseis anos sem saber a tabuada, ou dando erros ortográficos, não aprendeu, mesmo que tenha cumprido o ensino obrigatório...» O autor fala de Espanha, mas em Portugal, infelizmente, passa-se a mesma coisa. Os problemas são similares.  

Quero pedir desculpa por ocupar parte deste meu texto a citar o autor em questão. Quis, porém, transmitir, através dele, o que penso sobre o sistema de ensino em Portugal e noutros países. Podemos dar o nosso contributo para termos escolas a funcionar sem atropelos, retribuindo a cada agente educativo o seu verdadeiro estatuto.  

 

Diário do Minho, 7 Dezembro 2010