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in Expresso das Nove
20.01.2011
Estudo e dedicação aos outros
Acabei de ler Autoridade, obra de Miguel Morgado, edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010. Ficam dessa leitura, para já, umas breves notas.
O ensaio de Miguel Morgado (1974-), que merece muitas e outras linhas de apreciação, é, antes de mais, uma obra de divulgação, no sentido em que se dirige a um largo público de não especialistas, está escrita numa linguagem que procura ser directa e sem demasiada opacidade técnica, ao mesmo tempo que actualiza conhecimentos específicos. No campo do ensaio, pertence, creio, à linhagem das colecções Que Sais Je e Pelican, para apenas citar casos bem conhecidos. Esse é um mérito a destacar, especialmente no nosso país tão avesso ao estudo e à dedicação aos outros.
Porque é habitual se confundir autoridade com poder e uso da força, ou autoridade com autoritarismo, ou alargar em demasia o seu campo semântico, o professor de Estudos Políticos da Universidade Católica opta por tentar mostrar "o que a autoridade não é". Se, como diz, "a autoridade é um fenómeno eminentemente político", nada melhor então do que estudar "a negação política da autoridade", "o idioma por excelência da autoridade": o anarquismo. O primeiro capítulo é-lhe, pois, dedicado.
E é, diga-se, uma brilhante exposição que nos cativa para as páginas que se seguem. Mas este começo pelo anarquismo não é apenas um expediente discursivo ou o cumprimento de um ditame didáctico, ele terá, como é evidente em especial nas últimas páginas, um papel de contraponto àquilo que o autor defende como imprescindível à existência da autoridade democrática.
O segundo capítulo, Em Nome do Pai, é uma excursão aos, digamos, fundamentos psicológicos, mas fundamentalmente teológicos, da autoridade, numa linha de pensamento que liga a "morte de Deus" do anarquismo, o paternalismo e o patriarcalismo (em boa parte em diálogo com Freud), os fundamentos teológicos da autoridade e do poder, mantendo como pano de fundo a questão da liberdade do homem, ou, dito de outra maneira, o permanente dilema entre a acção ditada pela razão individual e a aceitação da autoridade em nome do bem geral.
Em Auctoritasas, título do terceiro capítulo, Morgado expõe alguns dos conceitos básicos da doutrina romana do político, que situam e discutem o conceito de autoridade, em especial com as razões da sua existência e os seus modos de funcionamento; com Kierkegaard e Weber, e os sempre presentes Tocqueville e Montaigne, aprofunda um dos aspectos mais pertinentes na discussão do tema, a legitimidade, em estreita ligação com o problema da liberdade e da individualidade.
Os últimos capítulos, A Autoridade Democrática e Conclusão, são um desafio às nossas convicções, ou, melhor dizendo, às nossas avaliações frequentemente superficiais das realidades. Surpreenderá, creio, tanto conservadores como progressistas. Não deixará, estou convicto, de dever ser lido e profundamente discutido - este desejo poderá ser considerado uma deficiente avaliação da realidade...

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