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in Expresso
28.06.2011
As escolas desistiram de ensinar português?
Às vezes, a realidade é demasiado alucinada. Às vezes, nós lemos e ouvimos uma coisa, mas fingimos que não ouvimos nada. Há dias, a grande Maria do Carmo Vieira escreveu um artigo no Público. Dizia assim: "... em 2002 (e, agora, em 2011), peritos e militantes da nova ideologia pedagógica, incluindo a Associação de Professores de Português, acusaram a literatura de prejudicar o estudo da língua e impedir o trabalho com a oralidade, defendendo, com intransigência, o desaparecimento da literatura dos programas e a exclusividade de textos utilitários e informativos" . Bom, perante isto, uma pessoa não acredita à primeira. Tem de reler para confirmar. E, depois da segunda leitura, só há uma coisa a dizer: esta gente devia ser banida das escolas. A associação de professores da língua portuguesa está a dizer que os escritores da língua portuguesa são um empecilho às aulas de português. Caramba, isto é um episódio dos Monty Python no meio da realidade. Isto é a realidade transformada numa comédia do absurdo.
Como se isto não fosse suficiente, parece que os testes passaram a ser de cruzinhas. Parece que o ato de ler e o ato de escrever estão a ser banidos das aulas de português. Estas pedagogias pós-moderninhas da treta estão a criar pessoas sem a capacidade de pensar, sem a capacidade de imaginar coisas além daquilo que veem na TV. Não por acaso, estes pedagogos pós-moderninhos impõem os Morangos com Açúcar como assunto de estudo nas aulas de português. Romances? Não. Telenovelas juvenis é que é. Poesia de Camões? Não, isso da linguagem simbólica é muito puxado. Aparição? É, pá, não, porque as crianças ainda ficavam traumatizadas com o assassínio da galinha.
No meio disto tudo, a esperança é só uma: os verdadeiros professores de português não se revêem nesta posição da excelsa Associação de Professores de Português. Ou será que a nova vaga de professores olha para Maria do Carmo Vieira com desdém? Digam-me que não.
Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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in Jornal de Letras
08.09.2010
Contra o absurdo: o cânone de Vieira
Na nossa edição de 2/15 de junho fizemos uma pré-publicação de O Ensino do Português, da nossa colaboradora Maria do Carmo Vieira (MCV), que entrevistamos a seu propósito - primeiro livro da Coleção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, posto à venda com a edição seguinte do JL. A matéria, do maior interesse, que aliás MCV começou a tratar nestas colunas, naturalmente suscita controvérsia e impõe debate.
Assim, publicamos um texto de análise aprofundada a essa obra e às teses que sustenta, de João Santos, também professor do Ensino Secundário e doutorando em Sociologia da Educação, que conclui tratar-se de "um livro de que apetece gostar, pelo impulso, justo, que move a autora, mas que se perde na vontade de emular ilustres antecessores na crítica dessa nova categoria sociolinguística que tantas boas almas ocupa desde finais dos anos 90: o 'eduquês'"
João Santos
Perché leggere i classici. Para quê, porquê ler os clássicos? A belíssima lição em que Calvino se explica a este respeito foi publicada no L'Espresso de 28.6.81, com o título Italiani, vi esorto ai classici 1: "Italianos, exorto-vos a ler os clássicos!". Em apenas 14 proposições, o autor de Palomar faz mais do que simplesmente fixar um cânone: ensina a identificar e justifica a importância dos clássicos. E começa por uma definição que pode convir à presente empresa: "Os clássicos são aqueles livros de que se ouve dizer habitualmente: 'Estou a reler...', e nunca 'Estou a ler'
Na verdade, Maria do Carmo Vieira (MCV), como Calvino ou Steiner, crê na indissolubilidade do vínculo entre grande literatura (essa "ocupação de ociosos"2), educação e emancipação. Este é um ponto fundamental, e suficiente para separar, de imediato, por exemplo, aqueles professores que prefeririam ensinar inglês com poemas de Frost, Larkin ou Wallace Stevens dos que recomendariam uma boa dose inicial de confronto com 'a vida real', 'aquilo que verdadeiramente toca as crianças', está próximo do seu 'dia-a-dia'. O que, para algumas almas, só pode ser comunicado por um Eminem qualquer3.
