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in OJE
12.04.2011
Quando a riqueza material domina os valores intangíveis
Olhar a economia de um ponto de vista filosófico e menos técnico ou político foi o desafio a que Vítor Bento se predispôs no livro "Economia, Moral e Política", recentemente publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma espécie de "regresso às origens", como afirma o autor no prefácio, na medida em que o estudo da Economia se encontrava fundido nas outras duas disciplinas.
Vítor Bento escreve que "as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento e a sua acção política são aquelas em que é possível criar consensos morais para a acção política", características essas que se encontram ausentes na esfera nacional. O relativismo moral é aquilo que define muitas sociedades na actualidade, nas quais, sem referências morais dada a perda da importância das religiões, as pessoas definem a sua escala de valores de acordo com as suas conveniências.
Dividido em quatro capítulos - o último dos quais dedicado à crise financeira internacional -, o livro fala de excessos e perversidades e de como a erosão dos valores espirituais influenciaram significativamente muitos dos problemas com os quais nos confrontamos na actualidade. Como se pode ler e com o avanço da modernidade" as 'âncoras' religiosas e a sua hierarquia de valores foram gradualmente disputadas e postas em causa, sem que nenhuma alternativa surgisse com suficiente consenso social para preencher o vazio de referências nas sociedades". Daí a ascensão do relativismo moral que remeteu para o foro de cada um a hierarquia de valores intangíveis, desvalorizando o seu papel na orientação dos comportamentos sociais.
Vítor Bento refere também a existência de uma "selecção" produzida nos processos de decisão económica.
"Sendo a acumulação e a ostentação da riqueza o valor dominante no reconhecimento social, quem lhe tentar interpor outros valores nas suas preferências pessoais acaba por obter resultados inferiores naquela acumulação", escreve. Ou seja, será muito mais facilmente afastado dos processos de decisão, "em favor de decisores menos escrupulosos e mais dispostos a subalternizar os valores intangíveis".
Tal afirmação remete logo para as causas da recente crise internacional.
Considerando que esta constitui um bom exemplo das perversidades e dos excessos que são devidamente explicitados num capítulo próprio do livro, o presidente da SIBS junta aos factores financeiros que lhe deram origem causas sociais e económicas, que contribuíram igualmente para a sua eclosão. Argumentando que nesta crise estão presentes todos os sinais típicos de uma "bolha" especulativa, Vítor Bento fala do fenómeno da "loucura colectiva", desencadeado "quando um período de prosperidade funda comportamentos baseados em expectativas adaptativas, acabando por gerar a falsa convicção de que a valorização dos activos [...] é imparável".
No que respeita à culpa, existem níveis de responsabilização distintos, mas reguladores, bancos centrais, gestores e profissionais pouco escrupulosos, teóricos crédulos na infinita capacidade auto-reguladora dos mercados e aqueles que descuraram a gestão macroeconómica podem todos sentar-se no banco dos réus. Claro que os especuladores ou os "apostadores de riscos" têm aqui um lugar privilegiado, na medida em que se aproveitaram da ingenuidade dos cidadãos, mas também assumiram riscos excessivos para as suas capacidades.
Além das causas económico-financeiras, devidamente explicitadas no livro, Vitor Bento retoma a profunda crise de valores que acaba por ser transversal a todo o livro. Elencando as tais "âncoras" que conduziram a uma moralidade de direitos sem obrigação - a maximização do bem material individual imediato, a prevalência do material sobre o intangível, do presente em detrimento do futuro e do individual sobre o comum -, o economista sublinha que o actual quadro de valores (ou a sua ausência) é impossível "com a prossecução duradoura do bem comum de uma comunidade", o que conduz a rupturas de que é exemplo a crise da actualidade. "A insustentável expansão do consumo, do crédito e de endividamento - das famílias, das empresas e dos Estados" - levou a um modo de vida colectivo assente num nível de bem-estar superior aos recursos disponíveis, cujo esgotamento conduziu à crise.
No plano interno e como afirmou recentemente numa entrevista à revista "Visão", Vítor Bento resume a "falta de capacidade de realização [portuguesa]" devido a certos aspectos limitativos com que o país se confronta: "a forma como o Estado está organizado não potencia as capacidades da sociedade, limitando-as até", afirmou. E a sua já famosa frase "o Estado é forte com os fracos e fraco com os fortes" serve de ponto de partida para afirmar que o sistema político vive demasiado centrado em si próprio e nas suas próprias auto-realizações. Ou seja, nada atento ao tão necessário bem comum. -
in Rádio Renascença
30.03.2011
Nem todos os males atribuídos à economia são culpa da economia.
Nem todos os males atribuídos à economia são culpa da Economia. Esta é uma das mensagens que Vitor Bento pretende fazer passar no seu livro “Economia, Moral e Política”, patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que foi hoje apresentado.
O presidente da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS) sustenta que a Economia funciona em cima da moralidade de cada sociedade, que tem os seus próprios valores e comportamentos.
“Basicamente, os comportamentos das pessoas são orientados por escolhas morais e são essas escolhas que todos nós fazemos é que são moralmente orientadas. As escolhas que fazemos no campo da Economia são moralmente orientadas, mas é uma moralidade que é exterior à Economia.”
Vitor Bento considera que todas as sociedades devem funcionar com regras e com árbitros que as façam aplicar e quanto mais fortes forem os seus padrões morais, mais honestas são essas sociedades.
O economista considera que Portugal está muito acima dos piores exemplos de corrupção, mas ainda há muito para melhorar no que toca à honestidade.
No final da cerimónia do lançamento do livro “Economia, Moral e Política”, Vitor Bento escusou-se a mais comentários sobre a situação política e económica do país com o argumento da reunião do Conselho de Estado, em que participa amanhã.
Mas durante a apresentação de “Economia, Moral e Política” Vitor Bento tinha referido não ter dúvidas de que “a situação a que chegámos resulta de erros de gestão política”.
No entanto, considera que “teria sido impossível agir de outra forma, dentro do quadro democrático já que não é fácil implementar o que a sociedade não quer aceitar”.
Aos jornalistas afirmou não querer falar de ninguém em concreto, deixando apenas a “dica” de que se referia a um período alargado, de cerca de 15 anos.

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