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in Jornal de Negócios
28.10.2011
Portugal e o Mar (Psicopátria)
Portugal tem com o mar uma relação imemorial que imediatamente nos transporta para o passado. Esta reacção instintiva leva muitos portugueses associar o mar a tudo, menos ao recurso natural e activo económico que ele essencialmente é." (Tiago Pitta e Cunha, In "Portugal e o Mar", ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos).
É com esta verdade evidente que Tiago Pitta e Cunha (*) abre o seu livro "Portugal e o Mar", uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Este livro, cuja inteligência científica está na forma transversal e integrada como trata a mais-valia do nosso património marítimo, é uma séria prova de como a novela política portuguesa é, de todas as nossas possíveis narrativas, a mais pobre. Muito mais do que viver acima das suas possibilidades, Portugal não vive as suas possibilidades: o mar, "que a par da língua, é um dos maiores activos que Portugal possui", está fora da boca dos nossos líderes, afastado do futuro.
Somos a maior região marítima da União Europeia e uma das maiores do mundo; mas os políticos e os media, saloios serventuários de moral duvidosa, decidiram reduzir o nosso rasgo à sua própria falta de imaginação e capacidade executiva. E, enquanto lá fora a lentidão boçal da Sra. Merkel ou a velocidade frívola do Sr.Sarkozy vão servindo banquetes à finança, cá dentro o tempo passa e dói; o silêncio diletante desta nossa gente vai abrindo o buraco negro para onde se some a matéria de facto, e é nesse vazio político que os mercados operam a sua soberania, mandando nas Finanças. Esta gente, porque não leu coisa nenhuma, não daria com as couves se largados numa horta, nem com o petróleo, se convidados para um qualquer chá num deserto das Arábias.
Ao longo de "Portugal e o Mar", Tiago Pitta e Cunha dignostica primeiro, propõe de seguida. Após uma análise do mar no percurso genético da nossa Lusitânia e de enunciar os pressupostos que explicam a ligação imemorial de Portugal e da Europa ao mar, seguem-se os postulados e as hipóteses de (re)planeamento económico; o mar como forma de estruturar uma estratégia nacional virada para o exterior, sustentada, culta, civilizada, objectiva, específica. Trigo limpo; discutir, precisa-se. Portugal vive uma espécie de psicose televisiva, um estado de afastamento e perda de contacto com a realidade; os ciclos de entusiasmo, a que se seguem sistematicamente os contra-ciclos de depressão, a dificuldade imensa em sustentar a sua auto-estima e vencer a barreira da ignorância e da alienação "latino-americana", combinadas com uns media que desprezam toda e qualquer coisa que os supere, hão-de encontrar o seu fim, nem que seja no esquecimento. Resta saber se, até lá, teremos ou não de abdicar da liberdade, para ficarmos outravez - a sós com as memórias.
"O vento de amanhã, quando soprar, desagregará o tempo presente; a memória da batalha clássica foi-se, a bandeira ser-me-à indiferente. Vim para devolver as cidades aos intoxicados da terra, será nos gabinetes que se ditará a nova Guerra" dizia Rui Reininho, profetizando em "Ao Soldado Desconfiado"; o tema pertence a "Psicopátria", álbum de 1986, porventura o mais lúcido retrato da possível modernidade Portuguesa. A criatividade - como o mar - tem esta vantagem de nos antecipar visões outras, que não a banalidade do "show business" e da contabilidade; boa gestão será decidir contando com o que há-de vir.

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