29 Nov 2011

(3)

A crise - Ana Taborda e Ana Pimentel

Como nos estamos a adaptar aos tempos difíceis

O pior ainda não chegou. Está anunciado para 2012. Mas os hábitos dos portugueses já começaram a mudar. A pouco e pouco, porventura ainda evitando as escolhas mais difíceis. Come-se menos carne de vaca – mas ainda se come carne, de porco e de aves. Anda-se menos de automóvel – mas ainda não se dispensou a viatura própria. Com o maior desemprego de que há registo, com a maior dívida dos últimos cem anos, depois de dois exercícios orçamentais (2009 e 2010) com os maiores défices em tempo de paz, a crise e a poupança forçada toca a todos. Aqui fica o retrato possível.

 

Cabaz alimentar tem mais marca próprias e produtos baratos

Os portugueses estão a ir menos vezes às compras e a gastar menos dinheiro. Para isso, usam essencialmente duas estratégias: compram produtos mais baratos e optam cada vez mais pelas marcas próprias das grandes cadeias de distribuição. De acordo com dados da Nielsen, nos últimos três anos as visitas a grandes superfícies e supermercados caíram 9,8%. Até Junho de 2009, as famílias deslocavam- -se a estas lojas, em média, 123 vezes por ano. Mas em 2011 este valor desceu para 111 – o que significa que os portugueses eliminaram uma ida às compras em cada mês. A tendência sentiu-se, sobretudo, entre os terceiros trimestres de 2009 e 2010, com uma redução de dez actos de compra. Mesmo indo menos vezes às compras, a factura do supermercado também continua a descer: o valor médio passou de 27,32 euros para 26,97 euros (-1,3%). As maiores perdas são no canal tradicional, que inclui as mercearias de bairro. De acordo com a empresa de estudos de mercado Kantar, os gastos nestas lojas diminuíram 9% entre os primeiros semestres de 2010 e 2011.
É com a alimentação e bebidas que os portugueses gastam mais dinheiro: em 2010, estes segmentos representaram mais de 80% das despesas nas lojas da Jerónimo Martins (do total de gastos em produtos de alimentação, bebidas, detergentes, higiene lar e higiene pessoal). E as mudanças são grandes. De acordo com o INE, a produção de carne de bovino no ano passado foi de 93 mil toneladas, uma queda de 9,5% em relação a 2009. Já a produção de carne de porco cresceu 3% e a de aves 2,6%. A entidade que gere as estatísticas nacionais defende que “a crise económica tornou o consumo de carne mais barata apetecível”. No caso da carne de porco, por exemplo, a procura cresceu mais do que o número de animais abatidos (+0,8%). A explicação é simples: o consumo de leitão desceu muito. Nas lojas da Jerónimo Martins, os portugueses reduziram o consumo de todas as carnes que custam mais de sete euros por quilo.
A mudança é semelhante no peixe: os produtos com preços superiores a 15 euros caíram 45%. Os consumidores não deixaram de consumir peixe, mas preferem os mais baratos, como o carapau e a dourada de aquicultura. E, mesmo no caso do camarão, é nos preços mais altos que a procura desce mais – perto de 50%. Já o bacalhau parece mais resistente à crise: vendeu-se mais, mas foram também as vendas de bacalhau corrente, o mais barato, que mais subiram. A tendência mantém-se nas massas e no arroz: são as categorias mais baratas que mais crescem.
As alterações não se limitam à escolha de produtos frescos mais baratos. Dados gerais da Nielsen, para todos os hiper e supermercados do país, revelam que as refeições congeladas cresceram 11,8%, a venda de conservas 10%, a de ovos 7,2%, a de salsichas (dados da Jerónimo Martins) 8,5% e a de fiambre 3,4%. Já o óleo é um dos produtos que mais ganha com a crise. “Verifica-se um ligeiro aumento das vendas de azeite em volume, mas que é ultrapassado em muito pelo crescimento da categoria óleo (20,5%). O crescimento é tão expressivo que poderá comportar igualmente uma transferência de consumo”, considera a Jerónimo Martins – uma garrafa de óleo custa quase três vezes menos que uma de azeite, o que pode estar a levar alguns consumidores a optar por este produto.
As marcas próprias também saem a ganhar. De acordo com o estudo “Marcas próprias – o que diz e faz o consumidor”, da Nielsen, 76% das pessoas admitem ter comprado mais marcas próprias durante a crise. A Kantar aponta para um crescimento de 8% em valor nas compras destes produtos, que já atingiram uma quota de mercado de 36,6%. Mais uma vez, a palavra de ordem é poupar: as marcas próprias permitem gastar menos de 40%, segundo a DECO. No caso do atum em conserva e do óleo, perto de 90% das vendas da Jerónimo Martins já são marcas próprias. De acordo com um estudo da Kantar, 43,1% dos portugueses mais afectados pela crise (22% do total) optam por comprar marcas próprias. Nos primeiros nove meses do ano, as marcas da distribuição atingiram uma quota de mercado de 36,6% (40% na alimentação), face aos 33,8% do mesmo período de 2010.
