David Justino Difícil é Educá-los
   

Difícil é Educá-los

de David Justino

O atraso da educação e a urgência em se reflectir sobre o seu futuro. Ler mais

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Difícil é Educá-los

de David Justino

Partindo da consciência do atraso educativo português, o autor analisa os diferentes factores que o poderão explicar, centrando-se em três dimensões: mais educação, melhor educação e maior equidade social. Conclui que a evolução do sistema de ensino se traduziu num aumento da escolarização e dos indicadores de cobertura nacional, mas nem por isso conseguiu atingir os níveis de qualidade correspondentes às expectativas dos portugueses. Esta evolução divergente não permitiu nem uma maior equidade social nem o retorno esperado do investimento realizado. Depois de recolocar o problema dos objectivos do sistema de ensino e do papel a desempenhar pelo Estado, o autor aborda as dificuldades de reforma e a urgência em se reflectir sobre o futuro da educação.

Uma edição da FFMS e da Relógio d'Água.

Edição de 2010

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David Justino

 

David Justino nasceu em Oeiras, em 1953. Licenciado em Economia e doutorado em Sociologia, é actualmente professor associado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Discípulo de Vitorino Magalhães Godinho, iniciou a sua carreira académica como docente e investigador no domínio da economia e sociologia históricas, doutorou-se em 1987, tendo recebido o Prémio Calouste Gulbenkian de Ciência e Tecnologia (1987). Foi deputado eleito pelo círculo eleitoral de Lisboa (1999 e 2002) e desempenhou o cargo de ministro da Educação do XV Governo Constitucional (2002-2004). Para além de docente do Departamento de Sociologia da UNL e investigador do CESNOVA, desempenha desde 2006 as funções de assessor da Presidência da República para os Assuntos Sociais.

 
Perdemos ou não trinta a quarenta anos com as reformas de educação desde os anos setenta?

O que tento demonstrar neste livro é o facto de Portugal ter feito alguns progressos assinaláveis no que diz respeito à oferta de educação e à sua generalização: mais anos de escolaridade, mais oportunidades, maior facilidade de acesso, mais professores, escolas melhor apetrechadas, maior investimento, etc. Porém esse aumento quantitativo de educação não correspondeu idêntico aumento da qualidade de educação. Todos os indicadores convergem na ideia de termos estagnado e perdido vantagem em relação aos nossos parceiros europeus e outros países ao nível mundial. Nesta perspectiva, o balanço que se faz das reformas não é satisfatório face aos resultados obtidos e muito menos face às expectativas que foram criadas. Isto não quer dizer que o mal esteja só nas reformas adoptadas, estará também na forma como elas foram concretizadas.

Como classifica e comenta esta expressão tão em voga: “O aluno no centro da educação”?

Esta é uma falsa questão. O ensino e a educação resultam de processos de interacção social que se desenvolvem no contexto da escola, mas também da família, da comunidade e da sociedade em geral. Se há alguma coisa a centrar é nessa relação que se estabelece entre professor e aluno, pais e filhos, e nunca só num dos actores em presença. O que conta é a forma como se ensina e como se aprende, como se educa e como se é bem ou mal educado. É o processo de ensino-aprendizagem que deve estar no centro da educação.

Como foi possível que mais de vinte ministros da educação, de vários partidos, tenham convergido tão fortemente nas mesmas políticas educativas durante tantos anos?

Mas está demonstrado que houve convergência de políticas educativas? Não creio que tenha existido de forma generalizada como a pergunta indicia. Não me preocupo muito com os “mais de vinte ministros da educação”, o que me preocupa é a continuidade das políticas que se revelam estruturantes e indispensáveis à qualificação do sistema de ensino, independentemente dos ministros que as adoptam ou que as concretizam. Costumo fazer uma analogia com a construção de uma calçada: há que partir a pedra primeiro, calcetar depois e, por fim, passar por ela. Raramente um Ministro da Educação em Portugal consegue fazer mais do que uma daquelas tarefas. O ciclo político é claramente mais reduzido que o ciclo das reformas da educação. Algumas “calçadas” têm vindo a ser construídas e completadas, muitas outras foram abandonadas ou recorrentemente substituídas por defeitos de construção ou por vontade de “mostrar obra”. O que proponho neste livro é começarmos a pensar sobre onde nos leva a “calçada”, qual o destino que pretendemos, que tipo de “calçada” é que pretendemos de acordo com os nossos recursos, que adaptações é necessário fazer para tornear alguns obstáculos. Estou mais preocupado com a concepção, o planeamento. A “obra” virá depois. São muitos anos a fazer “obra” sem projecto.