19 Out 2011
"Construir conhecimento" - entrevista a Lynne Reder no JL/Educação
Se os alunos não perceberem as estruturas por trás da aprendizagem, não serão capazes de construir conhecimento.
Em Causa: Aprender a Aprender - este foi o título da primeira conferência do ciclo de 2011, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, sobre questões-chave da educação. Quais as melhores formas de por em prática esta ideia de aprendizagem na sala de aula, qual a importância da memória ou dos testes, foram alguns dos pontos focados perante uma plateia (cheia) de professores, educadores e investigadores. O JL/ Educação dedica o tema desta edição a esta matéria, com uma entrevista a Lynne Reder, prof.ª de Psicologia na Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, formada pelas Universidades de Stanford e de Michigan, com um pós doutoramento em Yale, especialista em Psicologia Cognitiva. E regista as opiniões dos profs. Pedro B. Albuquerque, licenciado na Universidade do Porto e doutorado na Universidade do Minho, e Paula Carneiro, investigadora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa doutorada em Psicologia Experimental e com pós-doc da Universidade de Salamanca
"Será que eu sei mesmo esta matéria? Talvez seja melhor tentar explicá-la a mim próprio".
Este deve ser um dos princípios básicos para quem tenta aprender a aprender, ou seja, treinar a metacognição. E o que é a metacognição? A capacidade de cada um conhecer os seus próprios processos de pensamento e raciocínio. Quem o afirma é Lynne Reder, 60 anos, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, a investigadora convidada para fazer a comunicação principal da conferência Em Causa: Aprender a Aprender. Até ao fim deste ano haverá mais duas conferências organizadas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS): O Valor do Ensino Experimental (a 10 e 11 de novembro) e Aprender uma Segunda Língua (a 5 e 6 de dezembro).
Lynne Reder, que é ainda diretora do Laboratório da Memória, da referida universidade americana, assina o trabalho Aplicações da Psicologia Cognitiva à Educação e suas Deturpações, escrito com John R. Anderson - prof. de Psicologia e Ciência Informática também na Universidade de Carnegie Mellon - e Herbert A. Simon (entretanto falecido) - professor no mesmo departamento, formado pela Universidade de Chicago - e que acaba de ser publicado em Portugal, em mais um volume da coleção da FFMS, com o apoio da Porto Editora.
Reder iniciou a sua formação em 1968, na Universidade de Stanford, trabalhando primeiramente com crianças autistas, tendo depois ficado 'seduzida' pela Psicologia cognitiva cuja investigação abraçou. É membro do Instituto de Interação entre Computador e Humano e do Centro para a Base Neural da Cognição. Além disso, está ligada à Associação Americana para o Avanço da Ciência, à Associação Americana de Psicologia e à Associação para a Ciência Psicológica. Ao longo dos anos publicou mais de 100 artigos entre os quais se destaca Visual vs. Verbal Metacognition: Are They Realty Different?, com R. Diana, em 2004, Knowíng We Know Before We Know, com C. A Paynter e P. D. Kieffaber, em 2009, e mais recentemente, em 2010, Memory for Pictures: Sometimes a Picture is Not Wbrth a Single Word, com J. M. Oates. Neste momento encontra-se a estudar a interação da familiaridade estimulada e da memória de trabalho na capacidade de formar novos conhecimentos.
JL/Educação: A expressão Aprender a Aprender é uma constante, quer em discursos pedagógicos, quer em documentos oficiais. Na realidade, o que significa?
Lynne M. Reder: Aprender a Aprender significa melhorar a metacognição de cada um. Isto é, cada pessoa conhecer os seus próprios processos de pensamento e de raciocínio. Em termos da educação, pretendemos que os alunos sejam capazes de perceber se compreendem determinadas matérias, de modo a serem mais organizados e a planearem melhor o seu estudo, apreendendo deste modo uma nova capacidade de pensar complexa. Um dos componentes importantes neste processo relaciona-se com as convicções dos estudantes sobre a inteligência e se pensam que podem melhorá-la por aprenderem e saberem mais. Sabe-se hoje que a inteligência é maleável e não estática ou fixa. Um estudo de Carol Dweck, feito há já algum tempo, revelou que as pessoas que viam a inteligência como maleável obtinham melhores resultados na escola. São pessoas mais felizes no ambiente escolar, que vêm a aprendizagem como um desafio, uma oportunidade. Não sentem, por exemplo, que, por falharem um teste, sejam estúpidos, mas antes que precisam de trabalhar mais. É uma maneira de pensar muito mais adaptada e produtiva.
- A metacognição deve ser treinada constantemente na sala de aula ou só nalguns momentos?