O consumo de lacticínios é outro dos mais afectados pela crise: a Nielsen aponta para quedas de 7,6% no leite e de 5% nos iogurtes. “Verifica-se uma perda em volume face ao período homólogo nas vendas do leite gordo, subcategoria que apresenta um preço médio superior”, acrescenta a Jerónimo Martins. No caso dos queijos, o flamengo e o de prato (os mais baratos) são os únicos que crescem. “Pode-se ainda notar uma transferência de consumo de queijo estrangeiro e de queijo regional (tendencialmente mais caros) para queijo prato, que poderá servir a mesma função de consumo e com um preço médio mais baixo”, esclarece a Jerónimo Martins. O fenómeno é semelhante no caso dos iogurtes: os produtos específicos para crianças registam uma queda superior a 20% nas vendas, mas os iogurtes tradicionais sobem, o que pode indicar que os pais estão a substituir os produtos geralmente mais caros.
As compras de pão também não escapam à crise. A Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares diz que, nos últimos 12 meses, o consumo desceu 35%. No caso das lojas Pingo Doce, a descida não foi tão grande: há, de facto, menos consumo de pão, sobretudo quando o preço ultrapassa os 20 cêntimos (caiu 61% em volume). Mas no caso do pão mais barato – até dez cêntimos – as compras sobem 43%. Nos legumes acontece o mesmo: as alterações não são muito grandes, com excepção das categorias mais caras, nomeadamente dos legumes já preparados.
Quanto às bebidas, a Nielsen aponta para quedas de 2,7% no consumo de vinho, mas é a cerveja que mais desce: o consumo caiu 5% em 2009 face ao ano anterior e 3% em relação a 2010. Este ano, o sector estima que desça mais 5%. “O consumo de cerveja em Portugal tem vindo a descer nos últimos anos devido à conjuntura económica do país”, considera Francisco Gírio, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja. Os números da Nielsen revelam que pode haver uma transferência de consumo: apesar das quedas no vinho, a compra de águas minerais (+2,3%) e de refrigerantes subiu.
As refeições fora de casa também são cada vez menos frequentes. Segundo a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares (AHRESP), em 2009, houve 10 mil restaurantes a fechar portas – sobretudo no Algarve, uma região mais influenciada pela sazonalidade. E em 2010 encerraram mais 1500 – quatro por dia. A associação considera que o sector atravessa a “maior crise de sempre” e os números confirmam a tendência: de acordo com a Nielsen, as idas a restaurantes desceram 3% em 2010. O efeito da crise é evidente: em 2008 todos os números do sector começam a descer – o número de lojas diminui e as que continuam abertas vendem menos. No caso da rede da Jerónimo Martins, o número de pratos principais vendidos não se altera, mas a facturação das lojas desce. O que muda? Há menos 8,8% consumidores a pedir entradas (a descida é causada sobretudo pelas saladas, mas não se corta no pão, nem na sopa), 14,4% estão a cortar nas sobremesas (os que não dispensam pedem fruta), 12,5% nos cafés e 3,6% nas bebidas (a única que sobe é a água com gás). E mesmo ao nível dos pratos principais há poupanças: aumentam os pedidos de massas e de tartes, mas descem os de carne e os de peixe – quedas que, em alguns casos, se aproximam dos 50%.
Os restaurantes low cost, como os das lojas Pingo Doce e Ikea, são os menos afectados pela crise. Este ano, já passaram 2,5 milhões de pessoas pelas lojas Ikea – o número de clientes subiu 9% – e os cachorros continuam a liderar o top de vendas: custam apenas 50 cêntimos. “Desde Setembro de 2010 os portugueses já consumiram mais de um milhão de cachorros”, adianta a marca. Também a Ikea confirma a tendência: apesar de o número de visitas ter subido, os clientes optam por fazer refeições mais baratas.
As compras de refeições para levar para casa também subiram no Pingo Doce – as vendas de sanduíches duplicaram e há mais 12% de portugueses a comprar frango assado. Talvez por isso, o consumo de batatas fritas também subiu, tal como o das pizzas e das massas. As vendas dos produtos mais baratos chegaram a duplicar e as dos mais caros podem cair para menos de metade. Ou seja, uma carbonara venderá sempre mais que uma massa com carne. O leitão desceu mais de 10% e os pratos de peixe e carne passaram a estar no fim da lista. Quer nas vendas para comer em casa, quer nos restaurantes, os produtos mais baratos sobem. Os portugueses já não comem bife do lombo, mas não deixaram de comer carne.
De acordo com o mesmo estudo da Kantar o número de visitas a centros comerciais diminuiu 9% face ao ano passado, mas a queda em relação a 2007 foi superior – 20%. A empresa considera que se trata de uma estratégia para evitar compras por impulso.

