2 Jun 2010
Português Polémico
Entrevista a Maria do Carmo Vieira, in Jornal de Letras.
Lançar o debate sobre o estado do ensino do Português é um dos objectivos do primeiro ensaio da colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMDS).
Escrito por Maria do Carmo Vieira, 58 anos, licenciada em Filologia Românica, professora de Português do Ensino Secundário, autora de A Arte, Mestra da Vida: Reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura, Sobre Fernando Pessoa - Drama em Gente e Percurso Pessoano por Lisboa, entre outros, e colaboradora do JL/Educação onde publicou numerosos textos, muitos dos quais citados neste livro. Em O Ensino do Português, a autora analisa, sem receio de polémicas, o 'estado' da nossa língua em todos os níveis de ensino - excepto o universitário - documentando-se amplamente, criticando ainda a controversa TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) ou o programa das Novas Oportunidades.
«Analisei o ensino do Português desde o 25 de Abril de 1974, até aos nossos dias. Aqui está tudo aquilo que sei sobre o assunto, tudo aquilo que não me parece que esteja bem», explica-nos Maria do Carmo Vieira que escreveu a obra para «lançar uma discussão séria sobre estas matérias».
JL/Educação: Que radiografia traça do estado do ensino do Português?
Maria do Carmo Vieira: Tanto no ensino do Português, como no ensino em geral, não se convidam os alunos a pensar ou a sentir. O pensamento associa-se à sensibilidade e a aspectos emotivos, aqueles que nos levam a um determinado tipo de reacções. A leitura e a análise de um texto literário provoca uma reacção, que nos obriga apensar, sobretudo sobre nós próprios e os outros. No caso do Português e da Literatura há um grande desamor sobretudo pelos autores clássicos. Na dicotomia velho/novo, neste momento, privilegia-se quase sempre o novo. Sinto que o ensino está feito de modo a não levar as pessoas a pensar e, pelo contrário, o êxito parece ser oferecido. Consome-se muita mediocridade. Infelizmente, esta é a imagem que tenho.
Quais os pontos-chave de O Ensino do Português?
O livro está dividido por ciclos. Analiso o que se passa no primeiro, segundo e terceiro ciclos do Ensino Básico e também no Secundário. Abordo a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), porque acredito que a gramática está a ser esquecida em proveito de uma terminologia profundamente estéril. E não estou sozinha, pois linguistas de renome, mencionados na obra, concordam comigo. Refiro-me também ao programa Novas Oportunidades, algo profundamente fraudulento. Revela um enorme desrespeito por quem se inscreve pensando que vai voltar a estudar. Não vai. Há ainda uma crítica em relação aos novos programas do Ensino Básico, coordenados pelo prof. Carlos Reis.
Apresenta algumas propostas?
É urgente pensar na formação dos professores. Não há dúvida que cientificamente estão a privilegiar uma pedagogia com teorias de educação mais do que fora de moda, que nunca foram discutidas. A competência de um professor a nível científico está posta de lado. É necessário valorizar uma formação séria que junte a pedagogia à competência. Mas chamo a atenção para que tudo isto não foi inventado pelos portugueses, mas antes cozinhado em Bruxelas. Tenho documentos que o provam. Há aliás transcrições dos autores dos programas portugueses que mudam apenas uma palavra ou outra, mas escrevem precisamente o mesmo que Bruxelas.
Consegue perceber porquê?
O objectivo desta Europa é ter cada vez mais pessoas que não pensem. Quanto menos se pensar mais obedientes somos e menos possibilidades temos de reagir ao que consideramos injusto. E quem perde mais são os países mais pobres, caso de Portugal. Quanto mais analfabetos formos e mais propensos ao consumismo melhor - vemos todos os dias pessoas endividadas que não reflectem e se deixam seduzir por engodos. Acho que esse é o objectivo de um determinado tipo de poder que, sem dúvida, corrompe e escraviza.
E, portanto, um livro polémico?
Sim, mas é um apelo a que reflictamos. Todos temos culpas, e eu também. Resignámo-nos demasiado, aceitámos demasiado sem reagir com dignidade profissional. Gostava que houvesse um diálogo, e não má-língua, e que deixássemos de pensar que temos verdades absolutas. Esta é a minha visão, mas não faço nada 'de cor', está tudo documentado. Não se pode dizer que inventei. Cito inúmeros manuais, relatórios, reacções de alunos, professores universitários que mostram como os seus alunos escrevem hoje em dia, provando o mau estado de coisas do Ensino Básico ao Universitário.
Reúne os textos que publicou sobre o assunto, nomeadamente no JL?
O JL foi o primeiro jornal que aceitou o meu artigo onde escrevia que era inadmissível que o programa televisivo Big Brother estivesse nos manuais escolares e que se convidasse os alunos a vê-lo. Guardo e-mails dessa altura em que várias pessoas escreviam coisas inacreditáveis, como que os alunos precisavam de ver aquilo para desenvolverem o espírito crítico. Recomenda-se a mediocridade para desenvolver o espírito crítico? Com um texto de Gil Vicente desenvolve-se muito mais. Se os alunos se 'viciarem' na qualidade vão conseguir distinguir o bom do mau.
Jornal de Letras, 2 Junho 2010

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