18 Ago 2011

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O que eu preciso de saber sobre Filosofia

Afinal, que raio de coisa é a filo-sofia?

O que eu preciso de saber sobre.  
 
Filosofia  
 
AFINAL, QUE RAIO DE COISA É A FILO- SOFIA? Muitos de nós tivemos uma experiência não muito iluminante, no ensino secundário. Havia uma disciplina chamada «Filosofia», mas não se percebia bem o que era aquilo. Os manuais também não ajudavam, e os professores pareciam ainda mais perdidos do que nas outras disciplinas. Em grande parte, a filosofia parecia conversa fiada, mencionando por vezes nomes supostamente sonantes, como Kant, outras vezes nem isso: parecia apenas uma maneira esquisita de dizer banalidades.  
 
Não admira por isso que pessoas informadas como você continuem hoje com alguma perplexidade e até desconfiança perante a filosofia.  
 
Esta parece um resquício arcaico de tempos felizmente há muito idos. E se eu lhe disser que a imagem que tem da filosofia está errada?  
 
Não vou mentir-lhe dizendo que a filosofia é muito útil. Mas vou insistir consigo que, se pensar bem, a maior parte das coisas que você valoriza na vida não são úteis: um bom vinho, umas férias relaxantes, o amor do seu cônjuge e dos seus familiares e amigos, um bom filme ou um bom romance. Que utilidade têm todas estas coisas? Certamente não são úteis no sentido em que a água é útil: porque sem água você morre. Mas são importantes porque, ainda que não contribuam para a sua sobrevivência, contribuem para o seu bem-estar e felicidade.  
 
Ora, o que contribui para o seu bem-estar e felicidade depende da sua natureza. Um cão ou um peixe têm necessidades diferentes das suas, assim como uma criança de 6 anos. Você tem necessidades que resultam diretamente da sua complexidade cognitiva e emocional. O filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) escreveu no Utilitarismo (Gradiva) que é preferível ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito (mas ele tinha em mente o Sócrates grego). O que Mill queria dizer é que uma vida de porco, por melhor que seja para um porco, é insatisfatória para nós, porque não somos porcos.  
 
Precisamente porque somos dotados de uma certa complexidade cognitiva, temos curiosidades que um porco não tem. Queremos saber o que há do outro lado do sistema solar, como começou a vida na Terra, quem são os ascendentes do Duque de Bragança. Estas são perguntas factuais, da responsabilidade da astronomia, da biologia e da história, respetivamente.  
 
Mas também queremos saber outras coisas que são mais difíceis de responder porque não são obviamente factuais: queremos saber se o suicídio assistido deve ser permitido por lei, por exemplo. E queremos saber coisas mais exóticas, incluindo se afinal sabemos realmente o que julgamos saber e como poderemos distinguir a ilusão de que sabemos do saber propriamente dito.  
 
É porque sentem perplexidades deste tipo que desde há 2500 anos vários seres humanos como você e eu se têm dedicado à filosofia.  
 
É nesta área de estudos que investigamos cuidadosamente problemas insuscetíveis de resposta científica, e insistimos em investigálos mesmo perante quem defende que nunca se poderá saber o que não se puder saber cientificamente.  
 
Assim, é verdade que a filosofia, como tantas outras coisas boas da vida, não tem qualquer utilidade. Mas fazemo-la porque essa é a única maneira de satisfazer a nossa curiosidade intelectual por um certo tipo de problemas.  
 
Diga-me, a filosofia faz agora mais sentido para si?

 

Desidério Murcho

in Visão, 18 de Agosto 2011.