Há cada vez mais pessoas a pedir ajuda para comer

Há cada vez mais portugueses dependentes das instituições de solidariedade para subsistir. Em 2010, o Banco Alimentar Contra a Fome assistiu cerca de 298 mil pessoas, mais 37 mil do que no ano anterior e mais 48 mil do que em 2008, pois são mais as instituições que recorrem aos Bancos Alimentares Contra a Fome para ajudar a população mais carenciada da sua comunidade. No ano passado, receberam 1973 pedidos de auxílio, mais 274 do que em 2009 e mais 445 do que no ano em que rebentou a crise financeira mundial.
Quem pede ajuda é, sobretudo, a população envelhecida e com um nível de escolaridade baixo. As pessoas com idade superior a 66 anos representam 47,7% das intervenções, enquanto os adultos (entre 41 e 65 anos) representam 31,3%. Boa parte tem a quarta classe (39,5%), um terço não chega a ter qualquer tipo de instrução. Cerca de 7% são habilitados ao nível do ensino secundário ou superior.
Metade dos inquiridos pelo estudo do Banco Alimentar contra a Fome tem menos de 250 euros para viver, 28% entre 250 e 400 euros. Apenas 9% recebe mais de 500 euros mensais. A maior parte das pessoas assistidas pelo Banco Alimentar Contra a Fome não trabalha, sendo que 20% estão desempregados, 68% são reformados e 7% encontram-se incapacitados para trabalhar. Oitenta e cinco por cento dos inquiridos pelo estudo sentem- -se pobres, sendo que 54% admitem que a sua família sempre viveu em situação de pobreza, 29% já viveram em situações semelhantes e 17% confessam que esta é a primeira vez que se sentem assim.
O número de carenciados não foi o único a aumentar nestes três anos, o espírito de solidariedade também cresceu. Em 2010, o Banco Alimentar Contra a Fome encheu o seu armazém com 2,5 mil toneladas de alimentos, mais 9.136 toneladas do que em 2008.
Os Bancos Alimentares só distribuem alimentos através de instituições locais, grupos ou comunidades que conhecem e apoiam as pessoas em situação de pobreza. Ora, nos últimos três anos, 76,6% dessas instituições registaram mais pedidos de apoio, sendo que este acréscimo é explicado, sobretudo, pelo aumento do desemprego (89,3%), pelo aumento de situações de endividamento (58,8%), de divórcio ou de abandono do lar (42,6%).
Os portugueses que pedem ajuda para comer aumentaram entre 20% a 30% em Portugal, desde 2008, segundo o vice-presidente do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA). Nuno Jardim disse à LUSA que se nota um aumento nas famílias e pessoas carenciadas e explicou que a maior parte das pessoas que estão sozinhas, ou perderam os empregos, têm dificuldades financeiras e pedem ajuda para tomar uma refeição. O plano nacional inclui este tipo de situações no conceito de “sem-abrigo”. O vice-presidente da CASA confessou que é difícil contabilizar o número de pessoas que não têm onde viver, porque estas costumam mudar frequentemente de local.
Já a Assistência Médica Internacional (AMI) contabilizou, em 2010, só entre os que apoia, 12.383 pessoas em situação de pobreza, mais 32% do que no ano anterior. Deste total, 1821 eram sem-abrigo, representando uma subida de 13% face a 2009.
Os atendimentos da Cáritas Portuguesa, instituição da Igreja Católica para a acção social, também aumentaram. As famílias que se socorrem da instituição subiram mais de 40% entre 31 de Agosto de 2010 e de 2011. As conclusões chegam de uma pesquisa a oito dioceses, das vinte existentes, e respeitam apenas aos atendimentos nos centros de ajuda de cada uma. As situações que aparecem nos grupos Cáritas de cada paróquia foram excluídas. A diocese de Lisboa está incluída, mas as do Porto e Braga não, apesar de serem dois distritos em que o impacto da crise mais se fez sentir.
O desemprego foi considerada a principal causa para estas famílias entrarem em apuros. Rendas, prestações de casa, contas de água, luz, medicamentos, propinas de universidade, escola ou prestações de crédito automóvel também constam entre as despesas que as famílias já não conseguem suportar. Em Lisboa, 223 famílias pediram ajuda à Cáritas, mais 60% do que em 2010. Em Aveiro, o número de pedidos de ajuda passou de 1323 para 1909. Na diocese de Setúbal, o crescimento foi de 49%, sendo que em Angra foi de 20%, no Funchal alcançou os 52% e em Santarém e Évora chegou aos 30%.

