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in Jornal de Letras
16.08.2011
Difícil é educá-los
Difícil é educá-los, de David Justino, é o novo título, a chegar às livrarias ainda esta semana, da Coleção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se iniciou com o livro de Maria do Carmo Vieira, também aqui 'revelado', e que continua a suscitar debate (ler p. 6). Entrevistamos, sobre ele, o prof. da Universidade Nova e ex ministro da Educação, e antecipamos algumas páginas da obra
"Sinto todos os dias é que se perdeu o sentido de futuro na Educação", diz-nos David Justino, 57 anos, a propósito do seu livro Difícil é educá-los, com o qual pretende "chegar muito além do acanhado círculo dos especialistas", antes "chegar ao cidadão comum que não tem que saber de Ciências da Educação ou de Sociologia para perceber os problemas da escola e da educação em Portugal".
Natural de Oeiras, em cuja câmara foi vereador (com o pelouro da Habitação Social) entre 1994 e 2001, David Justino é licenciado em Economia, pela Universidade Técnica, e doutorado em Sociologia, com uma tese orientada por Vitorino Magalhães Godinho, pela Universidade Nova (ambas de Lisboa). Foi docente no Instituto Superior de Economia e Gestão (1976-1980), e hoje é prof. da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova de Lisboa (FCSH-UNL), onde fez há poucas semanas as suas provas de agregação (aprovado por unanimidade), sendo em simultâneo consultor da Presidência da República para os Assuntos Sociais, desde que, em 2006, Cavaco Silva foi eleito Presidente. Entretanto, além de colaborador da Universidade de Évora ou da Fundação Luso-Americana, entre outras instituições. Militante e, a certa altura, dirigente do PSD, foi ainda deputado à Assembleia da República, entre 1999 e 2002, e seu porta-voz para a Educação, ocupando, como se disse, entre 2002 e 2004, o cargo de ministro da Educação do XV Governo Constitucional, chefiado por Durão Barroso. Entre a sua bibliografia contam-se obras como A Formação do Espaço Económico Nacional Portugal 1810- 1913 (2 vol.), à qual foi atribuído o Prémio Calouste Gulbenkian de Ciência e Tecnologia, e História da Bolsa de Lisboa.
Jornal de Letras: Como surgiu, ou qual o ponto de partida, deste Difícil é educá-los?
O livro é produto de uma reflexão desenvolvida ao longo dos últimos cinco anos sobre os problemas da Educação em Portugal e de algum distanciamento em relação às "políticas educativas". ". Logo que regressei à minha atividade académica, em 2005, decidi retomar a investigação em Sociologia Histórica Comparada, voltei a ler e a ensinar os clássicos das Ciências Sociais com uma atenção redobrada sobre os problemas da Educação. Paralelamente desenvolvi com mais dois colegas da FCSH- UNL um projeto de investigação que nos conduziria à formação da atual Rede de Escolas de Excelência que integra cinco municípios e 37 agrupamentos e escolas não agrupadas com quem temos vindo a trabalhar no domínio da autoavaliação. Este duplo investimento permitiu-me centrar a minha atenção sobre o funcionamento das escolas, os problemas do desempenho escolar, ao mesmo tempo que me (re)situava face às grandes conceções e problemas da educação em geral. É nesta perspetiva que eu digo que me distanciei um pouco - não completamente - das "políticas educativas".
Mas agora aproximou-se de novo delas?
Sim, de certa forma este livro é um regresso às políticas, mas trazendo comigo a experiência e a reflexão que o ensino e a investigação durante os últimos cinco anos me proporcionaram. Só tinha uma preocupação: não me deixar envolver por este ambiente de "bancada central" em que se transformou o debate sobre Educação. Por isso tenho evitado comentar esta e aquela medida da ministra A ou da ministra B para não alimentar esse ambiente que em nada ajuda ao desenvolvimento da Educação e formação das novas gerações.
Tem, no entanto, seguido com atenção, e se calhar preocupação, o que se passa nessa área...
A minha maior preocupação é o futuro e aquilo que sinto todos os dias é que se perdeu o sentido de futuro na Educação. Tudo é feito em função do imediato. Ainda que essa ação tenha consequências no futuro, ela não é orientada em função de uma ideia e de uma conceção do que pretendemos da educação dos nossos filhos, dessas novas gerações que estão agora a entrar no sistema de ensino. Por isso escrevo no livro que se perdeu, de há muitos anos, o sentido de futuro na Educação. Quando isso acontece todos somos levados a adotar uma atitude 'remediativa' em vez de concretizarmos uma estratégia previamente construída.
