A crise está a mudar-nos?
Este debate contará com a participação activa dos convidados até dia 30 Abril 2012.
- Moderador
- Vasco Barreto
- Convidados
- Eduardo Vítor Rodrigues
- Elísio Estanque
- Pedro Romano
Obrigado!
Veja aqui o agradecimento
a todos os participantes
Após uma longa hibernação, retomamos esta semana os debates on-line que iniciámos em 2011. “A crise está a mudar-nos?” é o tema e a pergunta articula-se com quatro outros contributos da FFMS: o portal “Conhecer a crise”, o anuário XXI, o ensaio A Classe Média: Ascensão e Declínio e uma discussão pública do livro, a ter lugar no próximo dia 27 de Abril, às 19 horas, no El Corte Inglês, em Lisboa. Durante os próximos dias, contaremos aqui com a presença do autor do ensaio, o sociólogo Elísio Estanque, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, de um seu colega, Eduardo Vítor Rodrigues, investigador do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e de Pedro Romano, jornalista do Negócios que escreve sobre macroeconomia, contas públicas e economia internacional. De hoje até ao dia 30 de Abril, esperamos também que os leitores participem activamente nesta discussão, fazendo perguntas e ensaiando respostas.
É talvez oportuno esclarecer primeiro o que este debate não deve ser, para evitarmos cair na discussão natural que a crise suscita: não se pretende encontrar a solução mágica para os problemas do País, pois se nem os economistas se entendem sobre a matéria não devemos colocar esse ónus sobre os sociólogos. O que se pretende é conseguir uma descrição rigorosa do impacto presente e futuro da crise no segmento da população a que quase todos dizem pertencer mas poucos se entendem sobre o que é: a classe média. E como as medidas dos PEC e do orçamento de 2012 são do conhecimento de todos, evito fazer um apanhado e lanço de imediato para a mesa algumas questões que a leitura do ensaio de Elísio Estanque me suscitou e que qualquer membro do painel ou leitor pode responder, de acordo com a sua preferência:
1. Sem perder tempo com as declarações estapafúrdias de um empresário que se definiu como um “simples assalariado”, creio que o exemplo mais recente e caricato das diferentes percepções sobre o que é a classe média, em Portugal e na Europa, é da autoria do Professor Leite de campos, quando afirmou que um salário médio de 5800 euros mensais líquidos corresponde à “classe média-baixa” em qualquer país da Europa e que um salário de 1000 euros é “miséria”. Mas a verdade é que mesmo entre os sociólogos parece não haver consenso sobre a matéria. Ora, se vamos passar uma semana a discutir o impacto da crise na classe média, proponho que comecemos por defini-la.
2. Há quem veja esta crise e a intervenção externa como uma oportunidade para mudarmos maus hábitos, como o consumismo absurdo e a iliteracia financeira. Sem esquecer que se tratará seguramente apenas de uma oportunidade para quem não perdeu o emprego, faz algum sentido esperar uma mudança perene nesses hábitos, visto que esta é já a terceira intervenção externa desde o 25 de Abril e parece que a memória das duas anteriores se esbateu rapidamente?
3. No livro de Elísio Estanque, a fragilidade da classe média portuguesa é, em parte, explicada por termos evoluído demasiado depressa, passando de uma sociedade em que predominava o sector primário (agricultura) para uma sociedade em que o sector terciário (serviços) cresceu muito, sem a mediação de um sector secundário (indústria) forte. Também se refere que o Estado-Providência foi o grande responsável pelo crescimento da classe média, indirectamente (com a massificação do ensino superior) e directamente (com a redistribuição dos recursos e o funcionalismo público). Perante tamanha falha estrutural e com este modelo de sociedade em causa, é possível ter algum optimismo?
4. Creio que ninguém passa necessariamente por marxista se disser que a classe média atenua as tensões sociais. Mas como se explica que, sendo a nossa classe média tão frágil, e estando tantas pessoas a cair na pobreza, haja - aparentemente - uma tolerância tão grande para as medidas que têm sido impostas? No livro fala-se de um curioso fenómeno psicológico que pode ser parte da explicação: que a ascensão social é vista como definitiva e a perda de estatuto social como transitória. Mas se este é um comportamento universal, não serve para explicar as diferenças entre o que aconteceu na Grécia e o que não acontece em Portugal. Trata-se apenas de uma resposta proporcional à maior gravidade da situação na Grécia ou precisamos de invocar uma idiossincrasia lusa?
5. Se me é permitida uma provocação, nas minhas parcas leituras de obras de sociologia deparei-me já com o aviso de que não podemos atribuir traços de personalidade a povos, mas sempre como ressalva, porque depois o autor não resiste mesmo a atribuí-los. É preciso fazer justiça a Elísio Estanque, porque não encontrei a ressalva neste livro e a sua explicação para os traços de personalidade não é obviamente genética, antes cultural (o catolicismo, o salazarismo, os "traços de ruralidade"), mas até que ponto, ao persistirem na descrição dos Portugueses como tomados por um “individualismo negativo” (Estanque) ou pelo “medo de existir” (Gil), não estarão os intelectuais, numa linhagem que vem pelo menos desde Antero, a legitimar com eufemismos as palavras de Passos Coelho, que usou o termo “piegas”, e a desculpar a eventual má governação? E, a ser verdade, quão conjuntural é este traço de carácter, se parece durar há tanto tempo, e que esperança há de mudar Portugal sem quem mudem radicalmente os Portugueses?
Elementos biográficos
Elísio Estanque é doutorado pela Universidade de Coimbra em Sociologia, com a tese Entre a Fábrica e a Comunidade (2000), e integra a equipa do Centros de Estudos Sociais da mesma universidade.
Eduardo Vitor Rodrigues é Doutorado em Sociologia desde 2006, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a Tese “Escassos Caminhos: os processos de imobilização social dos beneficiários do RSI”, e Professor auxiiar na mesma universidade.
Pedro Romano é jornalista do Negócios desde Janeiro de 2010. Escreve sobre macroeconomia, contas públicas e economia internacional. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade do Minho, começou a fazer jornalismo em 2008, no Diário Económico.

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