O carro fica em casa mais vezes

O número total de automóveis a circular nas estradas nacionais não desceu, mas os portugueses estão a deixar mais vezes o carro em casa. De acordo com a empresa de estudos de mercado Kantar, “o aumento do preço dos combustíveis provocou, claramente, uma retracção no consumo particular.” Entre Janeiro e Junho o preço médio da gasolina subiu 17 cêntimos (para os 1,49 euros) e o do gasóleo 23 cêntimos (ficou nos 1,31 euros). E os consumidores ajustaram a procura: reduziram em 3,2% o número de abastecimentos e em 6,2% o número de litros comprados. No total, abasteceram menos 8,2% em volume do que em 2010. Ainda assim, a subida dos preços fez com que gastassem mais dinheiro com o carro: o valor total das despesas subiu 7,1% e o gasto médio por automóvel aumentou 5,9%, o que significa que os portugueses pagam um pouco mais para continuar usar o carro no dia-a-dia, mas não o suficiente para manter todas as deslocações.
Há várias estratégias para poupar: as marcas da grande distribuição têm cada vez mais quota de mercado – 31,5% no primeiro semestre de 2011, contra 30,4% em 2010 – e muitos consumidores já preferem abastecer em Espanha (a despesa média pode baixar 20 cêntimos por litro). “Após um período de abrandamento dos abastecimentos em Espanha, quando os preços baixaram, esta opção volta agora a crescer e atinge, como em 2008 [quando os preços subiram para máximos históricos], uma quota de mercado de 4%”, afirma a Kantar. A GNR aponta outra estratégia: os consumidores estão a reduzir a velocidade a que circulam.
A gasolina sem chumbo 98, mais cara, é, de acordo com a Direcção-Geral de Energia e Geologia, a mais afectada: em Julho o consumo caiu 18%, enquanto a gasolina sem chumbo 95 desceu 5,4%. Há quase dois anos que o consumo de gasolina cai todos os meses, mas esta é a maior descida dos últimos dez anos. Também as vendas de gasóleo rodoviário desceram 1,5%. A queda é especialmente significativa porque Julho e Agosto são os meses em que, habitualmente, há maior procura de combustíveis. Todos os combustíveis perdem clientes e nem os hipermercados – com postos de abastecimento a preços mais reduzidos – escapam à descida. De acordo com dados da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), registaram-se “quebras de 5,1% no número de abastecimentos e de 6,8% no volume médio por abastecimento, que desceu para os 22,53 litros”.
Os portugueses também circulam cada vez menos nas auto-estradas. Entre 2008 e 2009 as despesas com portagens ainda subiram 1,9%. Mas, em 2010, a tendência inverteu-se: os automobilistas gastaram menos 0,7% – no total, pagaram 732 milhões de euros. De acordo com o Instituto de Infra-estruturas Rodoviárias (InIR), a circulação na rede nacional de auto-estradas caiu 10,5% entre o primeiro semestre de 2010 e o de 2011. E foi na região Norte Litoral que a quebra mais se sentiu, com decréscimos superiores a 40% nas auto-estradas onde foram introduzidas portagens a 15 de Outubro de 2010 (as antigas SCUT). Já nos acessos a Lisboa, o número de veículos diminuiu, em média, 4,75% (contando com os acessos pela Ponte 25 de Abril, Ponte Vasco da Gama, A5 e A8). No Porto, com a introdução das portagens, o tráfego desceu 10% no corredor Litoral Norte e 21% no corredor Litoral Sul.
Isto significa que os portugueses estão a usar cada vez mais os transportes públicos? Até certo ponto, sim. De acordo com uma sondagem da Universidade Católica, divulgada em Abril, no último ano o número de pessoas que passou a usar menos vezes o carro no dia-a-dia aumentou 21% e o número de utilizadores de transportes públicos cresceu 15%. Nos primeiros seis meses de 2010, a Fertagus, que faz as deslocações de comboio Lisboa-Setúbal, teve uma subida de 2,9% no número de passes vendidos – mais 280 mil, para 10,1 milhões. Foi a primeira vez que a empresa ultrapassou a fasquia dos 10 milhões de passes mensais em apenas meio ano.
Mas, este ano, começa a notar-se uma perda de mobilidade: o carro continua a ficar em casa e os transportes públicos ou não crescem, ou crescem pouco. No Metro de Lisboa o número de passageiros subiu 2,5% entre 2008 e 2010 mas, nos primeiros sete meses de 2011, a empresa perdeu 0,1% dos passageiros. Ao nível dos passes mensais “tem havido transferência de aquisição de passes mais caros para passes mais baratos, com relevo para o passe Metro – entre 2008 e 2010, houve um aumento de 15% nos passes exclusivo Metro”, explica fonte oficial. No primeiro semestre deste ano, a compra desses passes, que apenas permitem viajar no Metropolitano de Lisboa, cresceu 11% em relação ao mesmo período do ano passado. A empresa destaca outra tendência que pode estar relacionada com a crise: “a compra dos títulos ocasionais registou um ligeiro decréscimo, situação que poderá decorrer da diminuição de viagens de lazer (cinema, teatro, etc)”.
Já a Carris ganhou 504.569 passageiros (+0,4%) nos primeiros sete meses do ano e a Fertagus subiu 0,1%, mais 189 mil passageiros. Na Transtejo houve uma quebra de mais de 2%, mas o número de passageiros até subiu nas horas de ponta – entre 2% a 4%. O problema são as horas de menor tráfego, que registaram quedas superiores a 10%. Explicação: talvez os portugueses gastam menos dinheiro nos tempos livres.
Fora dos grandes centros urbanos as quedas são maiores, o que pode indicar uma redução das viagens de fim-de- -semana e em passeio. A Rodoviária do Alentejo perdeu 24,5% de passageiros (quase um milhão de pessoas), a Frota Azul Algarve perdeu 10,2%, a EVA (que faz deslocações em várias zonas do país), caiu 3,9% e o grupo Barraqueiro teve menos 1,7% de passageiros. Os especialistas avançam com uma explicação: no início das crises, ou quando estas são menos graves, os consumidores começam a trocar o carro pelos transportes públicos. Depois, acabam por perder mobilidade, em primeiro lugar porque o desemprego aumenta e, depois, porque reduzem as viagens de lazer.
Os táxis são outro dos sectores mais prejudicados: a Federação Nacional do Táxi avança com reduções de 40% na procura em Lisboa, e de 10% no Porto.
As vendas de automóveis acompanham a tendência. O ano de 2009 foi um dos piores do sector, em 2010 houve alguma recuperação, com 223.464 veículos vendidos, mas em 2011 as vendas estão de novo a descer. E muito.
Os bons resultados de 2010 têm uma explicação: houve uma antecipação na procura, em virtude da extinção do Programa de Incentivos ao Abate de Veículos em Fim de Vida e do agravamento de impostos. Mas 2011, se as previsões se confirmarem, será ainda pior que 2009, até agora o ano com resultados mais negativos desde que o sector foi liberalizado, em 1988. Ainda não houve um único mês em que o mercado não caísse: Setembro foi o nono mês consecutivo de quebras – as vendas caíram 23,7%. E a tendência é descendente.
Para a ACAP há outro factor que está a penalizar as vendas: as taxas de juro do crédito ao consumo estão a subir desde 2010, daí as maiores descidas serem no mercado de particulares. Em termos acumulados, nos primeiros nove meses de 2011 venderam-me menos 23,5% automóveis que em 2010. Desta vez, nem os carros de luxo escapam: a Porsche cai 37%, a Jaguar 62% e a Ferrari 31%.