Acha que falta uma ideia de futuro à generalidade os agentes educativos, professores, pais, alunos?
Sinto que falta uma orientação, um caminho que todos possam trilhar em conjunto, algo que possa dar visibilidade e, ao mesmo tempo, suscitar a sua adesão e empenhamento. Sem isso tudo se reveste de um caráter errático. Continuamos a 'chafurdar' sobre o passado e o presente, transformámos a Educação num vasto campo de confronto de ideologias, conceções, lugares comuns, estereótipos, que mais não fazem que aumentar a instabilidade do sistema de ensino. De certa forma, este meu livro é um apelo, um desafio, para que possamos, nem que seja por momentos, refletir sobre se é essa a opção que desejamos para os nossos filhos. Repare que eu coloco uma questão muito simples ao leitor: quantos anos serão necessários, em média, para formar uma criança acabada de entrar no jardim de infância? Aponto para uma duração média de 15 anos. Isto significa que deveríamos estar a pensar em que Educação é que precisamos ter até 2025. Que perfis de formação é que o país vai precisar para 2025, 2030, 2050?
Ninguém se preocupa com isso?
Parece que não. E assim sendo, como poderemos criticar os professores e as escolas se não lhes damos as orientações necessárias para ensinarem e formarem as novas gerações? O que pretendo com este livro é não só fazer o balanço, mas também convidar o leitor a pensar em função do futuro, a reorientar as suas preocupações para questionarem os responsáveis sobre o que querem para daqui a 15, 20 ou 40 anos. E urgente uma visão prospetiva, de preferência construída sobre uma reflexão aturada e uma estratégia consensualizada.
Será necessário fazer um balanço da evolução da Educação em Portugal?
Perante a incomodidade generalizada face aos resultados, não é necessário - é urgente. E foi isso que agora tentei fazer, recorrendo à análise de longa duração, às grandes tendências onde se inscrevem os problemas fundamentais. Quis fugir ao imediato, à pressão da polémica, à tentação de andarmos a fazer julgamentos em vez de analisarmos e explicarmos de forma rigorosa - e tanto quanto possível distanciada - das medidas dos sucessivos governos. Por isso evitei falar das medidas específicas de política educativa, evitei falar dos meus antecessores e sucessores, evitei a tentação de explicar ou branquear as medidas e iniciativas de que fui responsável enquanto ministro da Educação.
Fá-lo com uma intenção ou um objetivo pedagógico?
- Claro, este livro tem também tal intenção ou objetivo. Pretende chegar muito além do acanhado círculo dos especialistas, quer chegar ao cidadão comum que não tem que perceber de Ciências da Educação ou de Sociologia para perceber os problemas da escola e da educação em Portugal. Essa era a minha pretensão sem querer ser pretensioso. Utilizar linguagem simples, na medida do possível, adotar um estilo mais ensaístico e menos académico, tentar desmontar os raciocínios muito elaborados que se perdem em abstrações inúteis.
Pode-se dizer que o livro tem uma tese?
A tese que tentei demonstrar é que houve avanços significativos no que designei por "mais Educação" (mais recursos, mais alunos, mais escolarização), o que foi positivo. Mas, simultaneamente, não conseguimos assegurar "melhor Educação", daí o nosso atraso educativo face aos nossos parceiros internacionais. O tipo de sociedade que o devir nos apresenta vai ser muito exigente e competitiva no que respeita à qualidade da Educação. Por isso nos confrontamos com um desafio que poderá ser a última oportunidade de nos mantermos no concerto das nações mais desenvolvidas. Se o atraso é já secular, a margem que dispomos para o recuperar é cada vez mais reduzida. Se não o fizermos nas próximas duas décadas, podemos ficar irremediavelmente para trás.
Quanto ao título...
... é uma glosa do título feliz do livro de Marçal Grilo, Difícil é Sentá-los, que reflete a preocupação de uma professora confrontada com problemas de indisciplina por parte dos seus alunos, preocupação que também da sociedade e dos responsáveis políticos. O que tento sugerir é se os educarmos como se impõe eles facilmente se sentam. O problema, na minha perspetiva, não está em fazê-los sentar, mas em educá-los bem, o que não tem acontecido. Por isso digo que o Difícil é educá-los.

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