OS ALVOS DA CRÍTICA
Ao fazer a crítica de uma conceção de Escola alheada do conhecimento, do esforço, da excelência, tal como ao rastrear as insuficiências e incoerências do processo de revisão dos programas ou as dificuldades de legitimação da TLEBS, reportandose, longinquamente, à introdução dos procedimentos e nomenclatura da gramática generativa (finais da década de 70 do século passado), a autora d' O Ensino do Português, no seu excesso apaixonado, dá nota de um conjunto de erros e disfunções que seria muito difícil ignorar.
Refiro, não necessariamente por ordem, alguns tópicos com efetiva relevância: declínio acentuado do papel e da função que deveriam estar reservados às disciplinas do eixo das humanidades; generalização de processos de certificação sem pilotagem prudencial efetiva, em detrimento de percursos coerentes de formação; crescente permeabilidade da Escola, via patrocínios, campanhas, parcerias, etc, à mercantilização dos conteúdos e correspondente subordinação das práticas profissionais; ausência de controlo efetivo da qualidade dos manuais escolares e de um travão deontológico aos tandem programa - manual - exame; qualidade muitas vezes questionável da intervenção das autoridades regionais e centrais do Ministério da Educação (ME) junto dos professores, nomeadamente na transmissão de 'inovações sistémicas', com proliferação de pequenos mandarinatos; prioridade equívoca à "máscara triunfante das estatísticas" (pág. 28), à constante publicitação de resultados', em detrimento da exigência, hoje sobretudo visível nas metas prime-time que exibem o milhão de portugueses adultos em percursos de certificação de competências.
A CONSTRUÇÃO DO ARGUMENTO
Porém, MCV argumenta, sobretudo na primeira metade da obra, de forma errática, caótica mesmo, praticando sistematicamente o que qualificaria de amálgama: uma infinidade de premissas que não se encadeiam umas com as outras nem com a conclusão, mas conferem verosimilhança ao conjunto (parece que as coisas se ligam).
É o que observamos na 1ª parte do capítulo de abertura. Conclusão: (logo) «urgia [...] diminuir, no caso da disciplina de Português, a presença da Literatura nos programas, substituindo-a por concursos, telenovelas, publicidade, notícias [...]» ( 24). Premissas: depois de uma referência inicial indispensável ao predomínio de "teorias pedagógicas polémicas, já avaliadas e ultrapassadas", passa pelo privilégio concedido a teses de mestrado em Ciências da Educação "em relação às de qualquer outra área específica de ensino" (para efeitos de progressão na carreira), pela "reforma» de 2003-2004, pela proposta de modificação do título de uma comunicação que pretendeu apresentar num encontro de professores, por declarações de Valter Lemos sobre a relação entre repetência e aproveitamento, por uma referência do Conselho Nacional de Educação à elaboração de "pareceres sobre a educação dos zero aos 12 anos" (o que lhe parece aberrante, mas talvez não a pediatras, profissionais que trabalhem em creches e infantários, pais, etc, etc), pelas propostas de aproveitamento pedagógico da telenovela Morangos com Açúcar (outra aberração, mas esta perpetrada pelo Boletim Público na Escola), e termina na referência a ato de vandalismo praticado por alunos sobre trabalho de colegas, que presenciou, e a que alguém (quem?) supostamente com responsabilidades na Escola terá reagido, declarando: "E aprova de que não houve indiferença pelo trabalho apresentado, mas um gesto diferente de reagir" (cito, pág. 23). Se parece descosida e interminável esta enumeração, é porque corresponde à estratégia discursiva da autora.
UM MUNDO DE INCAPAZES
Além disso, é notória, e merece comentário, a apetência de MCV pelo 'caso', o episódio, o anedótico, pelas situações em que, invariavelmente, os protagonistas dizem tontices ou exibem graciosamente a sua ignorância. É o professor destacado no ME que ilustra, com um lugar-comum do catálogo, a diferença entre o professor tradicional e o professor inovador (pág. 12). É a partição entre professores "apaixonados pela matéria que ensinam" e "apaixonados pelo ensino" (aparentemente veiculada pela Associação de Professores de Português (APP), mas de que se obteve conhecimento como se por portas travessas: "Soube-se posteriormente...") (pág. 14).