Peso dos créditos bancários tornou-se insuportável para muitos

O empréstimo à habitação está a tornar-se um fardo cada vez mais pesado para os portugueses. Desde 2007 que o número de casas entregues aos bancos subiu 350%, apenas nas seis maiores instituições nacionais. No final de Junho, os bancos tinham mais de três mil milhões de euros em imóveis entregues por falta de pagamento, mais 10% do que no primeiro semestre de 2010. Os dados vêm dos relatórios semestrais dos bancos e coincidem com as últimas conclusões da APEMIP – Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal: nos primeiros seis meses de 2011 foram entregue 3060 imóveis. Só em Junho foram entregues 600 casas.
A entrega de imóveis continua a ser um “fenómeno transversal ao território nacional, mas naturalmente concentrado nas áreas metropolitanas e grandes centros urbanos”, lê-se no boletim da associação. Lisboa e Porto concentram quase 50% das entregas de casas: 29,9% em Lisboa e 18,8% no Porto. Entre os concelhos mais afectados, apenas Ponta Delgada, Portimão e Loulé não pertencem a estas duas áreas metropolitanas.
A grande concentração do fenómeno nos grandes centros urbanos tem outro motivo: segundo a APEMIP, o arrefecimento do mercado imobiliário afectou todos os que investiram na sua promoção e desenvolvimento, pelo que uma parte dos imóveis provêm de agentes, como os de Alcochete, Ponta Delgada, Vila do Conde e Portimão. Esta realidade traduz-se em, pelo menos, metade da totalidade dos imóveis em causa.
Quanto às transacções imobiliárias, ao longo dos oito primeiros meses do ano foram transaccionados entre 130 a 135 mil imóveis. Em Agosto, este dinamismo situou-se entre os 16.350 e os 16.800 negócios concretizados, mais 3,3% do que em Julho e marcando, pela primeira vez em 2011, dois meses seguidos de expansão imobiliária. Porto e Lisboa concentram 32,2% dos registos, sendo que dos dez municípios mais relevantes, apenas Braga, Coimbra e Leiria não pertencem a estas duas áreas.
“Uma coisa é certa: o mercado não está fácil para quem quer comprar casa. De acordo com o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, em Julho, os empréstimos a particulares tinham caído 0,4% num ano, sendo que os direccionados ao consumo cairam 3% e o crédito à habitação manteve-se inalterado, nos 0,0%.”
O crédito está cada vez mais mal-parado: 3,4% dos empréstimos concedidos a particulares no segundo trimestre do ano encontravam-se em incumprimento, mais 0,2% do que no período homólogo. Mais: os devedores com crédito vencido já representam 14,3% (mais 0,7% do que nos mesmos meses de 2010). Destes, 5,5% provêm do crédito à habitação e 15,9% chegam do crédito ao consumo, mais 0,9% em relação ao ano passado.
Além das restrições no acesso a crédito, os bancos estão a atribuir valores cada vez mais baixos às casas – desde 2003 que os valores não desciam tanto como em Julho deste ano: o custo médio do metro quadrado foi de 1114 euros, menos 4,1% do que no período homólogo. Este valor representa uma variação em cadeia de menos 2,8%, segundo o Inquérito à Avaliação Bancária na Habitação, publicado pelo INE. O instituto verificou variações negativas em todas as regiões do país, exceptuando nos Açores. Lisboa e Alentejo foram as regiões mais castigadas. Na capital, o preço por metro quadrado chegou a baixar 18 euros em apenas um mês (de Junho para Julho), fixando-se em 1351 euros.
Mas as despesas com a casa não descem só ao nível do crédito: os portugueses já gastam mais energia nos transportes do que com a habitação, segundo o INE. O terceiro inquérito ao consumo no sector doméstico revela que o consumo de energia nos transportes individuais representa agora 51% do total, um valor superior ao do consumo no alojamento. Em casa, a electricidade é a principal fonte de energia utilizada, representando 44,1% do total. Entre 2007 e 2008, a EDP sentiu uma quebra nos consumos, que passaram de um total de 13,248 mil milhões de quilowatt-hora (kwH) em 2007, para 12,817 mil milhões em 2008, tendo entretanto recuperado e chegado aos 13,852 mil milhões de kwh em 2010.
Nos primeiros seis meses de 2011, o consumo de gás natural manteve a tendência de crescimento que tem mostrado nos últimos tempos, ao subir 11,3%, em comparação com o período homólogo. Segundo o boletim publicado pela DGEG – Direcção Geral da Energia e Geologia, esta evolução deve-se fundamentalmente ao sector de produção de energia eléctrica, que aumentou 20,2%, devido à entrada em funcionamento das novas CCGTs (Turbinas de Gás de Ciclo Combinado) e ao facto de 2011 não estar a ser um ano tão hídrico como 2010.
É no entanto natural que o aumento do IVA na electricidade e no gás a partir de Outubro tenha forte impacto nos consumos. Em média, os portugueses gastavam 52,02 euros em luz e 25 euros em gás, cerca de 70 euros mensais. Para o mesmo consumo a factura saltará para 81 euros por mês.

Com mais dívidas e mais avessos ao risco

Compram menos carros, mas têm cada vez mais dívidas. Quem pede ajuda ao Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS), da DECO – Associação Portuguesa Para a Defesa dos Consumidores, são, sobretudo, membros de agregados familiares que perderam o emprego, contraíram em média cinco créditos, ganham entre 500 e 1000 euros e muitos chegam ao ponto de terem de se declarar insolventes. Entre 2008 e 30 de Setembro de 2011 recorreram ao GAS 10.921 pessoas com processos de multi-endividamento.
Os primeiros nove meses do ano conseguiram bater o recorde de 2010, ano que terminou com 2837 processos no gabinete da DECO. Até 30 de Setembro deste ano, já tinham dado entrada 3238 papéis. O desemprego e a doença são os motivos que mais contribuem para as situações limite. Em 2008, o primeiro foi a principal causa (40,3%) de sobreendividamento, bem como em 2009 (33,6%) e em 2010 (32,4%). Até 30 de Setembro de 2011, o desemprego representava 31,6% das causas de sobreendividamento. A doença foi responsável por 19,8% dos processos de 2008, por 19,7% dos de 2009 e por 21,1% dos de 2010. Nos primeiros nove meses do ano, o segundo lugar coube à deterioração das condições laborais (20,2%), como os cortes salariais na Função Pública.
No ano em que rebentou a crise, a maior parte dos sobreendividados (42,4%) recebia entre 500 e 1000 euros. Nos anos seguintes, a ordem repetiu-se, mas começaram a aparecer menos indivíduos com salários entre 500 e 1000 euros e mais das categorias superiores. Em 2010, apenas 32,7% recebiam entre 500 e 1000 euros, 29,5% chegavam aos 1500 euros e 11,9% ganhavam até 2500 euros. Até ao final de Setembro, cerca de 49,6% dos sobreendividados tinham contraído entre um a três créditos e 38,8% tinham até sete dívidas.
As más notícias não ficam por aqui. Nos primeiros seis meses do ano as famílias superaram as empresas no que toca à abertura dos processos de insolvência. Os dados chegam da Direcção-Geral de Política de Justiça e informam que 2.425 famílias foram decretadas insolventes pelos tribunais no primeiro semestre do ano. Este número representa 52,4% do total dos processos, que inclui também as empresas. Comparando os números do segundo trimestre de 2007 com os do mesmo período de 2011, é possível concluir que houve um aumento significativo, de 19,3% para 54,7%.
No geral, a sociedade está mais preocupada em resolver as suas situações de incumprimento e mais cautelosa em relação às poupanças. Os depósitos a prazo têm vindo a ganhar subscritores. Segundo os dados de Setembro do Banco de Portugal, as famílias atingiram um novo máximo histórico, tendo depositado junto dos bancos nacionais 126,9 mil milhões de euros, o que juntamente com as empresas (30,7 mil milhões de euros) corresponde a 91,2% do PIB. A evolução das taxas de juro, cuja média já atinge os 3,82%, tem contribuído para a preferência dos portugueses por este tipo de aforro.
Por outro lado, desde 2008 que o valor médio por cada subscrição dos certificados de aforro está a cair. De 3261 euros em 2008, passou para 2556 euros em 2009, 2188 euros em 2010 e 1616 euros no primeiro semestre deste ano. São cada vez menos os que subscrevem este produto: se em 2008 houve 228,7 mil subscrições, em 2010 já foram apenas 93.183 e no primeiro semestre de 2011 não se chega sequer aos 27 mil.
Já os certificados do tesouro, lançados em Julho de 2010, captaram a atenção de 43.866 pessoas, sendo que o valor médio por subscrição ronda os 15,6 mil euros. Na primeira metade deste ano, 6447 já resgataram o seu dinheiro, diminuindo as subscrições para 39.961 e aumentando o valor médio para 18.067 euros.
Nem os fundos de investimento escaparam à cautela dos portugueses. Entre o final de 2007 e o de 2008, foram resgatados 19,279 mil milhões de euros, segundo os dados da APFIPP – Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios. As subscrições chegaram apenas aos 10,58 mil milhões de euros, ou seja, houve mais 8,69 mil milhões de resgates do que subscrições. Em 2009, o pânico acalmou um pouco, mas em 2010 a confiança neste tipo de investimento voltou a descer, com os resgates a ultrapassarem novamente o número de subscrições anuais. No primeiro semestre de 2011, os portugueses continuam cautelosos e já resgataram mais dinheiro do que aquele que subscreveram: mais cerca de 3 mil milhões de subscrições contra 4,39 mil milhões em levantamentos.

