16 Dez 2011

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A escola de Babel

Como se aprendem línguas estrangeiras?

Como se aprendem línguas estrangeiras? Qual a melhor forma de o fazer em contexto escolar? Qual a importância do bilinguismo nos nossos dias? Foram alguns dos temas debatidos na conferência Aprender uma segunda língua, integrada no ciclo Questões-Chave da Educação, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, temas de óbvio interesse, até na ótica de uma próxima reforma curricular que o ministro Nuno Crato está a preparar. O JL/Educação acompanhou os trabalhos, entrevistou a prof.a catalã Carmen Munoz, especialista em linguística e bilinguismo, da Universidade de Barcelona, e falou com os investigadores portugueses Luísa Araújo e Carlos Ceia  
  
Começar numa idade precoce não é necessariamente o fator mais importante para uma boa aprendizagem de uma língua estrangeira. Esta foi uma das conclusões da apresentação A aquisição de segundas línguas. Idade e contexto de aprendizagem, proferida pela profª Carmen Munoz na última conferência Questões-Chave da Educação, que decorreu a 5 de dezembro, em Faro (na Universidade do Algarve), e a 6, em Lisboa (na Torre do Tombo). Como explicou ao JL/Educação, o que o seu estudo BAF, Barcelona Age Factor Project, demonstrou, foi que há muitos outros fatores a ter em consideração, sobretudo os relacionados com a formação dos professores, o tempo de qualidade despendido com os alunos e os contextos em que a criança está inserida, bem como a utilização da língua o máximo tempo possível na sala de aula. "É fundamental que as crianças falem, que trabalhem em grupos, em pares, que façam o esforço cognitivo de utilizar a língua estrangeira", diz-nos nesta entrevista.  
 
Carmen Muñoz, 56 anos, é profª de Linguística Inglesa e de Linguística Aplicada, na Universidade de Barcelona. Nascida na Catalunha e portanto desde muito cedo inserida numa sociedade bilingue, sempre se interessou por estas temáticas. Optou por seguir Psicologia, estudando mais tarde Filologia Inglesa, com a ideia de se especializar na aquisição línguas estrangeiras. "Quando se está inserido numa comunidade bilingue questionamo-nos constantemente sobre temas linguísticos. Como é que os miúdos separam as duas línguas, como as aprendem, como passam de uma a outra? São questões que estudo há mais de 20 anos.  
 
É uma verdadeira paixão", revela ao JL/Educação. Mestre em Linguística Aplicada, pela Universidade de Reading, e doutorada em Linguística Inglesa, pela Universidade de Barcelona, é ainda vice-presidente da European Second Language Association.  
 
O ciclo de conferências dedicado à Educação, do qual Aprender uma segunda língua fez parte, vai continuar durante o próximo ano, assim o garantiu à vasta plateia do Auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, António Barreto, o presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos.  
 
JL/Educação: Existe a ideia generalizada de que quanto mais cedo se começa a aprender uma língua estrangeira na escola, melhor. A sua experiência prova-o?  
 
Carmen Munoz: No projeto BAF - Barcelona Age Factor Project começámos a trabalhar motivados pela mudança que houve em Espanha, antes de outros países, antecipando a idade de início de aprendizagem de uma língua estrangeira. Queríamos encontrar provas empíricas das vantagens que supostamente teriam as crianças pequenas. Concluímos que, num meio escolar, quando as crianças têm tão pouca exposição à língua e somente a conhecem a partir das aulas - duas ou três vezes por semana -, começarem mais cedo, não é suficiente para avançarem a um ritmo rápido.  
 
- Mas o que se passa a longo prazo?  
 
- Quisemos precisamente investigá-lo, por isso comparamos os estudantes em três momentos diferentes. Depois de 200 horas de exposição à língua, curto prazo, depois de 400 horas, nível médio, e depois de 700, longo prazo. Quando chegamos às 700 horas, verificámos que os alunos que tinham começado mais cedo, não tinham avançado assim tanto em relação aos outros. Dentro do período escolar, a esperança de que, no final, esses alunos seriam melhores e estariam mais avançados, não se verificou. Continuamos então o estudo com alunos que estavam na universidade e tinham quase 4 mil horas de aulas. Mais uma vez, não havia nenhuma diferença entre os que tinham começado aos 7 ou aos 9 anos. Nas provas estatísticas, o fator 'idade de início', não tinha uma consequência direta nos resultados. Não obstante, quando observávamos o questionário e a entrevista, havia resultados muito diferentes (e melhores) para os alunos que tinham vivido um período no estrangeiro ou tivessem tido um contacto mais direto com o inglês. A nossa investigação tenta consciencializar os educadores e os poderes políticos para que as medidas a adotar sejam as mais adequadas. Muitas vezes, gasta-se dinheiro de maneira que não surte nenhum efeito, quando os recursos se deveriam  focar, por exemplo, na formação dos professores. Começar muito cedo a aprendizagem de uma língua estrangeira sem que os professores estejam bem formados, pode ter efeitos negativos.  
 
MOTIVAÇÕES E RESULTADOS  
 
- Qual é então a melhor forma de ensinar uma língua estrangeira?  
 
- O sistema ideal é por imersão. Várias escolas de elite, bilingues, proporcionam uma aprendizagem perfeita às crianças que podem ser fluentes em inglês, francês ou espanhol, se na escola, a maior parte do dia, lhes falarem nessa língua. Infelizmente, este sistema não é generalizável a toda a população. Assim, é preciso que no momento em que se começa a aprendizagem, os professores estejam bem preparados, haja os recursos adequados e tempo suficiente para se dedicar à aprendizagem. Há estudos feitos no Quebéc, no Canadá, que demonstram que, em apenas meio ano de ensino intensivo de uma língua, alunos com 11 anos adiantam muitíssimo mais do que nos seis anos anteriores a terem aulas duas ou três horas por semana. Depois da análise de vários anos, esta metodologia vai-se agora generalizar a todas as escolas do Quebéc.  
 
- É mesmo uma decisão política...  
 
- Exatamente. Mas só depois de se ter provado que funciona. Há maneiras diferentes para chegar a uma situação melhor do que a que temos hoje em muitos países. Sabe-se que um par de horas numa semana não é suficiente. É muito mais  
 
importante a qualidade do ensino e a intensidade com que é desenvolvido. Aprender uma língua é muito mais do que saber uma lista de fórmulas. A língua tem que ser utilizada. Tem que ser um veículo de expressão e de comunicação. Os professores devem potenciar isso na sala de aula. Os alunos têm que utilizar a língua, fazer tarefas simulando a realidade. Para isso, é preciso uma organização diferente da típica aula de idiomas, na qual, como sabemos, não se avança a um ritmo muito rápido.

 

Francisca Cunha Rêgo , in JL/Educação 14 de Dezembro de 2011.

Conferência / Educação

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