É o episódio do título da comunicação "Minha pátria é a língua portuguesa", cuja alteração foi sugerida, «por 'ter um cheiro algo salazarento'» ( 16). E o comentário de um colega em referência às particularidades do ensino da língua nos cursos profissionais: "Mas pensas que vais ensinar Fernando Pessoa a estes miúdos?" (pág. 30).
É a ação de formação, "dinamizada pelo ME", em que Fernando Pessoa, "entre sorrisos [,] foi apresentado como 'um maluquinho que criou outros tantos maluquinhos'" (pág. 54). E o caso, na verdade inenarrável, da justificação para a eliminação do tema relativo à II Guerra Mundial do programa de Francês do 12- ano, "justificação que me foi avançada, em conversa com uma colega do ME (24 de julho)" (!). Em resumo, parece que a autora se cruza quase só com idiotas, ignorantes, irresponsáveis ou infelizes mensageiros, que dizem o primeiro disparate que lhes
vem à cabeça, como no episódio de que mais gosto, por ilustrar perfeitamente o cerne do combate cultural de MCV:
'"Quanto melhor linguista, melhor escritor', disse-me, convicto, um colega da Universidade do Minho [...]". A autora ironiza: "Camões, Antero, Cesário ou Pessoa teriam sido melhores escritores se tivessem estudado linguística?" Resposta: "Quem sabe, colega, quem sabe?", (pág. 39).
Enfim, a proliferação dos incidentes assume um ar de coisa normal, habitual, como se tudo à volta fosse um disparate pegado. Se, até sensivelmente metade da obra, é este o registo, daí para a frente é no eixo programas - manuais -orientações que o detalhe aberrante se vai evidenciar. Mas aqui um pouco mais disciplinada pela exploração e problematização dos programas, quando não pela apresentação de bons exemplos.
Mas voltemos ao diálogo com o linguista do Minho. Não é inconcebível que o que se pode aprender no âmbito dos estudos linguísticos nos torne mais competentes, não estilisticamente, não enquanto criadores, não moralmente (para os que consideram que a Literatura é também um empreendimento ético) mas apenas na manipulação dos recursos infinitos da língua, entendida, precisamente, como fenómeno psíquico, aquilo mesmo a que se refere Pessoa/Bernardo Soares na sentença que todos conhecemos4.
Ao contrário, não é de excluir que quem considerou o romance Aparição uma obra a eliminar do cânone por «obriga[r] os jovens a pensar na morte, quando o que desejam é vida» (pág. 59; fonte ?) exista, viva, mesmo que não pense. O problema é que a autora, no emaranhado de exemplos e ocorrências minuciosamente relatadas, perde de vista três ou quatro questões que enuncia, só parcialmente desenvolve, e que, essas sim, merecem ser longa e tranquilamente discutidas.
UM «CÂNONE DE AUTORES»
Uma questão importante é a da autonomia profissional dos professores. Sustenta MCV que se vem reduzindo até ao limite do intolerável. Mas defende também uma perspetiva conhecida e dificilmente compaginável com o trabalho quotidiano na escola, quando não (o que acontece frequentemente) em conflito com obrigações elementares na relação com os outros membros do corpo docente.
É a perspetiva do professor inspirado e criativo, vítima dos "especialistas em didática do Português e outros peritos em Pedagogia", por intermédio dos quais se exibe o perfil do "professor novo" (a execrar) e "se decretou o fim da criatividade na preparação individual das aulas" (pág. 31).
Na verdade, e mais uma vez, se é certo que a autonomia profissional dos professores é hoje muito mais limitada do que há 30 anos, o que também é verdade é que essa autonomia era, e continua a ser, em boa parte, o reverso da ausência de responsabilidade individual e coletiva perante os outros profissionais e os concidadãos, na forma de um conjunto estável, e conhecido, de normas deontológicas - que, infelizmente, continuam por fixar.