Mais cautelosos mas sem deixar de fazer férias

Apenas 4,9% dos portugueses afirmaram não ter férias este ano, enquanto que 5,3% resolveram optar por locais mais próximos de casa, 6,9% por sítios mais baratos e 11% por não viajarem para o estrangeiro. As conclusões são do estudo “Férias Fora de Casa”, realizado pela Marktest, entre 2 e 11 Maio a 400 cidadãos com mais de 25 anos e residentes em Portugal continental, para o Hotéis.com, sítio online de reservas. É a quarta vez que a Marktest elabora este estudo para avaliar como a crise financeira afecta as escolhas dos portugueses. Os resultados mantêm- -se na mesma linha de 2010: cerca de 38% dos inquiridos não vão alterar as férias por causa da situação económica do país e, dos 61,5% que vão adaptar os seus planos de férias, a maioria (70,6%) têm entre 45 e 54 anos. 30% afirmam que as suas férias vão ser mais curtas. A tendência para fazer férias no estrangeiro, pelo menos uma vez por ano, mantém-se (34,2%), sendo que 13% revelam querer fazê-lo com mais frequência.
De acordo com os dados que a Marktest recolheu junto de 1493 portugueses, mais de 15% admitiram gastar menos este ano, comparativamente a 2010.
Desde que a crise começou, 2011 foi o ano em que houve mais alterações na procura de destinos de férias, segundo a APAVT – Associação Portuguesa de Agências de Viagem e Turismo. Esta tendência já era visível nos anos anteriores e, apesar de a associação não conseguir quantificar estes dados, revela que existe, sobretudo, uma maior procura por destinos nacionais e de proximidade. Destinos como México, República Dominicana, Cuba ou Jamaica são alguns dos que têm sofrido quebras na casa dos dois dígitos. As férias mais tradicionais, como as do Nordeste brasileiro, também têm diminuído nos últimos anos. Desde 2005 que a tendência tem sido decrescente, com casos pontuais de recuperação, como Ceará e Bahia, em 2010. A quebra justifica-se por alguma saturação do destino e pela valorização da moeda brasileira, o real.
Por outro lado, Cabo Verde tem sido uma das opções “estrela” da operação turística portuguesa, com uma procura que cresceu acima dos dois dígitos, sobretudo na Ilha da Boavista. O Egipto e a Tunísia sofreram os efeitos da instabilidade política que viveram no início do ano, pelo que a quebra não se pode atribuir a causas exclusivamente económicas. Depois de alguma quebra na Madeira, após as enxurradas de Fevereiro do ano passado, a ilha tem vindo a recuperar, tal como os Açores. Acentuaram-se duas tendências: a opção pelas classes mais económicas para o mesmo destino e a compra feita em cima da hora, reflectindo maior ponderação e expectativa de conseguir promoções de última hora.