- Deve ser treinada o suficiente para se tornar num hábito, para que os alunos estejam conscientes sobre aquilo que precisam de fazer de modo a terem a certeza que estão a aprender. Podem monitorizar se, de facto, apreenderam os conteúdos ou se estão a estudar/ aprender de uma forma passiva, não efetiva. "Será que eu sei mesmo esta matéria? Talvez seja melhor tentar explicá-la a mim próprio", deve ser o raciocínio.
Estes momentos são muito importantes e não têm que ocupar muito tempo na sala de aula. Uma vez apreendido, a utilização torna se mais automática.
- É mesmo possível aprender a aprender?
- Há vários estudos que confirmam essa promessa. Um em particular, de Azevedo e Cromley, de 2004, mostra grandes ganhos na aprendizagem com apenas 30 minutos de treino. O trabalho de Marsha Lovett, da Universidade de Carnegie Mellon, mostra que com uma simples intervenção na sala de aula os comportamentos são alterados.
- Que técnicas devem utilizar os professores para que os alunos apreendam melhor este processo?
- É importante não dar passos demasiado grandes. Se os alunos não perceberem as estruturas que estão por trás da aprendizagem, não vão ser capazes de construir conhecimento a partir daí. Os professores não devem fazer apenas uma exposição oral de determinada matéria, porque os alunos se aborrecem e 'desligam'. É importante, por exemplo, fazer-lhes perguntas antes de dar a resposta correta. Pô-los a pensar no assunto e não os deixar ser passivos.
REGISTO, RETENÇÃO E RECUPERAÇÃO
- Refere-se à importância de não fazer tudo ao mesmo tempo...
- O professor não deve tentar dar muita matéria de uma só vez, porque irá exceder a capacidade de retenção dos alunos. Sweller tem desenvolvido trabalho neste sentido. Acredito que temos uma memória de trabalho limitada, como afirmou O prof. Pedro Albuquerque (ver caixa), mas quero frisar que cada pessoa tem 'pedaços de conhecimento' de tamanhos diferentes, dependendo daquilo que já sabe. A minha pesquisa demonstra que quanto mais familiares forem os termos a estudar, menos memória de trabalho se consome.
- E qual o papel da memória em todo este processo?
- A memória de trabalho faz parte da memória. E aprender é memorizar. É pôr a informação na memória de longo prazo. A memória compõe-se de três partes, os chamados três r's: Registo, ou seja, a codificação; Retenção, ou seja, a capacidade de fixar; e Recuperação, a capacidade de ter acesso a essa memória. São componentes separados. Mesmo que se saiba a informação, às vezes é difícil acedê-la. Por isso é desejável que haja uma codificação variada, para não se depender de um contexto específico, e ser-se capaz de recuperar a informação. O processo de recuperação pode ser ensaiado. Os testes são formas de forçar essa recuperação.
- São por isso necessárias boas estratégias, mas os conteúdos e os factos não deixam de ser essenciais...
- Exatamente. Acredito que há dois tipos de conhecimento na psicologia cognitiva: o dos procedimentos, das capacidades, e outro chamado declarado, que respeita à representação de factos. Ou seja, "Saber como" e "Saber aquilo". Eles interagem, mas são diferentes, e a escola envolve os dois.
- Na sua comunicação abordou a ideia de aprendizagem pela descoberta (discovery leaming) ver sus instrução (instruction). Quais as vantagens e desvantagens destes dois métodos?
- Se a aprendizagem pela descoberta funcionasse, seria ótimo, mas se assim fosse não precisaríamos de escolas. Não somos todos Newtons ou Einsteins e mesmo eles aprenderam a partir do conhecimento de outros. Não devemos dizer às crianças para reinventarem a roda, mas antes ensiná-las a construir conhecimento. A aprendizagem pela descoberta pode tornar-se impossível quando há conhecimento insuficiente ou levar à descoberta de coisas erradas. É muito difícil de conseguir e pode revelar-se uma perda de tempo.
- A instrução direta tem mais vantagens?
- Depende sempre de como um método for aplicado, mas na instrução direta não é claro se o aluno compreendeu toda a matéria. Dar aulas deve envolver fazer exercícios, promover tudo aquilo que faça pensar mais acerca de determinada informação.
DECOMPOR A APRENDIZAGEM
- No ensaio agora publicado defende a decomposição aplicada à aprendizagem. De que se trata e qual a melhor forma de a fazer?
- Alguns autores argumentam que não se deve, nem se pode,
decompor capacidades cognitivas, mas eu acredito que é possível. Quando alguém aprende a jogar ténis, pode trabalhar o serviço ou a corrida... Trata-se de componentes específicas que se podem decompor em diferentes capacidades. Isso também é verdade para outros desportos, como futebol ou basquete. Na Matemática, por exemplo, podese certamente decompor. Não tem que se resolver equações complexas todos os dias. Pode-se treinar capacidades de adição, de multiplicação, etc... A maior parte destas capacidades, particularmente à medida que vão ficando mais complexas, podem ser decompostas. É necessário que todos os componentes estejam bem apreendidos antes de os juntar.