Outra questão relevante é, certamente, a da crescente e indiscriminada hipoteca da Escola ao mercado dos recursos didáticos, na verdade incontornável quando se trata de discutir as razões da reprodução em cadeia das 'anomalias' programáticas observadas no Português e noutras disciplinas. A autora dispersa-se pelo ME, pelos especialistas, vota uma atenção especial à APP, e com isto afastase de um alvo que se fixara ao pôr em causa a bondade de asserções como "programas e manuais são duas coisas distintas" ou "os manuais são apenas interpretações dos programas" (pág. 53).
Na verdade, são conhecidas, sobretudo em disciplinas de exame, as supostas versões autênticas, mas resta saber quem alimenta o quê. Como também é conhecido o velho argumento da obsolescência, expendido a respeito dos manuais de ciências, tendo em vista reduzir a duração dos ciclos de adoção.
Também aqui, se há um bom exemplo de que o professor inspirado e solitário não é necessariamente mais livre, é precisamente quando a ligeireza e ausência de reflexão, associadas ao pavor sagrado à burocracia da escolha de manuais, perdem para a 'cerimónia dos croquetes', o marketing agressivo nos corredores das escolas ou a simples força do hábito. Mas a autora parece demasiadamente concentrada no 'inimigo externo'.
A relação entre Literatura e ensino do Português é mais extensa e longamente analisada (prolongando-se pelos capítulos III a V, por ordem inversa dos níveis de ensino). Aqui, MCV é muito clara: o ensino da gramática normativa não é passível de substituição pela TLEBS; todos os aspetos do funcionamento da língua são apreensíveis pelo contacto com o texto literário, mas a inversa não é verdadeira e constitui uma real amputação. Pretender reduzir o ensino da língua ao seu aspecto funcional, é privar irremediavelmente os alunos de algo que só a escola pode proporcionar a muitos deles: o conhecimento dos grandes autores (e também da história da literatura, e também da dimensão estética), "como se um aluno que lesse e interpretasse Luís de Camões, Cesário, Pessoa ou Saramago não soubesse ler, compreender ou elaborar um qualquer texto programático ou informativo" (pág. 47).
Mais: a definição de um "cânone de autores", garantindo aos professores uma margem de liberdade para a selecção de outras obras, é reclamada por MCV, não apenas na perspetiva, há pouco apontada, da "igualdade de oportunidades" (pág. 85) mas também, mais amplamente, na ótica do contacto dos alunos com "um património cultural através do qual [...] realizarão o encontro com outras épocas [...] e outras formas de pensar e ser, familiarizando-se com outras vidas, nas quais muitas vezes se reconhecem a si próprios" (pág. 60).
HISTÓRIA DE VIDA
As questões atrás referidas são importantes e, como se viu, ultrapassam largamente os limites do ensino da língua materna. Onde, porém, me parece mais frágil a abordagem de MCV, descontadas as críticas anteriores, é precisamente o plano da exteriorização de uma história de vida profissional, que se projeta numa tripla idealização. Em primeiro lugar, idealização do aluno (págs. 60-61, entre outras).
Em segundo lugar, idealização da cultura humanística, ou letrada, contra a lição de C. P. Snow, Albert Camus e, antes, Kant (por exemplo, a propósito do terramoto de Lisboa), o Rabelais da famosa carta de Gargântua a Pantagruel, ou, especificamente no capítulo da formação moral, os inesquecíveis exemplos de Alcibíades e Nero, pese embora o evidente fascínio da autora por Séneca e a noção de que o juízo moral se fortalece pela aprendizagem da "História, da Literatura ou da Arte em geral" (págs. 24-25)5. Em terceiro lugar, idealização do professor, que aparece como mentor solitário, presa voluntária da beleza moral da existência, através das obras que contempla e dá a ler (pág. 29, 60-61).
Em síntese, parafraseando a crítica de Mário Jorge Torres ao filme Vão-me buscar alecrim, este é um livro de que apetece gostar, pelo impulso, justo, que move a autora, mas que se perde, quase irremediavelmente, na vontade de emular ilustres antecessores na crítica dessa nova categoria sociolinguística que tantas boas almas ocupa desde finais dos anos 90: o «eduquês»

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