Maria do Carmo Vieira O Ensino do Português
   

O Ensino do Português

de Maria do Carmo Vieira

Maria do Carmo Vieira questiona a pedagogia actualmente aplicada no país. Ler mais

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Pingo Doce, Continente e El Corte Inglês.

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O Ensino do Português

de Maria do Carmo Vieira

Em "O Ensino do Português", salienta-se a existência de uma certa pedagogia encarada como inovadora, mas que, na verdade, se baseia na aplicação de teorias da educação ultrapassadas. Instalada oficialmente no ensino, desde 2003, reflectiu-se nos curricula, fomentando de forma leviana a rivalidade entre "velho" (o que não é bem-vindo e não tem carácter lúdico) e "novo" (o que é privilegiado por ser recreativo), com a consequente alteração de vocabulário e de valores que caracterizam a "mudança" instituída e a validam acriticamente como certa. Assim, exigência, força de vontade, desejo de ultrapassar a dificuldade, de compreender e de saber foram substituídos em bloco pela convivência com a facilidade e o sucesso garantido, mais não visando que a obtenção de metas estatísticas. Esta situação atingiu todas as matérias escolares, em particular a disciplina de Português, na qual se privilegiam insensatamente o texto informativo e o texto utilitário, bem como a linguística descritiva e tecnicista, em detrimento da literatura e da gramática normativa, respectivamente.
Não podem os professores, em cuja competência os alunos depositam confiança, permitir que o ensino continue refém dos ditames de "especialistas da educação", cujas teorias conduziram, na prática, à degradação da Escola Pública.

Uma edição FFMS e Relógio d'Água.

Edição de 2010

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Maria do Carmo Vieira

 

Maria do Carmo Vieira nasceu em Lisboa em 1952. É licenciada em Filologia Românica e mestre em Literatura de Viagens e professora do Ensino Secundário. Coordenou, com Rui Mário Gonçalves, a publicação de Passo e Fico como o Universo, um livro de pintura de influência pessoana. É também autora de Sobre Fernando Pessoa – Drama em Gente e Percurso Pessoano por Lisboa e de A Arte, Mestra da Vida. Coordenou a fixação do texto de Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente de Fr. João dos Santos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999). Tem publicado, em jornais diários e semanários, inúmeros artigos sobre o ensino do Português. 

 

Como avalia a sua carreira de professora?

Não penso um professor em termos de carreira, mas de vocação. Uma vocação que, no meu caso, enquanto professora de Português, se obstina em dar a conhecer a obra daqueles que o tempo demonstrou imortais, propiciando aos alunos uma experiência, a sua própria experiência perante um texto belo, que, de forma mais ou menos perceptível, os pode marcar, e mesmo abalar, no sentido de uma descoberta benéfica que terá certamente influência no seu futuro. Essa é a grande alegria de qualquer professor, a de acreditar que pode ser útil aos seus alunos.

Num país onde o analfabetismo já é uma minoria, porque não se lê?

Creio que se lê em quantidade, mas não em qualidade, situação que, a meu ver, decorre do facto de diariamente se abater sobre as pessoas uma avalancha de estímulos, que as seduz para o que é leve, rápido e fácil de entender, aliviando-as de qualquer intervenção crítica. É evidente que da convivência contínua com a mediocridade não advirá nada de bom, e assim se habitua e treina o espírito na preguiça de pensar, convidando-se ao consumo de leituras fáceis e estéreis de êxito garantido.

 

Escrever ensaios que não se dirigem a especialistas mas a todos os que desejam ser informados – um grande desafio?

Especialistas, progresso técnico ou mudança são vocábulos que caracterizam o tempo actual e que ardilosamente nos pretendem confundir, para mais facilmente se imporem como imprescindíveis. Daí a importância de pensar pela nossa própria cabeça, partilhando de vozes que nos são exemplo e não descurando o estudo; de ter consciência crítica relativamente ao desenfreado avanço tecnológico que também escraviza ou de recusar a mudança só pela mudança, o novo só pelo novo. Surgem, pois, estes ensaios como um meio de não nos isolarmos, envolvendo-nos com os outros num gratificante diálogo reflexivo.