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14.10.2011
A República
Chamem-lhe deformação profissional se quiserem, mas sempre que sei da publicação de um livro português de teoria política não consigo domar o meu entusiasmo nem a minha expectativa. Talvez se deva à raridade do acontecimento, mas é mais forte do que eu. E quando o livro é cuidado e meditado; quando é escrito por alguém que sabe do seu ofício; então, a minha rendição é quase total. Talvez isso se deva a esta coincidência entre expectativa e constatação ser ainda mais rara no nosso País. Idiossincrasias à parte, o Ensaio Respublicano de Fernando Catroga é tudo isto e um pouco mais.
O projecto de Catroga foi o de escrever uma história intelectual da república. Isso quer dizer que esteve mais preocupado com a ideia de república do que com os detalhes da sua concreção histórica. Mas é possível dizer que, na verdade, é a evolução da ideia de república que o seduz, mais do que os problemas e potencialidades essenciais da ideia enquanto ideia. Essa opção fortalece e enfraquece o livro. Fortalece porque proporciona uma excelente visão panorâmica da história da ideia de república na Europa. Enfraquece porque, com tanta pressa em fazer a viagem, Catroga por vezes esquece-se de apreciar a paisagem.
A contragosto acrescento que só tenho pena que Catroga insista num caminho interpretativo já tantas vezes percorrido, e que a cada curva na estrada para Cambridge se revele um outro impasse: o do Maquiavel ciceroniano, “patriota” e “republicano”. Tenho muita pena que Catroga recomende que na obra do grande florentino não se traduza o italiano virtù por “virtude”, não obstante este absurdo tantas vezes acolhido pelos nossos tradutores condenar parágrafos inteiros de O Príncipe ou dos Discursos à pura ausência de sentido. Tenho pena que, apesar de Rousseau ser abundantemente referido, Catroga não se pronuncie sobre um dos principais contributos do genebrino para a discussão moderna do republicanismo, a saber, a distinção entre o republicano patriota e o burguês. Tenho pena que Catroga permita que se arraste a “virtude” republicana para uma confusão essencial com a liberdade e até com o exercício dos direitos. Tenho pena que houvesse uma assimilação a meu ver insustentável entre a tradição do “governo misto” e a doutrina da separação de poderes, para não mencionar a omissão de uma bifurcação fundamental na tradição republicana, que nos obrigaria a trabalhar a distinção entre a sua variante aristocrática e a sua variante popular.
Tenho estas penas todas. Mas apenas porque a notável qualidade do Ensaio as merece. -
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30.09.2011
Debate Pensar Portugal - Fernando Catroga e Fernando Rosas debatem "A República" com moderação de António Araújo. Veja os vídeos do debate aqui.
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