Falam menos ao telemóvel, vão menos ao cinema e mais aos museus

Os gastos com telemóveis não escapam à crise. De acordo com dados da Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM), no final do primeiro trimestre de 2011 “foi a primeira vez nos últimos seis anos que se registou uma diminuição no número de cartões de telemóvel activos”. Eram na altura 16,45 milhões, menos 0,1% que no trimestre anterior. E mesmo os cartões activos foram menos usados – só em 80,6% dos casos houve utilização efectiva, menos 1,3% do que no final de 2010.
Os planos de assinaturas são os mais afectados: o número de planos pós-pagos (em que é mais difícil controlar os gastos) caiu 6,4% face ao trimestre anterior e 10,7% em relação ao período homólogo. “Com excepção das chamadas intra-rede, todos os restantes tipos de chamada registaram quedas”. O barómetro de telecomunicações da Marktest confirma esta tendência: as despesas com telemóveis estão a descer desde 2008 – o gasto médio mensal está nos 17 euros, o valor mais baixo de sempre, que representa uma queda de 6 euros em pouco mais de três anos.
A compra de telemóveis também desceu. De acordo com o estudo IDC European Mobile Phone Tracker, no primeiro trimestre deste ano foram vendidos 1,1 milhões de telemóveis, menos 8% do que no mesmo período do ano anterior. No total, as vendas foram de 11 milhões de euros, uma queda de 28%. O estudo defende que esta descida pode estar relacionada com a perda de poder de compra dos portugueses. As vendas de telemóveis tradicionais desceram 12% e as de smartphones caíram 18% (no último trimestre de 2010 tinham subido 110%) – os consumidores estão a optar pelas versões mais baratas, com sistemas operativos android comercializados pela Optimus, TMN e Vodafone.
A televisão é outra das despesas em que os portugueses estão a cortar. No início de 2010, 48,5% dos assinantes da ZON aderiam aos canais Premium. Mas, entre Janeiro e Junho de 2011, este valor caiu 6,9%. A SportTv foi o canal com mais desistências. É também o mais caro – custa 25,62 euros por mês. Mas também houve perdas de assinantes no serviço normal. No final de 2010 havia 1,44 milhões de assinantes do serviço de distribuição de televisão por cabo, menos 14 mil do que um ano antes.
Não é só em casa que os portugueses têm vindo a retrair-se. Nos primeiros nove meses do ano, as salas de cinema tiveram apenas 11,64 milhões de espectadores, menos 7,1% do que no período homólogo. Contudo os meses de Abril, Maio e Junho registaram mais idas ao cinema do que no período passado, o que, ainda assim, não foi suficiente para equilibrar as contas. A Zon Lusomundo foi o exibidor que teve mais espectadores, cerca de 56,4%, seguido da Socorama, 18,2% e da UCI – Cinema International Corporation, com 12,1%. Quanto aos distribuidores, a Zon continua na liderança (48,6%), a Columbia Tristar Warner fica em segundo lugar (30,5%) e a Castello Lopes Multimédia em terceiro (12,1%).
Desde o ano em que a crise financeira rebentou que há mais visitas aos museus. Segundo dados do IMC~Instituto dos Museus e Conservação, o número de visitas gratuitas nos museus e palácios na sua tutela aumentou 5,2% no primeiro semestre de 2011 em relação ao período homólogo. Só entre Junho e Julhos, nos dias em que a entrada é gratuita, passaram pelos museus 186.841 visitantes, um fatia das 1,2 milhões de entradas registadas entre pagas, gratuitas e com descontos. No geral, o número de visitantes subiu de 1,12 milhões para 1,20 milhões, ou seja, uma subida de 6,7%. O relatório afirma que o público com entrada gratuita “dominante em 2010 continua a ser a parcela mais importante no número global de visitantes”.
No que toca aos espectáculos ao vivo, a tendência de crescimento que se sentia entre 2005 e 2008 parou em 2009. Segundo o INE, passou-se de 4,4 milhões de bilhetes vendidos em 2008 para 4,1 milhões em 2009.

Medicamentos caiem 10%

Os dados da consultora IMS Health revelam que, entre Setembro de 2010 e Agosto de 2011, o número de embalagens de medicamentos vendidas às farmácias baixou 13 milhões. Os dados da Associação Nacional de Farmácias permitem perceber onde se corta: a compra de fármacos sujeitos a receita médica subiu 0,5% em número de embalagens (o valor gasto caiu 10,9%), mas desceu 3,4% no caso dos medicamentos que não precisam de prescrição (ainda assim os portugueses gastaram +0,8%). Não é inédito: em 2010 a procura de medicamentos não sujeitos a receita médica já tinha caído 3,7%, diz a ANF. O que pode indicar um corte, em primeiro lugar, nos medicamentos para problemas menos graves.
De acordo com o barómetro BOP Healt “Os portugueses e a saúde”, desenvolvido pela Spirituc-Investigação Aplicada, em parceria com a consultora Guess What PR e o Grupo Havas Media, o consumo de genéricos está a aumentar. No primeiro semestre de 2011, quase 85% da população adulta tinha experimentado este tipo de medicamento, um crescimento de quase 20% face ao mesmo período de 2010. A quota de mercado dos genéricos está nos 21,34%, contra os 15,93% que tinham em 2009 e os 18,33% registados em 2010. Já os gastos desceram – mas, aqui, a principal causa é a descida dos preços (caíram de 14,72 euros em 2010 para 11,10 euros em 2011).
Os ajustamentos vão continuar: mais de 4 milhões de portugueses com mais de 18 anos (51%) admitem que terão de fazer cortes no orçamento e 14,5% dizem mesmo que vão ser obrigados a deixar de comprar todos os medicamentos de que precisam. O controlo das despesas já começou e vai ser mais acentuado: o número de portugueses que admite fazer cortes aumentou 8% no primeiro semestre de 2011 – antes disso, apenas 4,5% dos portugueses diziam ter que comprar menos remédios do que precisavam. A forma de pagamento também mudou: as farmácias estimam que o número de clientes que recorre ao crédito esteja a subir na ordem dos 25% a 30%.
Mas há excepções: o consumo de antidepressivos aumentou 9% no primeiro trimestre de 2011 (face ao último trimestre de 2010). No total, mais de um quinto destes medicamentos são receitados a idosos – aqui, a solidão parece ser a principal causa. Mas a crise também está a contribuir para esta subida, até porque a faixa etária que mais consome estes medicamentos tem entre 40 e 45 anos – entre Setembro de 2009 e Setembro de 2010, houve uma subida total de 17% nos gastos com antidepressivos.
Por outro lado, as famílias estão a vacinar menos os filhos contra a bactéria Streptococcus pneumoniae, uma das causas da pneumonia, meningite, otite média aguda ou sinusite. E a crise pode ser um dos principais factores: cada dose custa 75 euros e a imunização total 300 euros (são quatro doses). De acordo com a Sociedade Portuguesa de Pediatria, a taxa de imunização baixou de 80% para 60%.
As despesas com a saúde não descem apenas ao nível dos medicamentos. Também os ginásios estão a perder clientes, assegura a Associação de Ginásios de Portugal (AGAP). No último ano o sector teve uma quebra de 14% no volume de negócios. Por isso, há 200 a 300 clubes (20% do total) em risco de fechar este ano. “Portugal apresenta uma das baixas taxas de penetração de fitness na Europa, 5,6%” – a taxa média europeia está nos 7,9%. Até ao final de 2010 houve 60 mil pessoas (10% do total) a abandonar a prática de actividade física em ginásios. E as que continuaram gastam menos: o valor das mensalidades caiu 14%, há nichos de mercado a perder 30% e funcionários com ordenados reduzidos em 10%.
Para responder às quebras, os ginásios estão a adoptar estratégias mais agressivas: adesões sem pagamento ou com custo simbólico, mensalidades com descontos, excluindo determinados serviços, descontos para famílias numerosas, entre outras. “A recente abertura de ginásios low cost apresenta-se como mais uma tentativa de prestação de serviços com o mínimo de colaboradores a preço reduzido”, adianta a AGAP.