- Por exemplo?
- No piano, quando se está a aprender uma partitura, pode-se trabalhar a mão esquerda e a mão direita separadamente, antes de as juntar.
- A decomposição pode ser aplicada a outras disciplinas?
- Sim. Por exemplo, a História ou a Geografia podem ser claramente decompostas. Não é preciso aprender todos os factos de uma só vez, pode-se aprender cada parte em separado e só as juntar mais tarde. Noutro exemplo de decomposição, a Matemática tem que estar dominada (decomposta) antes de se estudar Física.
- E a descontextualização? Como pode ser aplicada?
- É importante que quase todas as capacidades cognitivas sejam descontextualizadas para que possa haver transferência. Não sabemos todas as situações em que vamos precisar delas. Pode ser útil para o professor quando estiver a ensinar alguma coisa abstrata, primeiro fazê-lo num contexto, tornando-o mais claro para os estudantes. Mas se as coisas forem só ensinadas num contexto, é menos provável que se tornem úteis noutras situações.
PENSAR ATIVAMENTE
- No seu trabalho equaciona a aprendizagem situada e o construtivismo. Quais as principais diferenças entre eles?
- A aprendizagem situada diz-nos que só se pode aprender alguma coisa em contexto e que não se deve tentar ensinar nada em abstrato. Penso que não é a melhor forma de aprender. O construtivismo tem o atributo positivo de fazer com que o aluno se torne ativo no processo de aprendizagem, mas tem muitos aspetos negativos. Pode demorar muito tempo até que o aluno seja capaz de construir, de facto, conhecimento. Por outro lado podem também descobrir coisas erradas sem que o professor disso se aperceba. O que pode destruir tudo. Se os professores conseguissem a experiência educacional perfeita, que fizesse com que as pessoas descobrissem tudo por si, seria fantástico, mas cada pessoa é diferente e é muito difícil pôr isso a funcionar. Einstein não redescobriu a teoria de Newton. Foi-lhe ensinada.
- Não defende nenhum destes conceitos?
- Não penso que sejam as melhores formas de ensinar.
- E qual é então?
- Em primeiro lugar o professor tem que saber muito bem a matéria que está a ensinar. Deverá não só fazer exposições orais, mas exercícios e atividades de modo a que os alunos se interessem e percebam se sabem ou não a matéria. Os alunos aprendem melhor quando estão a pensar ativamente na informação e não apenas a codificá-la passivamente. Dar-lhes pequenas tarefas, fazer-lhes perguntas antes de dar a resposta, fará com que aprendam melhor. Outro aspeto importante é espaçar a prática Ietiva ao longo do tempo, em vez de ensinar determinada matéria apenas uma vez e durante muitas horas, o que não será efetivo. Deve-se praticar ao longo do tempo, em contextos diferentes e com exemplos diferentes. Infelizmente, quer em Portugal quer nos Estados Unidos, os estudantes têm três meses de férias de verão. Isto cria um duplo problema: durante as férias perde-se muita informação e no início do ano há muito que tem que ser reaprendido. Pode ser feito de uma melhor maneira, mas é ineficiente; por outro lado, no fim do ano, estão tão fartos da escola (porque não tiveram férias suficientes ao longo do ano), que já não prestam atenção a nada. E quando não se está a prestar atenção não é possível aprender.
- Seria melhor distribuir as férias de outra maneira?
- Penso que haveria mais vantagens. Três meses de férias de verão, é muito mau para a aprendizagem.
- Numa era de tanta tecnologia, em que a informação está disponível à distância de um clique, a aprendizagem está a mudar?
- Alguns dos estudantes na universidade onde eu ensino pensam que podem usar citações que encontram na internet de uma página qualquer. Não posso admiti-lo, pois têm sempre que ir à fonte principal. Na verdade, penso que é ótimo ser tão fácil encontrar informação, embora seja sempre necessária a confirmação da mesma. O lado mau da internet é que a usamos para muito mais coisas além de obter informação, como estar no Facebook, por exemplo. Isso retira-nos tempo precioso em que poderíamos estar a aprofundar as nossas capacidades cognitivas. Uma conversa on-line pode ser boa para algumas coisas, mas não tanto para a educação.
- Qual deve ser então o papel de um professor? E de um aluno?
- O professor é responsável por alimentar a aprendizagem. Ao estudante é pedido que participe. O professor não pode fazer nada sem a ajuda do aluno. Um estudante tem que ser ativo e encarregar-se de ter uma mente ativa. Se estiver distraído, estará apenas a ouvir o som das palavras e não a entendê-las.
Francisca Cunha Rêgo
in Jornal de Letras/Educação, 19 de Outubro de 2011

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