Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas Portugal: os números
   

Portugal: os números

de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas

Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas em viagem pela estatística das últimas décadas. Ler mais

3,50 5€ na versão capa dura

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Portugal: os números

de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas

As estatísticas postas ao dispor dos portugueses através da Pordata, em 2010, servem de indicadores sobre as tendências sociais ocorridas em Portugal, no último meio século. Maria João Valente Rosa, professora universitária e demógrafa, e Paulo Chitas, jornalista e docente do ensino superior, propõem uma leitura sobre as trajectórias de Portugal em áreas como a população, o Estado Social, o trabalho e os rendimentos, a justiça, a família e os modos de vida. Uma viagem que conta os rápidos avanços que o País efectuou desde 1960 mas que também não esquece bloqueios e obstáculos ao progresso social que persistem e que são motivo de incomodidade.

Edição de 2010

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Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas

 

Maria João Valente Rosa, professora universitária, nasceu em Lisboa em 1961. Licenciada e doutorada em Sociologia, pela FCSH/UNL. Directora da Pordata — Base de dados Portugal Contemporâneo —, é autora de vários estudos publicados sobre a população portuguesa. Desempenhou funções de dirigente em organismos públicos dos Ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Integrou o Conselho Superior de Estatística e assegurou a representação nacional em várias instâncias europeias e internacionais (Comissão Europeia, Eurostat, OCDE) relacionadas com a produção de estatísticas. Paulo Chitas, jornalista, nasceu em Loures em 1967. Licenciado em Filosofia e mestre em Sociologia (especialidade de Demografia), pela FCSH/UNL, é também professor do ensino superior. Actualmente grande repórter da revista Visão, trabalhou também para televisão e para outros títulos de imprensa portuguesa, cobrindo preferencialmente temas de ambiente, ensino e de política nacional.

 

Maria João Valente Rosa

Com uma vida profissional dedicada à estatística, acha que os números falam por si?

Os números falam por si, traduzem realidades, factos que são quantificáveis.
Infelizmente, porque os números falam por si, as tentativas de os silenciar, de não os revelar, acontecem por vezes. A mentira que é atribuída aos números tem a ver, não com eles, mas com as manipulações a que muitas vezes são sujeitos.
Os números são um ponto de partida essencial para nos conhecermos melhor, para pensarmos a sociedade. É preciso saber ouvir o que os números transmitem, o que nem sempre é simples. Por isso, é importante contribuir para disseminar, com rigor, os números e o seu significado, mas de forma simples, permitindo que todos os interessados a eles tenham acesso. E aqui considero que Portugal, em especial nos anos mais recentes, tem feito significativos avanços na forma como a informação estatística é produzida e divulgada.

Acredita que em Portugal as pessoas estão abertas a debater publicamente os temas relevantes da sociedade?

A sociedade é feita de homens, é algo que nos implica a todos. Por isso, o interesse em debater o que somos é geral, acredito!
Mas, para debatermos seriamente temas de sociedade, precisamos de ter informação. É a partir dela que o pensamento se constrói. Ora, é aí que muitas vezes o desespero acontece. Perante o desconhecimento de uma realidade objectiva, muitas pessoas passam a dissertar sobre realidades fictícias, e opinativas, ou pura e simplesmente desistem de participar no debate, passando a pensar pela cabeça de outros.
Assim, a falta de debate aberto atribuo-a muito a alguma dispersão dos números, que dificultam o acesso à origem das temáticas que nos envolvem a todos – ou seja, o acesso aos factos e ao seu exacto sentido –, e não tanto ao menor interesse em se discutir sobre temas da sociedade.

É possível tornar as estatísticas uma linguagem acessível para a todos?

As estatísticas lidam com números que não são abstractos, representam realidades que a todos dizem respeito.
Reconheço que nem sempre é fácil encontrar a boa fórmula de contacto entre o produtor de informação, que tem como imperativo o rigor estatístico, e o utilizador, que necessita de uma mensagem clara e simples. Mesmo em termos de linguagem, são dois mundos com frequente falta de sintonia. E é precisamente aí que está o grande desafio: o de as estatísticas serem compreendidas por todos os que nelas estão interessados sem pecarem no rigor. Embora não seja fácil consegui-lo, sei que é possível. É uma ambição que não está muito longe das nossas capacidades actuais. A Pordata – Base de Dados de Portugal Contemporâneo – é, aliás, um bom exemplo disso.

Paulo Chitas

Sendo um repórter de Política Nacional, como foi a experiência de analisar estatística portuguesa?

Embora actualmente escreva sobre temas de política nacional para a revista Visão, a minha ligação às estatísticas tem quase duas décadas, como jornalista e como demógrafo. Contudo, a experiência de escrever Portugal: os Números foi mais intensa e extensa do que as que havia tido em momentos anteriores. Mais intensa pela necessidade de esclarecer certas tendências para os quais as estatísticas apontavam mas cujas causas desconhecia (por exemplo, o aumento dos divórcios no pós-25 de Abril ou o rápido aumento do número de empresas, entre 2003 e 2004…); mais extensa pela abrangência do ensaio, que analisa dados de 12 áreas temáticas diferentes, da economia à cultura. Mas foi acima de tudo um agradável desafio – e um privilégio – ter a oportunidade de analisar áreas tão diversas da história recente da sociedade portuguesa.

Acredita que o preço dos livros é uma barreira à leitura?

Não julgo que o preço dos livros seja uma barreira à leitura. Por um lado, porque os preços baixaram, nos últimos anos. Por outro, porque os livros estão cada vez mais perto de todos nós, graças à densidade da rede de bibliotecas públicas e de bibliotecas escolares. Claro que continuarão a existir livros bastante caros – por exemplo, alguns sobre Matemática avançada têm preços astronómicos… – mas é certo que os livros base, essenciais para uma formação condigna ou para fruir do prazer da leitura, são acessíveis à maioria da população, por vezes apenas pelo preço do cartão de leitor da biblioteca. Em Portugal não há o hábito, como em muitos outros países – lembro-me do Canadá –, de ir à biblioteca mais próxima de casa buscar os livros de que necessitamos ou de aí ler os jornais e revistas da semana…

Pensar livremente – acha que os portugueses gostam de formar opiniões?

Para pensar sem entraves, não basta ter o nível de liberdade suficiente para se exprimir uma opinião, é preciso ter informação de qualidade para a sustentar. Daí que repute de muito útil o projecto da Pordata – põe ao dispor de todos os que têm acesso à Internet, através de dois ou de três cliques, a informação essencial para se compreender como evoluiu um determinado aspecto da sociedade portuguesa.
A informação torna redundantes discussões que incidem sobre os factos quando deviam confrontar opiniões. Para pensar livremente, é preciso saber o que somos, o que temos, como fomos e como estamos a evoluir – é preciso dispor de informação. Então é altura de a interpretar e de apresentar argumentos, desenhar políticas, convencer opositores e interlocutores das nossas propostas. Mostrar que a nossas «opiniões» são fundadas e que merecem a adesão dos outros. E não perder muito tempo com escaramuças inúteis em torno daquilo que considero um direito inalienável mais do que um privilégio – informação de qualidade e facilmente disponível. Só então se «pensa livremente».