Mais crianças no ensino público. Mais contenção nas roupas

A tendência de poupança estende- se a despesas como a educação: apesar de ainda não haver números para este ano, os colégios privados têm perdido clientes. A “procura excepcional de matrículas” e as “dificuldades sentidas pelas famílias, escolas e agrupamentos de escolas na colocação de alunos” justificaram uma nova medida do Governo – aumentar o número máximo de alunos por turma no ensino básico de 24 para 26.
De acordo com a Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) a situação é mais complicada na Grande Lisboa, com muitas escolas públicas completamente cheias e sem capacidade para acolher mais alunos. Na Escola Pedro Nunes, por exemplo, a percentagem de alunos que vieram do privado subiu 9% face às matrículas de 2010. E a Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP) garante que os estabelecimentos de ensino particular dispensaram centenas de docentes. Os colégios de topo continuam sem problemas, mas nos mais pequenos a saída de alunos tem aumentado.
O mercado de vestuário também apresentou quebras no primeiro semestre de 2011. Quase metade dos portugueses (47%) não compraram roupa nos primeiros seis meses do ano, à conta da contenção nas despesas. Os dados vêm de um estudo da Kantar Worldpanel, que indica que as compras de roupa em Portugal caíram 1,3% em volume entre Janeiro e Junho. Compra-se menos, mas quando se compra, faz-se em maior quantidade, aproveitando as promoções. A novidade das vendas pela internet representa 1% do valor total do mercado, sendo que, no grande consumo, há menos portugueses a ir às compras aos centros comerciais, segundo o estudo. As visitas caíram 8,8% em 2011 face ao ano passado e 20% face a 2007.
O mesmo tipo de alteração do consumo também ocorre em mercados como o do tabaco – segundos dados da Direcção- Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo, a introdução de tabaco de enrolar no mercado nacional, um produto mais barato, passou de 158 toneladas, em 2009, para 312, em 2010 – praticamente o dobro.

Imigrantes fazem as malas

No final de 2010, existiam cerca de 445 mil cidadãos estrangeiros em território nacional, menos 1,97% do que em 2009. A tendência contraria o crescimento dos últimos anos, mas as nacionalidades mais representativas mantêm-se: Brasil, Ucrânia, Cabo Verde, Roménia, Angola e Guiné- -Bissau. Os dados vêm do Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo de 2010, publicado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
Os brasileiros continuam a ser a maior população estrangeira no país, atingindo um total de 119.363 residentes e mantendo a tendência de crescimento que ocorre desde o início do século. A Ucrânia é a segunda comunidade mais representativa, com cerca de 49,5 mil indivíduos. Seguem-se os cabo-verdianos, que são quase 44 mil (43.979), os 3830 romenos, os 23.494 angolanos e os 19.917 cidadãos que vêm de Guiné-Bissau.
Em 2010, o Estado recusou 2068 entradas em Portugal, menos 19,34% do que no ano anterior. Beneficiaram do programa de apoio ao retorno voluntário 559 cidadãos estrangeiros, mais 4,7% do que em 2009, sendo o Brasil o país que mais cativa os seus emigrantes. Seguem-se Angola, Cabo Verde, Ucrânia e São Tomé e Príncipe. Quase 32,5 mil pessoas pediram a nacionalidade portuguesa. Destacam-se os PALOP e algumas nacionalidades de Leste, como a Moldávia e a Ucrânia.
A população estrangeira continua a concentrar-se na zona litoral, com destaque para os distritos de Lisboa (189.220), Faro (71.818) e Setúbal (47.935), coincidindo com as áreas onde se concentra parte significativa da actividade económica nacional (69,39% do total do país).
Só nestas três zonas, residem 308.974 cidadãos estrangeiros. O decréscimo nestes distritos face a 2009 também foi maior. Em 2011, vivem menos 3,26% de imigrantes em Lisboa, Faro e Setúbal. No distrito do Porto, vivem 27.112 estrangeiros, em Leiria, 17.031, em Santarém 14.460 e em Aveiro 14.050.
Os estrangeiros que vivem em Portugal em idade activa representam 85,47% da população. Cerca de 10,21%, têm entre 0 e 14 anos, o que os especialistas vêm como um aspecto a considerar na perspectiva do crescimento demográfico.
Em 2010, o SEF registou 50,7 mil emissões de primeiros títulos de residência, menos 17,41% do que em 2009. Estas atribuições foram mais representativas nas comunidades brasileira, romena e cabo-verdiana. A última alteração à lei da nacionalidade, a crise económica e financeira que Portugal enfrenta, bem como a redução do investimento e emprego e a alteração dos processos migratórios em alguns países de origem, como o Brasil e Angola, têm sido os motivos que levaram à “fuga” dos imigrantes.